A nova crise dos mísseis

Rafael Kato

Napoleão Bonaparte teria dito certa vez que “é melhor ter um inimigo aberto do que amigos escondidos”. É com a sabedoria militar que o secretário de defesa dos Estados Unidos, o general reformado James “Cachorro Louco” Mattis, desembarcou nesta quarta-feira na Europa para uma série de encontros com ministros da defesa dos países membros da Otan, em Bruxelas, com o intuito de reforçar a aliança transatlântica — apesar das dúvidas colocadas durante a campanha pelo presidente Donald Trump — num momento de escalada das tensões com a Rússia.

“A OTAN está assentada no vínculo entre a América do Norte e a Europa, e nos bons e maus momentos, esse vínculo foi inquebrável”, disse Jens Stoltenberg, ex-primeiro-ministro da Noruega e atual secretário-geral da Otan, sobre o encontro. A pauta oficial de reunião de Mattis com suas contrapartes europeias se dividirá em duas questões: como a Otan pode trabalhar conjuntamente para combater o grupo terrorista Estado Islâmico e também sobre a possibilidade de enviar tropas multinacionais para os países Bálticos, ameaçados pelos ímpetos expansionistas russos.

Embora não seja confirmado pelas autoridades, a reunião deve abordar os riscos de uma nova família de mísseis colocados em operação pela Rússia, segundo reportagem do jornal The New York Times. Os mísseis de médio alcance do tipo SSC-8 teriam a capacidade de atingir a Europa Ocidental — cidades como Londres e Paris, por exemplo —, descumprindo um tratado sobre proliferação de armas com essas características de 1987 assinado entre a União Soviética e os Estados Unidos, da qual a Rússia, posteriormente, tornou-se signatária.

Segundo os serviços de inteligência dos Estados Unidos, há dois batalhões em operação equipados com os mísseis SSC-8. Um deles estaria localizado em Kapustin Yar, importante base nuclear próxima da fronteira com o Cazaquistão. O outro está em localização incerta — e descobrir sua posição seria difícil, já que as imagens via satélite não conseguiriam diferenciar os lançadores de mísseis de curto alcance daqueles de médio alcance.

Ao descumprir um tratado internacional, os novos mísseis são encarados como uma provocação de Putin. O líder russo poderia, por exemplo, ter equipado navios com o mesmo armamento e não descumpriria o acordo de 1987. Ao colocar a base de lançamento em solo russo, Putin está mais uma vez testando os limites da Otan — como fez, guardadas as proporções históricas, Nikita Khrushchev ao colocar mísseis soviéticos em solo cubano, nos anos 60, em resposta aos mísseis americanos estacionados na Europa.

O general da reserva americana Philip Breedlove, comandante da Otan até o ano passado, já havia alertado que a operação de mísseis desse tipo pela Rússia não poderia passar batido pela aliança ocidental, exigindo uma resposta enérgica. O reforço do escudo antimísseis na Europa seria uma opção. A maneira mais rápida para isso seria acelerar a implementação do sistema de defesa Aegis — anunciado pela administração de Barack Obama — em navios de guerra que patrulham o Mediterrâneo e o Mar do Norte.

É aí que residem os problemas. A resposta depende basicamente de mais investimento. “É uma demanda justa que todos os que se beneficiam da melhor defesa do mundo realizem sua parte proporcional no custo necessário para defender a liberdade”, afirmou Mattis em Bruxelas — ecoando um discurso repetido diversas vezes por Trump em campanha.

O presidente americano chegou a falar que a Otan estava “obsoleta” e reclamou do fato de seus países membros não contribuírem financeiramente como deveriam. De fato, dos 28 países membros da Otan, apenas Estados Unidos, Estônia, Grécia, Polônia e Reino Unido gastam 2% ou mais do PIB em defesa, como prevê o acordo de criação do organismo internacional. Stoltenberg entendeu o recado e reforçou o apelo para aos outros países. “Os EUA deixaram claro que precisamos de mais gastos com a defesa, e uma forma mais justa de repartição do fardo pela segurança”, afirmou.

Amigos ou inimigos?

Embora todos concordem que será necessário mais dinheiro, Mattis, no entanto, não dará uma indicação clara de como caminhará a estratégia militar dos Estados Unidos. “Com três semanas no cargo, ele está no modo de ouvir. Ele está no processo de aprendizagem para criar uma visão completa sobre as coisas”, afirmou o porta-voz do secretário antes da viagem. Na sexta-feira, ele participa de uma importante conferência sobre segurança internacional, na Alemanha, onde terá outra oportunidade de ouvir sobre os riscos representados pela Rússia.

A demora numa posição clara sobre como lidar com as ameaças russas causa arrepios não só na Otan, mas também dentro dos Estados Unidos. Motivos para isso não faltam. Nesta quarta-feira, segundo oficiais de defesa ouvidos pela CNN, o submarino russo SSV-175 Viktor Leonov foi flagrado espionando uma base naval americana a menos de 48 quilômetros da costa do estado de Connecticut. O submarino estaria equipado com equipamento de alta-tecnologia capaz de interceptar as comunicações americanas. “Um submarino espião russo patrulhando a base naval de Groton sublinha que as ameaças colocadas por uma Rússia ressurgente são reais”, afirmou o deputado democrata Joe Courtney. “A Casa Branca precisa ir além de sua paixão aparente com Putin e começar a tratá-lo como a grave ameaça à paz e à segurança global que ele tem sido nos últimos cinco anos”.

É claro que não ajuda a confusão atual em que a administração de Trump se meteu. O assessor nacional de segurança Michael Flynn – um cargo ligado diretamente ao presidente — pediu demissão na segunda-feira após ter sido revelado que ele manteve contatos com autoridades russas após a eleição, tendo, inclusive, mentido sobre o caso para o vice-presidente Mike Pence.

Flynn teria discutido com o embaixador russo em Washington as sanções impostas por Barack Obama à Rússia após a confirmação de que hackers russos tentaram influenciar as eleições americanas. A Casa Branca afirma saber das suspeitas envolvendo Flynn há pelo menos um mês. Se for verdade, ainda há dúvidas por qual razão Flynn foi nomeado ao cargo mesmo já estando em descrédito com o presidente.

Para piorar, as agências da inteligência dos EUA também afirmam que interceptaram diversas ligações telefônicas de membros da campanha presidencial de Donald Trump com autoridades do alto escalão da inteligência russa. O conteúdo das conversas não foi revelado. A oposição democrata pede uma comissão no Congresso para investigar o caso. “Este escândalo é como uma cebola podre — a cada nova camada que descascamos, o cheiro fica dez vezes pior”, afirmou Donna Brazile, presidente do Partido Democrata.

O pior cenário — tanto para americanos como para os outros membros da Otan — seria descobrir que os inimigos não estão apenas em Moscou.