A onda de xenofobia chega a um novo marco: a Suíça

Num momento de crise migratória no Mediterrâneo, o Partido Popular Suíço busca convocar um novo referendo para estabelecer cotas máximas de novos imigrantes

Zurique – Um em cada quatro moradores da Suíça é imigrante. Conhecido pela neutralidade na política externa, esse país figura entre os que mais recebem estrangeiros na Europa. Então, é natural que o motorista de ônibus seja português, que um francês responda pela área de compliance de um grande banco ou que uma australiana abra uma startup na esquina de casa. Mas o principal partido suíço, de ideais xenófobos, quer mudar isso e iniciou uma nova ofensiva para tentar limitar a imigração, visando também minar o acordo de livre circulação de pessoas com a União Europeia.

Num momento de crise migratória no Mediterrâneo, o Partido Popular Suíço (SVP, sigla em alemão) busca convocar um novo referendo para estabelecer cotas máximas de novos imigrantes. A estratégia já foi aprovada no fim de junho em reunião da legenda. O bloco europeu repudia essa discussão e, em 2014, quando os suíços apoiaram proposta semelhante do próprio SVP, até paralisou as negociações bilaterais. Contudo, para os políticos de extrema-direita, o resultado das urnas em 2014 não foi realmente colocado em prática. E, então, querem retomar a discussão.

Um dos pontos que reacendearam o debate é o aumento recente do número de refugiados que entram na Europa por meio da Itália, que faz fronteira com o sul da Suíça. Isso elevou a tensão na divisa entre os países e também com a Áustria. Apesar de pequena, a Suíça recebe muito mais refugiados que vizinhos do leste do continente, da região nórdica e até mesmo que Portugal e Espanha, por exemplo. E, em relação à taxa de imigrantes (25%), os suíços ficam atrás apenas de Liechtenstein, Luxemburgo e o Principado de Mônaco, na comparação europeia, de acordo com o Banco Mundial.

“Por causa da crise migratória no Mediterrâneo e na fronteira, pode ficar mais fácil para o SVP inflamar o debate”, avalia Etienne Piguet, professor da Universidade de Neuchâtel e vice-presidente da Comissão Federal de Imigração da Suíça. No fim do mês passado, por exemplo, a porta de vidro do departamento de imigração de Zurique foi apedrejada. A investigação do caso, porém, ainda não foi concluída.

O SVP segue a linha “nacional-populista”. A legenda foi a grande vitoriosa nas eleições parlamentares de 2015, quando passou a deter quase 30% do Congresso. Eles também defendem que seja escolhido um ministro de Relações Exteriores, cargo que ficará vago no fim de outubro, contrário ao acordo de livre circulação de pessoas e demais tratados com a União Europeia, o que pode azedar a relação bilateral.

Entre a realidade e o discurso

No dia-a-dia, sobram poucos argumentos para os extremistas. Quase 70% dos dois milhões de imigrantes na Suíça são do bloco europeu. A maioria é da Alemanha, França e Itália, e muitos deles são profissionais qualificados. Os brasileiros no país são quase 20.000, além daqueles que possuem dupla nacionalidade. Apesar do discurso extremista do SVP, que até acusa imigrantes de praticarem “dumping salarial”, a taxa de desemprego da Suíça é próxima de 5%, uma das mais baixas do mundo. Mas o partido alega que o governo perdeu o controle da imigração.

No ano passado, Y.L (iniciais), espanhola, de 34 anos, que preferiu não se identificar, foi para Zurique trabalhar como professora de espanhol. Ao perder o emprego, recebeu auxílio do governo suíço inclusive com aulas de alemão – língua local. Nove meses depois, ainda desempregada, ela relata: “Agora as autoridades me avisaram que, seu eu não for contratada até novembro, perderei o visto de trabalho”, necessário para empregos de longa duração.

A Suíça não faz parte da União Europeia, mas passou a ter acesso ao mercado único, quando concordou com algumas regras, como permitir a livre circulação de pessoas. Impor cotas de imigração seria ferir o tratado, na avaliação do bloco. “Um acordo internacional com a União Europeia está recebendo maior importância que a nossa Constituição, assim como o desejo da população de controlar a imigração”, alega o SVP.

Os suíços, em um referendo proposto pelos nacionalistas, aprovaram, por uma pequena maioria, medidas contra a “imigração em massa” em 2014. A decisão, inclusive, inspirou a nova geração de cineastas que, um ano depois, lançou a ficção “Heimatland”, filme sobre as diferentes reações da população diante de uma possível catástrofe natural e as consequências do isolamento político e social do país.

Pelo texto aprovado em 2014, ficou estabelecido um prazo para as mudanças legais. Então, em dezembro do ano passado, o Parlamento aprovou uma lei moderada, que determina preferência para contratação de suíços – sem estabelecer cotas para imigração para não violar o pacto com o bloco europeu. Irritado, o SVP, agora, planeja convocar a população às urnas novamente e, para isso, precisará recolher 100 mil assinaturas.

Logo após o referendo de 2014, a União Europeia e a Suíça passaram a rediscutir os termos dos acordos bilaterais, o que inclui a livre circulação de pessoas. Apesar de pequena, a Suíça tem um grande poder de compra e é hoje o terceiro maior parceiro comercial com o bloco europeu.

Pouco depois de SVP anunciar a nova tentativa de referendo, o ministro de Relações Exteriores da Suíça, Didier Burkhalter, fez questão de ressaltar que a relação bilateral tem, sim, o apoio da população e deve ser mantida diante dos benefícios econômicos, como investimentos e empregos gerados. O SVP reagiu e disse que as conversas são “desnecessárias, enfraquecem o nosso país e devem ser interrompidas imediatamente”. Burkhalter, do Partido Liberal Radical (FDP, sigla em alemão), está no cargo desde 2012, mas já anunciou que deixará a função no fim de outubro.

Em Berna, capital da Suíça, o governo já emitiu um comunicado expressando o desejo de estreitar as relações com a União Europeia. Mas os maiores partidos estão preocupados com as consequências da saída do Reino Unido do bloco. As negociações entre a Suíça e o grupo europeu seguirão, ao menos, até o fim do ano e Berna informou que, só então, dependendo dos resultados, vai “reavaliar a adequação de continuar” com contribuições para projetos de redução da desigualdade econômica e social na Europa Central e no Leste.