A nascente classe média cubana

Lourival Sant’Anna, de Havana

Uma contadora cubana de 40 anos e sua sobrinha, uma professora de artes de 29, desembarcaram em Havana na tarde de terça-feira 29, a tempo de presenciar as homenagens a Fidel Castro na Praça da Revolução. Elas se mudaram para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, há um ano, em busca de melhores salários, e já tinham mesmo planejado passar as férias de fim do ano com a família em Cuba. Mas desembarcaram com uma mistura de sentimentos: de alegria, por estar em seu país neste momento histórico; de estranhamento, por ver Cuba sem Fidel pela primeira vez em suas vidas; e de receio, pelo que pode acontecer. “É uma caixa de surpresas”, dizem as duas, que pedem para não terem seus nomes publicados. “É a pergunta que todo mundo se faz.”

A situação de um país se mede pelos destinos de seus migrantes. Enquanto os bolivianos se mudam para os países vizinhos, à procura de melhores condições de vida, os cubanos migram para a Bolívia, onde o regime aliado de Evo Morales os recebe de portas abertas. O salário mínimo em Cuba é de 20 dólares (muitos aposentados ganham menos); na Bolívia, mais de 200. Como contadora da Etecsa, a companhia telefônica cubana, considerada uma das melhores estatais para trabalhar na ilha, a tia recebia 1.100 pesos, o equivalente a 44 dólares. Ao chegar a Santa Cruz, há um ano, ela foi trabalhar como ajudante de cozinha de um restaurante. Mas explicou que era contadora, e que gostaria de ter uma chance de trabalhar na sua profissão. Daí a duas semanas, foi transferida para o escritório do restaurante, e hoje ganha 500 dólares por mês.

Ambas escolheram Santa Cruz porque a sobrinha foi selecionada para ser professora lá, por meio do programa de “exportação” de professores e médicos do governo cubano. O salário de 20 dólares em Cuba saltou para cerca de 350 dólares na Bolívia. “O ensino em Cuba é muito melhor do que na Bolívia”, garante a professora. Isso apesar da deterioração causada na última década pela perda dos professores mais experientes, que foram trabalhar na Venezuela e na Bolívia, como forma de o governo cubano captar divisas em moeda forte.

Todo cubano empregado por estrangeiros, seja dentro ou fora da ilha, tem de ser contratado por meio de um órgão estatal chamado Palco. O governo cubano retém 70% dos salários. Os estudantes cubanos passaram a ter aulas com professores praticamente da sua idade, que tinham acabado de concluir o ensino médio. Para conter a queda na qualidade do ensino, o governo de Raúl Castro convocou os aposentados a voltar para as salas de aula, pelo salário normal de 20 dólares, além das aposentadorias de 400 pesos (16 dólares).

Cuba tem convênios para o fornecimento de médicos com 62 países, o que lhe rende 9 bilhões de dólares por ano — chegando perto da receita com o turismo, de 12 bilhões de dólares, e muito mais por exemplo do que as remessas dos cubanos-americanos, que somam 2 bilhões, ou a exportação de níquel, tabaco, açúcar e cacau, que juntas rendem 1,5 bilhão. Nada mau para um PIB de 71 bilhões de dólares. Com 11.300 profissionais, o Brasil é o segundo maior importador de médicos cubanos, perdendo apenas para a Venezuela.

Essa espetacular fuga de cérebros não ocorre apenas para fora das fronteiras de Cuba, mas dentro mesmo da ilha, onde muitos profissionais de nível superior estão migrando de seus empregos públicos, em que atuavam em sua área mas recebiam salários muito baixos, para trabalhar no setor de serviços, como empregados ou por conta própria.

É o caso da enfermeira María López, de 45 anos, que ganhava 20 dólares em um hospital do Estado, antes de pedir demissão e transformar a sala de sua casa em Havana Velha em um salão de manicure. Hoje, ganha em média o quádruplo disso. Seu marido, Rodi Lacerie, de 50 anos, era assessor do ministro da Indústria Básica. Em 2008, foi demitido, como parte das medidas adotadas por Raúl logo depois de assumir oficialmente o governo, para reduzir o número de funcionários públicos.

Na época, ele ganhava 2.000 pesos (80 dólares), somando o salário básico de 540 pesos, mais um estímulo de 22,5 CUCs (a moeda conversível, que se equipara ao dólar) e 12 CUCs para as refeições. López foi trabalhar como aprendiz de artesão no bairro de Carabazal, em Havana, onde se concentra esse tipo de atividade. Ali aprendeu a fazer esculturas de barro de santos, figuras humanas e animais, vendidas para turistas na feira do Porto de Havana. Hoje, ganha o dobro do que ganhava, e até alugou um ateliê.

Algumas coisas em Cuba ainda são muito baratas, com um preço compatível com os salários baixos. Uma passagem de ônibus em Havana custa 40 centavos de peso, ou menos de 2 centavos de dólar. Usando a caderneta que cada família tem, e que define o que pode comprar por mês, nos armazéns do governo, pagam-se também centavos de dólar pelos alimentos. Mas a “libreta”, como se chama aqui, não dá para o mês todo, e a qualidade dos produtos nas “bodegas” do Estado não é muito boa, além de chegarem e acabarem rapidamente, formando filas. No mais, para conseguir alimentos, produtos de higiene, roupas e serviços, é preciso pagar preços parecidos com os do Brasil, ou em alguns casos até mais altos. E aí começa a luta pelo CUC, que equivale a 25 pesos, ou 1 dólar.

O espírito animal

O espírito empreendedor dos cubanos está florescendo, com as medidas adotadas pelo governo em 2011 para permitir a abertura de pequenos negócios legais. Antes, alguns já trabalhavam assim, mas de forma clandestina, e viviam sendo achacados pela polícia e com medo de perderem tudo. Os restaurantes particulares, ou “padares”, como são chamados, podiam ter no máximo 12 clientes — exatamente a linha de corte a partir do qual poderiam dar algum lucro. Agora, podem ter até 50. O pacote de reformas incluiu também a autorização para que os cubanos vendessem e comprassem suas casas e adquirissem carros sem necessidade de permissão do Ministério da Economia. Tudo isso causou uma injeção de dinheiro na economia.

É bem verdade que ainda não existe muita segurança jurídica. Uma das reinvidicações da campanha Cuba Decide, que postula a realização de um plebiscito, é a garantia de “liberdade econômica”, ao lado da de expressão e de associação, eleições livres e diretas e anistia para os presos políticos. “O governo pode confiscar os pequenos negócios das pessoas na hora que quiser”, diz o músico Alberto Mariño, um dos líderes da campanha.

Seja como for, a relativa prosperidade dos cubanos é visível. Nas três vezes anteriores em que este repórter esteve em Cuba — 2003, 2006 e 2009 —, os estrangeiros eram abordados nas ruas com muito mais voracidade, por homens tentando vender os charutos e runs roubados das fábricas estatais, e por mulheres oferecendo seu corpo. Hoje isso ainda existe, mas com uma incidência muito menor. Além disso, os cubanos estão se alimentando, se vestindo e se calçando melhor. E, como estão acostumados à penúria, uma melhora, que poderia parecer sutil em outros países, injeta um ânimo de que as coisas podem continuar melhorando.

O despertar dos cubanos para a possibilidade de ganhar dinheiro e de consumir, e da falta de utilidade do diploma superior para se alcançar esses objetivos, está provocando uma terceira forma de fuga de cérebros: a saída da escola ao completar o ensino médio, ou antes mesmo disso. Leandro Cabrales e Pedro Luís Mojaina, ambos de 21 anos, foram nos ônibus que levaram os funcionários públicos e estudantes para as homenagens a Fidel Castro na noite de terça-feira, na Praça da Revolução.

Eles trabalham como auxiliares nos laboratórios do Centro Nacional de Investigações Científicas, que fabrica medicamentos — outra importante fonte de divisas para o país. Mas, embora convivam no seu trabalho com muitos cientistas de ponta, não pensam em seguir estudando. Terminaram o ensino médio e pararam: “Queremos ganhar dinheiro”, explicaram os dois rapazes.

Lourival Sant'Anna
LEANDRO CABRALES E PEDRO LUÍS MOJAINA: eles terminaram o ensino médio e pararam porque querem “ganhar dinheiro”

Entre os que fazem faculdade, os cursos que mais atraem são os que podem criar chances na iniciativa privada. Erik Rivero, de 21 anos, está no quarto ano de informática, no Centro Universitário José Antonio Echevarría, e já trabalha há dois anos por conta própria, consertando computadores. Sua renda, claro, é variável. Em novembro, ele ganhou 70 dólares — quase o triplo do salário médio cubano, de 25 dólares. Rivero mora sozinho, e paga 20 dólares de aluguel. À pergunta sobre se acha que algo vai mudar com a morte de Fidel, ele responde: “Para mim, continua tudo igual. Tomara que eu tenha mais clientes”. Seu sonho é juntar dinheiro e ir para o Japão.

Sua amiga Yanetis Luís, de 18 anos, que faz um curso técnico de contabilidade, diz: “Não tenho ideia se vai mudar”. Ela não se interessa por política. Votou uma vez pelo representante da Assembleia Municipal — a única eleição direta em Cuba — recomendado por sua mãe, clínica geral que trabalha no Brasil, em Serranópolis de Minas, pelo programa Mais Médicos. Os representantes municipais elegem a Assembleia Provincial, que elege a Assembleia Nacional, que escolhe os governantes. Mas há ainda uma Comissão de Candidaturas, que inclui na lista representantes não eleitos.

Wifi a 129 dólares

Lentamente, seguindo o ritmo de Raúl — cujo slogan é “sem pressa e sem pausa” —, Cuba vai se assemelhando a outros países do mundo. Aqui não surgirão tão cedo grandes empresários, porque os negócios realmente lucrativos — telefonia, turismo, minérios, açúcar, bancos, distribuição de alimentos, energia, charutos, bebidas, construção civil, etc., estão nas mãos do Estado — mais precisamente dos militares, a partir de Raúl, que era ministro da Defesa e confia mais neles —, às vezes em joint ventures com empresas estrangeiras. Mas vai surgindo uma classe média, por assim dizer, que não depende do Estado para sobreviver e conquista algum conforto sem estar necessariamente cometendo crimes.

O sistema continua sendo um grande empecilho, e as dificuldades são grandes. A Venezuela supria o país com 100.000 barris de petróleo por dia. Cuba produz outros 50.000 e consome 100.000. O excedente, exportava, e com isso ganhava uma receita extra de 1,8 bilhão de dólares por ano, na época do barril a 100 dólares. Com a quebra da Venezuela e a queda no preço do petróleo, essa receita evaporou. Como a eletricidade é gerada por termoelétricas, voltaram os apagões do tempo do “período especial”, no anos 90, quando a União Soviética, grande patrocinadora do regime cubano, desapareceu. Nas áreas mais afastadas de Havana, chega a faltar energia por até 20 horas por dia.

Mesmo essa incipiente “classe média” sofre para compartilhar as conquistas de seu tempo. Uma conexão de wifi em uma casa custa 129 dólares por mês, o que a torna inacessível para quase todo mundo. Conexões de 3G em celulares só são concedidas para algumas pessoas escolhidas pelo governo (embora funcionem, de forma intermitente, nos celulares dos estrangeiros, em roaming). Para se conectar, os cubanos se aglomeram ao redor das agências da Etecsa, e navegam na internet, sentados nas muretas, calçadas e gramados, com seus celulares e tablets chineses com cartões que custam 2 dólares por hora. É caro, para eles. Alguns se conectam apenas duas vezes por mês.

A vida do jovem cubano não é fácil. Mas é melhor que a de seus pais.