A geopolítica das Olimpíadas

Dos jogos de Hitler na Alemanha nazista aos boicotes entre URSS e EUA na Guerra Fria, veja 14 momentos em que as Olimpíadas foram uma aula de história

Com os Jogos Olímpicos, os fãs de esporte pelo mundo se animam para quase um mês de provas com mais de 11.000 atletas de 42 modalidades. Mas diante de todos os olhos voltados para o Rio, o assunto não é apenas o esporte, mas temas como o aquecimento global e a preocupação ecológica — mensagens claras da Cerimônia de Abertura —, paz entre os povos e liberdade de expressão. 

Dessa forma, como em qualquer evento de grande porte, as Olimpíadas refletem o contexto político, econômico e cultural de sua época. E assim foi ao longo de toda a existência dos jogos, ressuscitados em 1896 pelo aristocrata francês Pierre de Frédy (1863-1937) — o Barão de Coubertin. “Cada edição olímpica carrega os traços daquilo que se passa naquele momento histórico. Isso reflete a relação entre esporte e política e põe por terra o argumento de que as duas coisas não se misturam”, diz Katia Rubio, especialista em história olímpica da Escola de Educação Física e Esportes da USP. 

Do uso propagandista dos jogos por Hitler na Alemanha nazista aos boicotes mútuos entre União Soviética e Estados Unidos durante a Guerra Fria, veja 14 momentos em que as Olimpíadas foram uma verdadeira aula de história e geopolítica. 

Atenas 1896: busca pela paz

Era fim do século 19 quando Coubertin decidiu trazer de volta as competições esportivas da Grécia Antiga e criar os Jogos Olímpicos da Era Moderna. Entre 776 a.C e 393, as Olimpíadas gregas serviram como uma trégua entre as cidades-estado constantemente em guerra, e os combates eram interrompidos para que os atletas se deslocassem até os locais de competição. 

O sonho de Coubertin era que algo parecido ocorresse na Europa: entusiasta do esporte como ferramenta pacificadora, o francês viu nas Olimpíadas uma forma de estreitar laços entre as nações num continente às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Assim, Coubertin fundou o Comitê Olímpico Internacional (COI), e a primeira edição das Olimpíadas da Era Moderna aconteceu em 1896, voltando ao berço em Atenas. 

Os Jogos não foram unanimidade logo de cara – apenas 14 países participaram em 1896 -, tampouco foram suficientes para impedir a Primeira Guerra – que começaria poucos anos depois, em 1914. Mas logo o evento ganhou relevância internacional, se expandiu para os cinco continentes e, como sonhava Coubertin, se tornou um dos eventos mais importantes do mundo. 

Antuérpia 1920: o pós-Primeira Guerra 

Após a primeira edição olímpica na cidade de Atenas, em 1896, os jogos passaram a acontecer de quatro em quatro anos, conforme estabelecido. Contudo, com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, a edição de 1916 foi cancelada. Após o fim da guerra em 1918, as Olimpíadas só voltaram em 1920, na Antuérpia, segunda maior cidade da Bélgica. Ao contrário do que acontecia na Grécia Antiga, não houve trégua no conflito para a disputa dos jogos, e o mesmo se repetiu mais tarde, na Segunda Guerra – que paralisou os jogos entre 1936 e 1948.

Nesta edição, a Alemanha – derrotada por Inglaterra, França e Estados Unidos – não foi convidada para os jogos. Embora as Olimpíadas não tivessem naquela época a dimensão que possuem hoje, o ato do COI de desconvidar a Alemanha foi extremamente simbólico geopoliticamente. Antes disso, os alemães já haviam sido obrigados a assinar o desvantajoso Tratado de Versalhes, de modo que a exclusão dos Jogos Olímpicos veio como mais uma punição mundial. 

Anos depois, o mesmo aconteceria após a Segunda Guerra, quando, dentre os derrotados, somente a Itália participou – o Japão se negou a ir aos jogos, enquanto a Alemanha não foi convidada. 

Los Angeles 1932: a Grande Depressão 

Os jogos de Los Angeles foram realizados ainda sob os efeitos da Crise de 1929. A situação econômica na época afetava muitos países do mundo, inclusive o Brasil, que teve as exportações de café reduzidas. 

E além da atmosfera envolvendo os jogos, as vacas magras se refletiram diretamente no esporte: os 68 atletas da delegação brasileira tiveram de embarcar em um navio de carregamento de café e vender sacas do produto durante a viagem para bancar os custos. Chegando aos Estados Unidos, apenas 45 deles de fato seguiram até Los Angeles, uma vez que, devido aos poucos recursos, a comissão selecionou apenas os que tinham reais chances de medalha. 

Além disso, em 1932, acontecia por aqui a Revolução Constitucionalista, por meio da qual a elite paulista tentava retomar seu poderio político no Brasil. Por isso, os atletas de São Paulo não participaram. 

Por fim, a delegação brasileira votou pra casa sem nenhuma medalha ou resultado expressivo. Ainda assim, os jogos de Los Angeles marcaram a primeira Olimpíada de uma mulher sul-americana: a nadadora brasileira Maria Lenk, que na época tinha apenas 17 anos.

Berlim 1936: o regime nazista

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1940-1945), a Alemanha nazista de Hitler enxergava no evento uma forma de mostrar ao mundo seu poderio. “A Alemanha não mediu esforços para que o mundo visse um país forte, refazendo todo uma imagem de derrota que ela tinha vivido depois da Primeira Guerra”, explica Katia. 

O governo alemão não poupou gastos: foram 30 milhões de dólares somente na construção do Estádio Olímpico. A estrutura dos jogos foi impecável e considerada por muitos como a melhor já feita para o evento até então. 

As tensões políticas da época, contudo, não tardaram a se refletir no esporte. O estadunidense Jesse Owens se tornou uma lenda após ganhar quatro medalhas de ouro no atletismo – Hitler se recusou a entregar-lhe as medalhas e deixou o estádio. Outro episódio é o da equipe de remo dos Estados Unidos, com jovens humildes vindos da Universidade de Washington e vítimas da Grande Depressão de 1929, que derrotaram o barco alemão e se sagraram campeões também na frente de Hitler. 

Roma 1960: apartheid e Paralimpíadas

Em Roma, a África do Sul fez sua última participação em Jogos Olímpicos antes de ser expulsa pelo COI, em 1964. A expulsão foi motivada pelo regime de apartheid vigente no país (o termo apartheid começou a ser usado oficialmente em 1948, embora o regime de segregação já existisse há ainda mais tempo). Depois disso, a África do Sul só voltaria às Olimpíadas 32 anos depois, na edição de 1992, em Barcelona, após o fim do apartheid em 1990. 

Além disso, pela primeira vez na história, as Paralimpíadas foram disputadas juntamente às Olimpíadas. À época, os jogos paralímpicos eram voltados apenas a atletas paraplégicos, mas ao longo das edições, as modalidades se expandiram. Em Seul 1988, os dois comitês (paraolímpico e olímpico) trabalharam juntos para integrar oficialmente os eventos. Neste ano, no Rio, 4.350 atletas de 176 países participarão das Paralimpíadas.

Tóquio 1964: reconstrução japonesa

Os jogos de Tóquio aconteceram quase 20 anos após o fim da Segunda Guerra e do trágico episódio das bombas atômicas que destruíram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki. Ao longo dessas duas décadas, contudo, o Japão rapidamente se recuperou da devastação do conflito. Dessa forma, nos jogos de Tóquio, os japoneses mostraram ao mundo uma organização impecável, além de uma série de avanços tecnológicos, como o trem bala e a primeira transmissão televisiva mundial do evento. 

México 1968: black power

A década de 1960 marca uma série de revoluções ao redor do mundo, como a Primavera de Praga, a luta contra a ditadura militar no Brasil, os protestos estudantis na França e as pautas do movimento negro nos Estados Unidos – e o ano de 1968 é considerado o ápice de todos esses movimentos. Assim, não demoraria para que o esporte refletisse toda a efervescência política da época. 

Primeiro país latino-americano a sediar uma edição das Olimpíadas, o México também foi palco de protestos: cem estudantes foram mortos numa manifestação contra a corrupção duas semanas antes do início dos jogos. 

A edição de 1968 foi marcada pela histórica manifestação dos velocistas estadunidenses Tommie Smith e John Carlos: após venceram a prova dos 200 metros do atletismo, os atletas vestiram luvas pretas e fizeram, no pódio, o black power, gesto símbolo dos Panteras Negras – um dos grupos que lutava por igualdade racial nos Estados Unidos. Ambos foram banidos da delegação do país e expulsos da Vila Olímpica.

O terceiro atleta do pódio, o australiano Peter Norman, também participou da manifestação de forma mais discreta, usando um broche do “Projeto Olímpico para os Direitos Humanos”. Embora não tenha sido banido, ele viveu no ostracismo ao longo de toda a carreira.

Munique 1972: Setembro Negro 

No dia 8 de setembro, aconteceu o maior atentado da história das Olimpíadas: oito palestinos do grupo terrorista Setembro Negro invadiram a Vila Olímpica e mataram membros da delegação de Israel. 

Grupo de origem palestina, o Setembro Negro havia se radicalizado após a derrota da Palestina na Guerra dos Seis Dias, em 1967, que fez com que Israel anexasse os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Com a derrota, milhares de árabes se refugiaram na Jordânia, onde alguns grupos armados começaram a se formar. Por isso, em Munique, o objetivo do Setembro Negro era negociar a libertação de árabes presos em Israel – pedido negado pelo governo israelense. O ataque é considerado um marco que elevou a preocupação de grandes eventos esportivos com a segurança.

Moscou 1980/Los Angeles 1984: Guerra Fria

Durante o período da Guerra Fria, a disputa política, econômica e bélica entre Estados Unidos e União Soviética também teve reflexo nos esportes. Da estreia soviética em Helsinque, em 1952, a Seul, em 1988, as duas superpotências disputaram a supremacia nos jogos, usando o esporte como ferramenta de propaganda de seus respectivos regimes. O próprio quadro de medalhas, por exemplo, foi uma criação dos jornalistas estadunidenses para contabilizar a superioridade dos Estados Unidos. 

Além disso, as duas primeiras edições olímpicas da década de 1980 sofreram boicotes liderados pelos dois países. Nos jogos de Moscou, em 1980, 65 ausências foram provocadas por um boicote liderado pelos Estados Unidos devido à invasão soviética no Afeganistão, em 1979. Na edição seguinte, em Los Angeles, a União Soviética revidou, porém sem o mesmo efeito, uma vez que à época o bloco socialista e seus aliados já estavam se enfraquecendo. 

Seul 1988: as Coreias

Em mais um reflexo da Guerra Fria, os jogos de 1988 tiveram como cenário uma Coreia dividida entre Norte socialista e Sul capitalista – separação que começou ao fim da Segunda Guerra e provoca tensões até hoje. 

Nas Olimpíadas de Seul, na Coreia do Sul, a Coreia do Norte chegou a pedir ao COI para sediar parte do evento, mas não foi atendida, sob argumento de que os jogos devem ocorrer em uma cidade, e não em um país inteiro. Tentando tornar a situação um fato geopolítico, os norte-coreanos afirmaram que estavam sendo discriminada pelo comitê olímpico internacional. Diante da negação do COI, países como Albânia, Etiópia, Madagascar, Nicarágua, Etiópia e Cuba boicotaram os jogos. A URSS decidiu participar, e venceu no quadro de medalhas. 

Os jogos de Seul também serviram como vitrine para que a Coreia do Sul, um dos Tigres Asiáticos, mostrasse seu poderio econômico em ascensão. 

Barcelona 1992: fim do mundo bipolarizado

Barcelona foi responsável por sediar a primeira Olimpíada depois da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, em 1989. Com o esfacelamento do bloco, 15 “novos” países passaram a disputar os jogos. Na edição de 1992, 12 deles se uniram sob o nome de Comunidade dos Estados Independentes (CEI), ainda que, no pódio, os atletas tenham usado a bandeira de seus próprios países. 

O fim da União Soviética representou também a queda no desempenho esportivo de muitas outras nações do bloco socialista, até então potências do esporte mundial – como os demais países do leste europeu e Cuba. Isso porque grande parte dos investimentos em esporte eram oriundos da União Soviética, de modo que mesmo os países tidos como herdeiros da União Soviética – como a Rússia ou a Ucrânia – não alcançaram mais os mesmos resultados. 

Atenas 2004: início da crise? 

Com custo estimado em 9 bilhões de euros (pouco mais de 31 bilhões de reais), os jogos de Atenas foram os mais caros já realizados até então. E para muitos especialistas, sediar as Olimpíadas de 2004 foi um péssimo negócio para a Grécia, desencadeando o colapso econômico que explodiria no país a partir de 2008. 

A organização dos jogos levou os gregos a aumentarem seu déficit público – que chegou, à época, a 110,6% do PIB. Para além dos custos em si, muitos avaliam que o alto custo da organização trouxe de volta à gestão grega uma cultura de gastos públicos desenfreados, após anos de uma política mais austera e equilibrada exigida pela União Europeia. 

Pequim 2008: ascensão da China

As Olimpíadas de Pequim mostraram ao mundo o poderio econômico e político da nova China. Enquanto o mundo vivia as consequências da crise de 2008, o país asiático exibia uma organização impecável, provando que sua economia não havia se abalado. 

Assim como a Alemanha de 1936, os chineses não pouparam gastos em Pequim – o orçamento pode ter superado os 42 bilhões de dólares, embora os números precisos não tenham sido divulgados pelo governo local. De olho no esporte como ferramenta propagandística, a China vem seguindo os passos do antigo bloco socialista e investindo pesadamente no setor, organizando um sistema esportivo quase militar.