2019 foi o ano de todos os protestos no mundo. E 2020?

Protestos de todos os tipos aconteceram mundo afora, mas há traços em comum: nasceram de forma horizontal e sem liderança estabelecida

Protestos foram registrados durante todo o ano em países como Chile, Hong Kong, Argélia, Líbano e França. Cidadãos revoltados e sem lideranças foram às ruas, retomando os combates dos “indignados” do começo da década contra o sistema político, as elites e as desigualdades.

Maquiados como o protagonista do filme “Coringa” (2019), personagem que se sente marginalizado, ou com a máscara de Guy Fawkes, protagonista de “V de Vingança” (2005), milhares de pessoas denunciaram problemas parecidos em Bagdá (Iraque), Beirute (Líbano) e La Paz (Bolívia), desencadeando a queda de cinco chefes de Estado e de governo.

É “uma revolução contra o ‘Tina'”, acrônimo de “there is no alternative” (Não há alternativa, na tradução em português), repetido pela ex-primeira-ministra neoliberal Margaret Thatcher, explica Karim Bitar, diretor do Instituto de Ciência Política na Universidade St-Joseph de Beirute.

“A sociedade não aguenta mais pagar e pagar. Eles apertaram muito o cinto e chegou um momento em que eu tive que desmoronar”, afirmou Marcela Paz, um professora de 51 anos, em uma manifestação de um milhão de pessoas em Santiago de Chile no final de outubro.

No mundo todo, rebeliões de todo tipo têm sido registradas. Esses protestos têm comum o fato de terem surgido de forma “horizontal” e “sem líderes, sem organização e nem estrutura”, explica Olivier Fillieule, especialista de movimentos sociais no Instituto de Estudos Políticos de Lausanne (Suíça).

O gatilho que desencadeou as mobilizações pode ser relativamente abstrato, como a lei das extradições (Hong Kong), pragmático, como o aumento do preço do metrô em Santiago (Chile) ou uma nova taxa para chamadas pelo WhatsApp (Líbano).

“Do Líbano ao Iraque, nossa dor é uma só”, podia-se ler em um cartaz em Beirute, diante da sede da Eletricidade do Líbano (EDL), que se tornou um símbolo da piora nos serviços públicos no país.

O peso da internet

Essas revoltas contam hoje com a internet muito mais do que em 2011, já que o número de internautas no mundo mais do que duplicou em 10 anos, até chegar a 4,5 bilhões de pessoas.

Na Argélia, as redes sociais desempenharam “um papel muito importante”, explicou à AFP Okba Bellabas, um dos 25 membros fundadores do Coletivo de Jovens comprometidos.

Em Hong Kong ou Barcelona, os manifestantes passam slogans por sistemas de mensagens seguros, inclusive com aplicativos que podem ser baixados com QR code.

“As redes sociais podem desempenhar um papel, mas não se trata de revoluções de Facebook”, ressalta Geoffrey Pleyers, sociólogo na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e no Colégio de Estudos Mundiais (Paris).

O peso da rede, ainda que não seja dominante, atrai forçosamente os mais conectados, ou seja, os jovens. Seu peso nessas mobilizações não é verificado de maneira sistemática. Os “coletes amarelos” da França costumam ser pessoas mais velhas, o movimento chileno inclui muitos aposentados, enquanto que os manifestantes em Barcelona e na Bolívia são de todas as idades, disse Pleyers.

Essas revoltas, dizem os especialistas interrogados pela AFP, se inspiram nos movimentos do começo da década: a primavera árabe, iniciada no final de 2010 na Tunísia, e também o Ocupy Wall Street, de setembro de 2011, contra as medidas de austeridade e os abusos do capitalismo financeiro.

“2019 aparece um ano muito importante em matéria de mobilizações”, diz Olivier Fillieule. “Mas isso não é inédito ou excepcional. Vamos lembrar que no final de 2011, a revista Time elegeu ‘o manifestante’ como personalidade do ano”. As mobilizações de 2019, portanto, “se inscrevem na mesma sequência histórica”, acrescenta.

“As disfunções econômicas reveladas pela crise de 2008 foram transferidas das elites aos menos poderosos através da austeridade, do desemprego, da insegurança”, explica Jake Werner, professor na Universidade de Chicago.

“Revoluções pela dignidade”

Segundo Erik Neveu, pesquisador da sociologia das mobilizações no Instituto de Estudos Políticos de Rennes (oeste da França), nos regimes democráticos, “a crença na capacidade da democracia para mudar de vida desmorona de maneira inexorável”.

As pessoas pensam que “sua salvação se encontra na mobilização”, assegura Neveu. “São as revoluções pela dignidade”, diz Bitar em Beirute.

Em apenas algumas semanas, esses movimentos desencadearam a saída de Abdelaziz Bouteflika, que renunciou ao quinto mandato na Argélia; de Omar Al Bashir, derrubado em abril, após 30 anos no poder do Sudão; na renúncia do presidente boliviano Evo Morales, do primeiro-ministro libanês Saad Hariri e do iraquiano Adel Abdel Mahdi.

Em Hong Kong, a desistiu-se da lei de extradição criticada pelos manifestantes e a China anunciou que “melhoraria” o processo de nomeação do chefe do executivo, duas das demandas da mobilização pró-democracia.

A repressão, no entanto, foi atroz em alguns lugares, como no Irã, onde, segundo a Anistia Internacional, pelo menos 208 pessoas morreram nos protestos em meados de novembro.

“A raiva não vai ceder” em 2020, prevê Bitar, “mas quem tirou vantagem do sistema político não cederá facilment e poderemos assistir contra-revoluções, que seriam brutais”.