A hora da verdade para a Escócia e o Reino Unido

Os centros de votação fecharam suas portas e dentro de oito horas no máximo, de acordo com previsões das autoridades eleitorais, o desfecho será revelado

A Escócia saberá em pouco tempo se voltará a ser independente ou se vai permanecer no Reino Unido depois de votar nesta quinta-feira em um referendo acompanhado com receio nas capitais europeias e com esperança por regiões onde há fortes movimentos separatistas.

Os centros de votação fecharam suas portas às 21h00 GMT (18h00 de Brasília) e dentro de oito horas no máximo, de acordo com previsões das autoridades eleitorais, o desfecho será revelado.

Estas podem ser as últimas horas da Escócia no Reino Unido depois de 300 anos.

A participação deve atingir um nível recorde, chegando a cerca de 80% dos 4,3 milhões de eleitores que se registraram para votar – de uma população de 5,3 milhões.

De acordo com a última pesquisa, feita pela Ipsos Mori e divulgada nesta quinta-feira pelo jornal britânico Evening Standard, o “não” tem uma vantagem de seis pontos (53%-47%).

“Votei ‘não’ porque a Escócia será mais forte dentro do Reino Unido e porque o petróleo do Mar do Norte não é suficiente para garantir a prosperidade em caso de independência”, explicou em Glasgow James Hawkin, de 64 anos.

“Voto ‘sim’, quero ser livre da Inglaterra”, disse Mart, um morador de rua do centro de Glasgow que viu sua renda aumentar durante a animada campanha.

Os partidários das duas campanhas distribuíam adesivos e tentavam influenciar no resultado.

No centro de Edimburgo havia inúmeras bandeiras catalãs e bascas, duas regiões espanholas que tentam realizar referendos de independência.

“Não seria honesto contigo se te dissesse que ‘não'”, respondeu Jordi Bellana, um catalão de 31 anos que vive em Edimburgo e votou “sim”, quando perguntado se seu voto seria condicionado pelo o que acontece em seu país.

Foram autorizados a votar todos os residentes legais na Escócia -britânicos ou não- com idades acima de 16 anos, mas não os escoceses que vivem no exterior.

Os eleitores tinham que responder à pergunta “A Escócia deve se tornar um país independente?”

“Agora estamos nas mãos dos escoceses, e não existe um lugar mais seguro”, disse à AFP o líder independentista e chefe de governo Alex Salmond, após depositar seu voto em Striche (leste).

Uma das celebridades que mais tinha mantido mistério, o tenista Andy Murray, manifestou finalmente seu apoio ao “sim”.

“Grande dia para a Escócia hoje! A negatividade da campanha do ‘não’ nos últimos dias mudou totalmente minha visão, ansioso para ver o resultado. Vamos!”, escreveu em sua conta no Twitter.

Os resultados definitivos serão divulgados a partir das 05h00 GMT de sexta-feira (02h00 de Brasília).

Os separatistas do mundo rezam por um ‘sim’…

Escócia, Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte integram o “Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte”, nome oficial do Estado com capital em Londres.

A Grã-Bretanha é a parte mais importante desse Estado, a ilha que reúne Escócia, Inglaterra e Gales, e com história, até a união de 1707, foi dominada pelas batalhas e pelas idas e vindas dos Exércitos de um reino ao outro.

Daquele estado pré-Reino Unido sobrevive a animosidade visceral à Inglaterra, o reino dominante.

O triunfo da independência avivaria reivindicações semelhantes em regiões europeias como Catalunha, Flandres, País Basco e o Vêneto.

“Votem sim, por vocês mas também por nós”, pediu aos escoceses em Edimburgo Daniel Turp, do Partido Quebequense do Canadá.

Em uma entrevista coletiva à imprensa com líderes de movimentos separatistas europeus, Turp disse que a vitória do “sim” abrirá caminho para outros referendos parecidos.

A província canadense de língua francesa já realizou dois, em 1980 e 1995, que tiveram a vitória do “não”.

“Estamos convencidos de que haverá um terceiro, e que Quebec será livre no final. Mas, de qualquer maneira, se você perde um referendo, tem outro depois”, disse.

… os mercados apostam no ‘não’

A vitória do “sim” marcaria o início de negociações complexas entre os governos britânico e escocês para separar ambas as economias e sistemas políticos, profundamente interrelacionados depois de três séculos de história compartilhada.

O Partido Nacional Escocês (SNP) fixou a data de 24 de março de 2016 – 309° aniversário das Atas de União entre Inglaterra e Escócia – para concluir o processo e declarar uma secessão que reduziria o território do Reino Unido em um terço.

A Escócia seria o primeiro Estado independente criado na Europa desde a violenta desintegração da Iugoslávia (1991-1999), mas se asemelharia mais à divisão pacífica, em 1993, da Tchecoslováquia em dois países, a República Tcheca e a Eslováquia.

A divisão de bens em caso de divórcio pode ser difícil. As questões mais espinhosas são a libra esterlina, os submarinos nucleares Trident da base naval de Faslane, perto de Glasgow, e o petróleo.

Mas os mercados anteciparam a vitória do “não”: a libra esterlina chegou ao seu nível mais alto em relação ao euro em dois anos e as bolsas europeias fecharam no azul.