“A economia argentina é que vai determinar acesso a capitais”

Para analista do CSFB em Nova York, daqui a quatro anos, quando a Argentina tentar recorrer a financiamento externo outra vez, o que estará em foco será o crescimento da economia e a consistência fiscal, e não a reestruturação encerrada ontem. "O mercado

A operação de troca de títulos da dívida pública da Argentina não será empecilho quando o país voltar ao mercado internacional de capitais. “Infelizmente, o mercado tem uma memória muito curta”, diz a economista Carola Sandy, do Credit Suisse First Boston (CSFB) em Nova York. “Se a Argentina terá problemas ou não para contrair dívida externa novamente, vai depender do estado e das perspectivas de seus fundamentos econômicos, mais do que qualquer outra coisa.”

Os títulos em default desde dezembro de 2001 totalizavam 82 bilhões de dólares, devidos a cerca de 500 mil investidores. A troca forçada pelo governo argentino arrancou a adesão de credores que tinham direito a 62 bilhões de dólares e que agora se conformam com 35 bilhões. “Claro que do ponto de vista do mercado, não foi nada bom”, diz Carola. “O que o mercado pedia era uma reestruturação mais amigável, com mais participação, mas não foi ouvido.”

Para a Argentina, além do nível de adesão, a boa notícia está na reação imediata do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Tesouro americano ao anúncio feito na quinta-feira (3/3) pelo ministro da Economia, Roberto Lavagna, dos resultados da reestruturação. Tanto o FMI quanto o governo dos Estados Unidos manifestaram-se em tom positivo quanto ao resultado, dando a entender que ele é suficiente para a retomada de negociações congeladas há meses. Para a analista, quando o país tentar recorrer a financiamento externo outra vez — o que deve ocorrer em quatro a cinco anos –, o que estará em foco será o crescimento da economia e a consistência fiscal.

A edição mais recente da revista britânica The Economist não é tão benevolente. Em sua avaliação, o swap em “escala épica” estabelece uma “nova e dolorosa referência” para credores, mas não é o fim da história. A revista destaca estudo do economista Manmohan Singh, do FMI, pelo qual o ganho anualizado de investidores que recorrem à Justiça em casos de calote pode chegar a 300%. Paradoxalmente, afirma a reportagem, quanto maior a adesão em acordo de dívida, melhor para os inconformados, pois os governos estão mais propensos a composições com um pequeno grupo do que com um “exército de litigantes”.

De qualquer modo, reconhece a Economist, “reestruturação” deixou de ser um conceito-tabu em grande estilo. O governo argentino conseguiu de uma só vez cortar o principal, alongar prazo (para 42 anos) e reduzir juros.