A guerra de Trump contra a imprensa nas eleições de 2016

Repórter americana conta, em livro, bastidores da relação violenta de Donald Trump com os jornalistas

Unbelievable: My Front-Row Seat to the Craziest Campaign in American History (“Inacreditável: meu assento na primeira fileira da campanha eleitoral mais louca na história americana”, numa tradução livre)

Autora: Katy Tur

Editora Dey Street Books/William Morrow

291 páginas

—————–

Entreatos, documentário de 2004, mostra os bastidores da primeira campanha que levou Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil, em 2002. Dirigido por João Moreira Salles, o documentário mostra momentos históricos daquelas eleições, como reuniões do “núcleo duro” da então equipe de Lula. Em um dado momento, José Dirceu – que seria ministro na gestão Lula (Casa Civil) e hoje condenado nos processos do mensalão e da Operação Lava-Jato –, olha com desconfiança para a equipe de filmagem ali presente: “De quem é esse pessoal?”, pergunta Dirceu, interrompendo uma conversa com outro futuro ministro, Guido Mantega (Fazenda).

Duda Mendonça, comandante do marketing do petista, explica que se trata da equipe de um documentário. Gilberto Carvalho, que seria ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Dilma Rousseff, afirma que se trata de gente de confiança e de que o material de gravação é guardado em um cofre todos os dias. Dirceu responde: “Vai nessa. Se você soubesse o que eu tenho das outras campanhas, você não falaria isso”. O longa de João Moreira Salles também registrou momentos menos dramáticos. Outra cena mostra o ex-presidente indo ao barbeiro. Enquanto o profissional apara a indefectível barba de Lula, o petista não sai do telefone celular, dando uma entrevista ao vivo a uma rádio.

Campanhas, especialmente as presidenciais, são quase sempre coreografadas. Há pouco espaço para improviso e para a realidade. Por isso, Entreatos oferece uma rara perspectiva dentro desse universo competitivo e tenso. João Moreira Salles conseguiu capturar momentos espontâneos do grande vencedor daquelas acirradas eleições.

A repórter Katy Tur, das redes de TV americanas NBC e MSNBC, conseguiu trazer um olhar similar ao encontrado no documentário de Salles. Em seu livro Unbelievable: My Front-Row Seat to the Craziest Campaign in American History (“Inacreditável: meu assento na primeira fileira na campanha eleitoral mais louca na história americana”, numa tradução livre), a jornalista empresta ao leitor o olhar de alguém que está assistindo à história se desenrolar da perspectiva dos bastidores, por meio das impressões e experiências de uma profissional de imprensa.

Tur fala do ponto de vista de uma repórter que testemunhou a irascibilidade de Trump – e de uma pessoa que se tornou um dos seus alvos favoritos nos mais de 500 dias em que ela esteve perto do republicano. A coleção de insultos proferidos contra ela não é pequena: “repórter de quinta categoria”, “deveria ser despedida”, “incompetente”, entre outros. Aos olhos de Trump, a jornalista era a personificação da beligerante mídia, empenhada numa guerra para minar suas chances de ser eleito.

Durante uma entrevista coletiva em 27 de julho de 2016, Donald Trump disse a Tur que ficasse “quieta”. Naquela ocasião, o candidato “pediu” à Rússia que “encontrasse” cerca de 30 000 e-mails que haviam desaparecido dos servidores privados de sua adversária Hillary Clinton. A democrata foi investigada pelo FBI por ter usado um serviço de correspondência virtual paralelo, o que foi considerado irresponsável, mas não ilegal. Frente ao “pedido” de Trump, a correspondente da NBC perguntou se ele via problema em pedir a um governo estrangeiro que interferisse nas questões internas dos Estados Unidos. A insistência de Tur em falar sobre o assunto levou o futuro presidente a ordenar a ela ficasse quieta e a acusá-la de querer “salvar” Hillary Clinton.

Tanta hostilidade voltada a ela e a seus colegas se transformou em um risco real. “Por causa da guerra de Trump à mídia, as redes de TV precisavam de uma equipe de segurança, exceto pela Fox News (que não era tão demonizada) e a CBS (cujo principal correspondente é um cara que parece se chamar Major [Garrett] – e se chama.)”, escreve ela. “Nos comícios de Trump, me acostumei aos gritos e aos xingamentos. Eu ficava um pouco cansada da violência repentina – alguns socos aqui, alguns chutes ali.”

A violência, no entanto, não se resumia às ameaças presenciais. Na internet, os seguidores de Trump eram ainda mais implacáveis, diz a jornalista. “Me chamam de feia e burra. Me acusam de ter conseguido meu emprego fazendo sexo [sleeping my way to my job]. Atacam minha família, especialmente meu pai, que é transgênero. Me chamam de ‘vadia’. Ameaçam minha vida.” O candidato republicano parecia não se incomodar: “Trump nunca incentivou explicitamente a violência em seus comícios, mas nunca a condenou”, afirma. “Em um dado momento, ele sonhou acordado sobre como ele gostaria de dar um soco na boca de um manifestante específico. Em outro, prometeu pagar os gastos advocatícios de um apoiador que de fato socasse um manifestante na cara.”

Tur teve também a oportunidade de experimentar em primeira-mão as inconsistências de Donald Trump. Segundo pessoas próximas ao republicano, ele “respeitava o trabalho” da jornalista. Em diversas ocasiões, relata ela no livro, o então candidato a presidente dos Estados Unidos chegava a ser simpático. Mas, na maioria das vezes, ela era simplesmente o inimigo.

O privilégio – ou martírio – de acompanhar a evolução de Trump ao longo das primárias republicanas e da disputa com Hillary Clinton deu a Katy Tur a intuição de que o ex-apresentador do programa The Apprentice (O Aprendiz) poderia realmente chegar à Casa Branca. “Tenho dito há meses que Trump tem mais chances do que as pesquisas dão a ele. Tenho dito: ‘Não o excluam [das possibilidades]’. Tenho dito que as coisas não estão correndo de forma tão suave quanto a campanha de Hillary Clinton sugere.”

Embora a campanha presidencial de 2016 tenha sido recheada de escândalos envolvendo Trump, seus eleitores pareciam não se importar. O que chocava Nova York e Washington não importava em outras partes do país. Os eleitores de Trump, explica Tur, “não se importam com as manchetes”. Esse é um dos motivos pelos quais os Estados Unidos e o mundo foram pegos de surpresa na madrugada de 9 de novembro de 2016, quando um verdadeiro outsider conseguiu se eleger presidente.

Embora o relato de Unbelievable seja feito inteiramente da perspectiva de Katy Tur, o livro serve como um alerta. A mensagem universal de suas 291 páginas é a de que é preciso tomar muito cuidado com o que achamos que sabemos a respeito de política, da sociedade e do impacto do populismo e do discurso de ódio. Katy Tur não clama para si uma espécie de profecia a respeito da vitória de Trump. Seus quase dois anos convivendo com o trumpismo mostraram que o establishment talvez estivesse em negação em relação às reais chances de um candidato improvável.

“Recentemente, Hillary Clinton chamou os apoiadores de Trump de ‘um monte de deploráveis’, e enquanto talvez seja fácil definir todos assim, a maioria não é. Muitos são nossos colegas de trabalho e nossos vizinhos. São o motorista de táxi, o bombeiro e o caixa de supermercado. Eles são as mães vestindo botas de montaria e casacos da Barbour ajudando sua filha bonitinha com seu projeto de ciências da escola. Você nunca iria saber que eles apoiam Trump”. Analistas, políticos e jornalistas precisam rapidamente aprender essa lição se quiserem ter a mínima possibilidade de preservar instituições democráticas e uma sociedade civil saudável. Entrar no ciclone ilógico e agressivo de Donald Trump só levará a mais surpresas desagradáveis.

A guerra de Trump contra a imprensa nas eleições de 2016

Repórter americana conta, em livro, bastidores da relação violenta de Donald Trump com os jornalistas

Unbelievable: My Front-Row Seat to the Craziest Campaign in American History (“Inacreditável: meu assento na primeira fileira da campanha eleitoral mais louca na história americana”, numa tradução livre)

Autora: Katy Tur

Editora Dey Street Books/William Morrow

291 páginas

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Entreatos, documentário de 2004, mostra os bastidores da primeira campanha que levou Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil, em 2002. Dirigido por João Moreira Salles, o documentário mostra momentos históricos daquelas eleições, como reuniões do “núcleo duro” da então equipe de Lula. Em um dado momento, José Dirceu – que seria ministro na gestão Lula (Casa Civil) e hoje condenado nos processos do mensalão e da Operação Lava-Jato –, olha com desconfiança para a equipe de filmagem ali presente: “De quem é esse pessoal?”, pergunta Dirceu, interrompendo uma conversa com outro futuro ministro, Guido Mantega (Fazenda). Duda Mendonça, comandante do marketing do petista, explica que se trata da equipe de um documentário. Gilberto Carvalho, que seria ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Dilma Rousseff, afirma que se trata de gente de confiança e de que o material de gravação é guardado em um cofre todos os dias. Dirceu responde: “Vai nessa. Se você soubesse o que eu tenho das outras campanhas, você não falaria isso”. O longa de João Moreira Salles também registrou momentos menos dramáticos. Outra cena mostra o ex-presidente indo ao barbeiro. Enquanto o profissional apara a indefectível barba de Lula, o petista não sai do telefone celular, dando uma entrevista ao vivo a uma rádio.

Campanhas, especialmente as presidenciais, são quase sempre coreografadas. Há pouco espaço para improviso e para a realidade. Por isso, Entreatos oferece uma rara perspectiva dentro desse universo competitivo e tenso. João Moreira Salles conseguiu capturar momentos espontâneos do grande vencedor daquelas acirradas eleições.

A repórter Katy Tur, das redes de TV americanas NBC e MSNBC, conseguiu trazer um olhar similar ao encontrado no documentário de Salles. Em seu livro Unbelievable: My Front-Row Seat to the Craziest Campaign in American History (“Inacreditável: meu assento na primeira fileira na campanha eleitoral mais louca na história americana”, numa tradução livre), a jornalista empresta ao leitor o olhar de alguém que está assistindo à história se desenrolar da perspectiva dos bastidores, por meio das impressões e experiências de uma profissional de imprensa.

Tur fala do ponto de vista de uma repórter que testemunhou a irascibilidade de Trump – e de uma pessoa que se tornou um dos seus alvos favoritos nos mais de 500 dias em que ela esteve perto do republicano. A coleção de insultos proferidos contra ela não é pequena: “repórter de quinta categoria”, “deveria ser despedida”, “incompetente”, entre outros. Aos olhos de Trump, a jornalista era a personificação da beligerante mídia, empenhada numa guerra para minar suas chances de ser eleito.

Durante uma entrevista coletiva em 27 de julho de 2016, Donald Trump disse a Tur que ficasse “quieta”. Naquela ocasião, o candidato “pediu” à Rússia que “encontrasse” cerca de 30 000 e-mails que haviam desaparecido dos servidores privados de sua adversária Hillary Clinton. A democrata foi investigada pelo FBI por ter usado um serviço de correspondência virtual paralelo, o que foi considerado irresponsável, mas não ilegal. Frente ao “pedido” de Trump, a correspondente da NBC perguntou se ele via problema em pedir a um governo estrangeiro que interferisse nas questões internas dos Estados Unidos. A insistência de Tur em falar sobre o assunto levou o futuro presidente a ordenar a ela ficasse quieta e a acusá-la de querer “salvar” Hillary Clinton.

Tanta hostilidade voltada a ela e a seus colegas se transformou em um risco real. “Por causa da guerra de Trump à mídia, as redes de TV precisavam de uma equipe de segurança, exceto pela Fox News (que não era tão demonizada) e a CBS (cujo principal correspondente é um cara que parece se chamar Major [Garrett] – e se chama.)”, escreve ela. “Nos comícios de Trump, me acostumei aos gritos e aos xingamentos. Eu ficava um pouco cansada da violência repentina – alguns socos aqui, alguns chutes ali.”

A violência, no entanto, não se resumia às ameaças presenciais. Na internet, os seguidores de Trump eram ainda mais implacáveis, diz a jornalista. “Me chamam de feia e burra. Me acusam de ter conseguido meu emprego fazendo sexo [sleeping my way to my job]. Atacam minha família, especialmente meu pai, que é transgênero. Me chamam de ‘vadia’. Ameaçam minha vida.” O candidato republicano parecia não se incomodar: “Trump nunca incentivou explicitamente a violência em seus comícios, mas nunca a condenou”, afirma. “Em um dado momento, ele sonhou acordado sobre como ele gostaria de dar um soco na boca de um manifestante específico. Em outro, prometeu pagar os gastos advocatícios de um apoiador que de fato socasse um manifestante na cara.”

Tur teve também a oportunidade de experimentar em primeira-mão as inconsistências de Donald Trump. Segundo pessoas próximas ao republicano, ele “respeitava o trabalho” da jornalista. Em diversas ocasiões, relata ela no livro, o então candidato a presidente dos Estados Unidos chegava a ser simpático. Mas, na maioria das vezes, ela era simplesmente o inimigo.

O privilégio – ou martírio – de acompanhar a evolução de Trump ao longo das primárias republicanas e da disputa com Hillary Clinton deu a Katy Tur a intuição de que o ex-apresentador do programa The Apprentice (O Aprendiz) poderia realmente chegar à Casa Branca. “Tenho dito há meses que Trump tem mais chances do que as pesquisas dão a ele. Tenho dito: ‘Não o excluam [das possibilidades]’. Tenho dito que as coisas não estão correndo de forma tão suave quanto a campanha de Hillary Clinton sugere.”

Embora a campanha presidencial de 2016 tenha sido recheada de escândalos envolvendo Trump, seus eleitores pareciam não se importar. O que chocava Nova York e Washington não importava em outras partes do país. Os eleitores de Trump, explica Tur, “não se importam com as manchetes”. Esse é um dos motivos pelos quais os Estados Unidos e o mundo foram pegos de surpresa na madrugada de 9 de novembro de 2016, quando um verdadeiro outsider conseguiu se eleger presidente.

Embora o relato de Unbelievable seja feito inteiramente da perspectiva de Katy Tur, o livro serve como um alerta. A mensagem universal de suas 291 páginas é a de que é preciso tomar muito cuidado com o que achamos que sabemos a respeito de política, da sociedade e do impacto do populismo e do discurso de ódio. Katy Tur não clama para si uma espécie de profecia a respeito da vitória de Trump. Seus quase dois anos convivendo com o trumpismo mostraram que o establishment talvez estivesse em negação em relação às reais chances de um candidato improvável.

“Recentemente, Hillary Clinton chamou os apoiadores de Trump de ‘um monte de deploráveis’, e enquanto talvez seja fácil definir todos assim, a maioria não é. Muitos são nossos colegas de trabalho e nossos vizinhos. São o motorista de táxi, o bombeiro e o caixa de supermercado. Eles são as mães vestindo botas de montaria e casacos da Barbour ajudando sua filha bonitinha com seu projeto de ciências da escola. Você nunca iria saber que eles apoiam Trump”. Analistas, políticos e jornalistas precisam rapidamente aprender essa lição se quiserem ter a mínima possibilidade de preservar instituições democráticas e uma sociedade civil saudável. Entrar no ciclone ilógico e agressivo de Donald Trump só levará a mais surpresas desagradáveis.