Na Otan, uma disputa inevitável

Lourival Sant’Anna

Era só uma questão de tempo. Mais dia menos dia, as posições inconciliáveis entre o presidente Donald Trump e os governantes dos principais países europeus sobre as responsabilidades de cada um na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se explicitariam. Sob pressão do secretário de Estado americano, Rex Tillerson, numa reunião em Bruxelas nesta sexta-feira, para que os aliados gastem 2 por cento de seus PIBs com defesa, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, finalmente reagiu com um sonoro “nein”.

“Dois por cento significaria gastos de cerca de 70 bilhões de euros”, disse Gabriel, cujo país investe atualmente 1,19 por cento do PIB em defesa, mas se comprometeu, junto com os os outros aliados, a alcançar os 2% até 2024. “Não conheço nenhum político alemão que defenderia que isso é alcançável ou desejável.” Integrante do Partido Social-Democrata, de centro-esquerda, que governa em coalizão com a União Democrata-Cristã, de centro-direita, Gabriel é pessoalmente contrário ao aumento dos gastos com defesa.

Dos 28 países da Otan, apenas 5 atingem atualmente a marca de 2 por centro com gastos militares: Estados Unidos (3,61 por cento), Grã-Bretanha e Grécia (ambas 2,38 por cento), Estônia (2,16 por cento) e Polônia (2 por cento). A interpretação da Alemanha e de outros aliados europeus é a de que o patamar de 2 por cento é uma “diretriz”, não um “compromisso”.

Durante a campanha, Trump chamou a Otan de “obsoleta” e indicou que, se os aliados não aumentassem seus gastos com defesa, os EUA poderiam não defendê-los contra uma eventual agressão da Rússia. Em fevereiro, o secretário de Defesa americano, general James Mattis, já havia apresentado a posição de seu país, em reunião com seus colegas da aliança. Mas o clima foi mais ameno, com o secretário-geral da Otan, o norueguês Jens Stoltenberg, salientando a importância de os países membros atingirem a meta para o fortalecimento do bloco.

Dessa vez, no entanto, o clima já azedou antes mesmo de a reunião dos chanceleres começar. Ela estava marcada para a semana que vem, mas Tillerson avisou que não poderia ir porque ia participar do encontro entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, na sexta-feira, no balneário do bilionário americano em Mar-a-Lago, na Flórida. A tensão em torno desse encontro aumentou na noite de quinta-feira, depois que Trump tuitou: “A reunião na próxima semana com a China será muito difícil no sentido de que não podemos mais ter enormes déficits comerciais e perdas de empregos. As empresas americanas precisam estar preparadas para olhar para outras alternativas”.

A reunião da Otan teve então de ser antecipada, para garantir a presença do secretário de Estado americano. Entretanto, sua passagem por Bruxelas foi tão rápida que ele não teve tempo para reuniões bilaterais com os ministros dos principais países, como é comum nesses encontros. “Como o presidente Trump tem deixado claro, não é mais sustentável para os EUA manter uma fatia desproporcional dos gastos com defesa da Otan”, disse Tillerson aos ministros dos outros países. “Os aliados precisam aumentar seus gastos com defesa, demonstrar com seus atos que compartilham o compromisso dos governos americanos.” Ele propôs que, na cúpula do dia 25 de maio, da qual Trump participará, os países demonstrem que até o fim deste ano cumprirão a meta dos 2% ou apresentem um plano para alcançá-la.

Em sua contestação, Gabriel argumentou que “mais dinheiro não significa mais segurança”. A posição dos europeus é que a contribuição dos aliados deve ser medida por sua participação nas operações militares da Otan. E, diferentemente da visão de Trump, segundo a qual a aliança “não combate o terrorismo”, a Otan fez a maior mobilização de forças da sua história no Afeganistão, depois da invasão americana, em 2001, para enfrentar o Taleban e a Al-Qaeda. E os europeus participaram maciçamente desse esforço.

Com relação às contribuições financeiras, também, a visão do presidente americano foi contestada pelos aliados. Depois da reunião no dia 17 com a chanceler alemã, Angela Merkel, marcada pela recusa de Trump de posar para os fotógrafos na Casa Branca apertando-lhe a mão, o presidente americano tuitou: “Apesar do que vocês ouviram das notícias falsas, tive uma ótima reunião com a chanceler alemã, Angela Merkel. Entretanto, a Alemanha deve vastas somas de dinheiro para a Otan e os Estados Unidos, que precisam ser pagos, pela defesa poderosa e muito cara que oferecem à Alemanha”.

A ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, desmentiu Trump: “Não há nenhuma dívida na Otan”. Apesar de tudo isso, o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, declarou em Berlim depois da reunião da Otan que o país está comprometido com o aumento dos gastos com defesa: “Sabemos que é necessário e faz sentido para fortalecer nossas Forças Armadas”. De sua parte, Tillerson reafirmou o compromisso dos EUA com a defesa dos aliados: “Os Estados Unidos estão comprometidos em assegurar que a Otan tenha capacidades para apoiar nossa defesa coletiva. Vamos manter os acordos que fizemos de defender nossos aliados”.

O secretário americano salientou a importância da Otan para conter agressões russas, sobretudo na Ucrânia. Na véspera, embaixadores de países membros da aliança em Moscou disseram ao embaixador russo perante a Otan, Alexander Grushko, que seu governo precisa conter os separatistas russos na Ucrânia. A Rússia tem dado apoio velado aos milicianos de etnia russa no leste da Ucrânia desde a eclosão do movimento separatista, em 2014.

Por trás de toda essa polêmica estão presentes as suspeitas que pairam sobre as relações entre os governos de Trump e do presidente russo, Vladimir Putin. O FBI investiga a ação de hackers russos, aparentemente a serviço do Kremlin, no vazamento de emails da campanha de Hillary Clinton, que contribuiu para a vitória de Trump em novembro. Assim como as múltiplas ligações entre membros atuais e antigos da equipe de Trump e o governo russo, que já levaram o ex-conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn a perder o cargo e o secretário de Justiça, Jeff Sessions, a se declarar impedido de intervir nessas negociações. Ambos tentaram esconder conversas que tiveram com o embaixador russo em Washington, Sergey Kislyak. Trump manifestou, durante a campanha, admiração por Putin e desejo de criar uma cooperação com a Rússia no combate ao terrorismo.

A situação representa um giro radical em relação ao governo americano anterior, visto por Moscou como seu inimigo. O vice-chanceler russo, Sergey Ryabkov, disse na terça-feira na Duma, a Câmara dos Deputados, que, como herança do governo de Barack Obama, as relações entre EUA e Rússia “são as piores desde o fim da guerra fria”.

Fundada em 1949, a Otan é uma cria da guerra fria, para fazer frente ao poderio militar da antiga União Soviética e de seus aliados do Leste Europeu, reunidos no extinto Pacto de Varsóvia. Uma aproximação entre EUA e Rússia e uma diluição da aliança transatlântica entre americanos e europeus significariam o início de um novo ciclo da história.