A América dividida

Após proferir um batido texto de 35 palavras, Donald J. Trump foi empossado nesta sexta-feira como o 45º presidente dos Estados Unidos. Mas a surpresa não foi o juramento criado pelos pais fundadores da pátria na Constituição americana, mas o discurso que se seguiu: quem esperava um Trump paz e amor ouviu o contrário. O novo presidente voltou a pregar a defesa das fronteiras nacionais, de tarifas para produtos importados e de que os países aliados paguem a conta da defesa. Atacou o establishment político de Washington e, por fim, prometeu “erradicar o terrorismo islâmico da face da Terra”.

Utilizando a sua já tradicional gravata vermelha, o republicano chegou ao Capitólio acompanhado do agora ex-presidente Barack Obama — que o havia recebido mais cedo para um café na Casa Branca. A cerimônia contou com a presença dos principais líderes políticos. Os ex-presidentes George W. Bush, Bill Clinton — acompanhado de sua mulher e candidata derrotada na eleição, Hillary Clinton — e Jimmy Carter tiveram lugar de honra no evento.

A transição pacífica de poder é uma das principais características da democracia americana. No entanto, o rígido cerimonial conseguiu comportar uma alfinetada às ideias heterodoxas de Trump. O senador Chuck Schumer, líder de minoria democrata, afirmou em discurso na cerimônia: “seja qual for a nossa raça, religião, orientação sexual, identidade de gênero, quer sejamos imigrantes ou nativos, quer vivamos com deficiência ou não, na riqueza ou na pobreza, somos todos excepcionais na nossa feroz devoção ao país”. Tratou-se de um importante lembrete para Trump que, durante a campanha, ofendeu a comunidade latina, zombou de um jornalista com necessidades especiais, duvidou da lealdade de um soldado de origem islâmica morto em combate e se posicionou contra os direitos da comunidade LGBT.

Trump usou sua fala para reforçar sua visão isolacionista. “A partir deste dia em diante, vai ser apenas a América em primeiro lugar, a América em primeiro lugar. Todas as decisões sobre o comércio, os impostos, a imigração, os assuntos externos serão feitas para beneficiar os trabalhadores americanos e as famílias americanas”, afirmou.

Embora Trump tenha pregado que o patriotismo é o caminho para a união nacional, os protestos de grupos contrários em Washington mostram que o país entra em seu mandato mais dividido. Centenas de manifestantes quebraram janelas pela capital e precisaram ser contidos pela polícia. O público que acompanhou a cerimônia foi o menor dos últimos anos e ficou bem abaixo do esperado. As imagens áreas do National Mall mostravam grandes espaços vazios.

Após a cerimônia, Trump e sua mulher Melania — usando um vestido azul Ralph Lauren numa clara referência a Jacqueline Kennedy — acompanharam Barack Obama e Michelle ao helicóptero presidencial. O ex-presidente seguiu para as férias na Califórnia. É o fim de uma era e o começo de um novo tempo nos Estados Unidos.