3,5 bilhões de pessoas viajam de avião, mas medo aumenta

Previsão indica que 3,5 bilhões de pessoas entrarão em um avião em 2015, mas para um número significativo de passageiros, voar é como estar no corredor da morte

Toulouse – Se pudesse ter ido de ônibus de seu país, a Alemanha, até Nairóbi, na África Ocidental, o golfista profissional Florian Fritsch poderia ter disputado o Kenya Open 2010. Mas ele ficou onde estava porque tem medo de voar.

A fobia do jogador de 29 anos de idade se tornou tão debilitante que Fritsch começou a fingir doenças para não pegar um avião.

Após evitar cinco dos cerca de 25 eventos realizados em um ano, ele desistiu da temporada de uma vez e está jogando apenas o suficiente para manter suas credenciais, enquanto reflete sobre a vida ajudando jogadores amadores a melhorarem os swings no clube.

“No dia de viajar eu sinto como se fosse a minha vez no corredor da morte”, disse Fritsch. “No caminho até o aeroporto, no aeroporto e durante o voo eu sinto como se estivesse brincando de roleta russa, com uma arma apontada para a minha cabeça fazendo ‘clique’, e só fico esperando o barulho do tiro”.

As companhias aéreas reconhecem a necessidade de agir se quiserem conquistar pessoas como Fritsch como clientes. A Easyjet Plc disse nesta semana que no ano que vem aumentará o número de cursos oferecidos para pessoas que têm medo de voar, em resposta ao aumento da demanda.

A British Airways também expandiu sua rede de seminários, adicionando Nova York em 2012 e Dubai um ano depois, seguidas de Joanesburgo neste ano e Dublin em 2015.

A Air France disse que a demanda por seus seminários sobre o assunto está em alta. Eles podem custar centenas de euros e combinar conhecimento prático sobre a física do voo com discussões psicológicas e técnicas de relaxamento para reduzir o estresse.

Todos são afetados

O medo de voar está presente em todos os níveis da sociedade e independe da educação. Em todos os casos é comum o receio pela perda de controle, juntamente com a falta de informação sobre um ambiente pouco conhecido, disse Philippe Goeury, psicólogo do centro antiestresse da Air France, professor do curso.

O terror tende a surgir perto de um grande acontecimento, como o casamento, o nascimento de um filho ou a morte de um ser querido, disse ele.

“A demanda crescente por esses cursos reflete o estresse cada vez maior da vida diária”, disse Goeury. “Existe uma pressão constante por uma performance melhor, mais pessoas estão indo ao psicólogo, tudo está potencializado. Estar em um avião pode concretizar uma porção dessas angústias”.

Com a previsão de que mais de 3,5 bilhões de pessoas entrarão em um avião no ano que vem, voar se tornou algo tão onipresente para o trabalho e o lazer que nem mesmo os raros desastres aéreos perturbam os viajantes, em sua maioria.

Contudo, para uma minoria significativa, o medo de estar suspenso no ar, preso em um cilindro de metal acima das nuvens, pode acabar com as férias e sabotar carreiras.

Medos amplificados

Algumas companhias aéreas, entre elas a British Airways e a Deutsche Lufthansa AG, permitem que os passageiros testem sua recém-descoberta confiança em um voo de verdade no fim do curso.

A Air France opta por um simulador de cabine para imitar turbulências, explosões de motor e cancelamentos de aterrissagens.

Há tarifas a partir de US$ 200 e de mais de US$ 5.000 para aulas particulares. Embora as empresa usem o humor para acalmar os temores, se os participantes têm medo de turbulência, de voar sobre a água ou claustrofobia, atingir o tom correto é um desafio, disse Richard Conway, instrutor da Virgin Atlantic Airways Ltd.

No caso de Fritsch, o golfista profissional alemão, nem mesmo três anos mantendo um padrão de terapia, hipnose e cursos para combater o medo de voar conseguiram curá-lo totalmente.

Ele ainda detesta viajar de avião. E se conseguir se classificar para um grande torneio nos EUA, Fritsch disse que já sabe como chegar lá.

“Acho que o Queen Elizabeth consegue fazer a viagem de Portsmouth a Nova York em quatro dias”, disse ele.