A saga de Kobani, cidade síria que luta sozinha contra o EI

Combatentes de Kobani travam uma violenta batalha com os jihadistas e na qual está em jogo a sobrevivência da população local

São Paulo – Localizada há poucos quilômetros da fronteira com a Turquia, a cidade de Kobani, que fica na Síria e tem os curdos como maioria de sua população, trava hoje uma violenta batalha contra os extremistas do Estado Islâmico (EI) e na qual está em jogo a sobrevivência de seu povo.

O local é há semanas alvo de ferozes ataques por parte do EI, que tenta tomar a região das mãos dos curdos do grupo Unidades de Proteção Popular (YPG), braço armado do Partido de União Democrática (PYD) que controla a cidade desde 2012.

Kobani se tornou parte essencial da estratégia de consolidação do EI, pois está localizada numa região que é uma importante porta de entrada de novos recrutas e faz parte da rota usada pelos jihadistas para a exportação de barris de petróleo no comércio ilegal.

A coalização internacional liderada pelos Estados Unidos vem realizando ataques aéreos em pontos da cidade nos quais acreditam que os militantes do EI estão. Apesar disso, os americanos reconhecem que esta ofensiva “não irá salvar Kobani”.

Já o governo turco por sua vez, declarou que não irá se mobilizar sozinho para uma invasão por terra ao território da Síria. Tampouco permitiu que ativistas e refugiados cruzassem a fronteira para levar suprimentos ou ajudar na luta.

Enquanto isso, Kobani sucumbe sozinha: a pequena parcela da população que restou se encontra sem comida ou acesso à água potável, enquanto que seus combatentes estão na iminência de ficarem sem munição.

Horror

A violência com a qual o EI trava seus combates já se tornou conhecida pela população da cidade. Uma militar curda, por exemplo, foi decapitada e teve seus seios cortados fora. Esta brutalidade, contudo, não ficou reservada apenas aos combatentes.

“Vi centenas de corpos sem cabeça pelas ruas da cidade”, revelou ao The Independent um homem que conseguiu escapar para a Turquia. “Rostos sem olhos e bocas sem línguas. Enquanto eu viver, jamais me esquecerei destas cenas.”

Os casos de estupros de mulheres e meninas são inúmeros. Uma refugiada contou ao The Guardian ter se deparado com os corpos de sua irmã e sua sobrinha de apenas 8 anos enquanto fugia. Ambas foram estupradas e tiveram os corações arrancados de seus corpos.

Até pouco tempo, Kobani contava com cerca de 400 mil habitantes. Porém, centenas conseguiram ir para a Turquia e, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), apenas 12 mil civis permanecem por lá.

Muitos se negaram a deixar seus lares. Tantos outros não tiveram esta opção e estão encurralados por jihadistas, que já controlam 40% do território. A população remanescente é, em sua maioria, formada por crianças, mulheres, doentes e idosos.

Fortemente armados com equipamentos roubados do exército iraquiano e sírio, o EI vem avançando sobre o que resta da resistência local, que agora é composta não apenas por militares curdos, mas também por cidadãos comuns.

Para especialistas, o destino de Kobani já esta selado. Sua queda é inevitável e, na visão da ONU, a vitória dos jihadistas pode significar o massacre daqueles que sobreviverem para ver a já conhecida bandeira preta do EI tremular no topo mais alto da cidade.