20 anos após genocídio, presidente celebra renascimento

Vinte anos após o genocídio de 1994, que causou a morte de cerca de 800 mil pessoas em cem dias, o presidente de Ruanda comemorou o renascimento de seu país

Kigali – Vinte anos após o genocídio de 1994, que causou a morte de cerca de 800.000 pessoas em cem dias, o presidente de Ruanda, Paul Kagame, comemorou nesta segunda-feira o “renascimento” de seu país, apontando as responsabilidades da França na tragédia.

“Há 20 anos Ruanda não tinha futuro, apenas um passado”, ressaltou Kagame, observando que metade da população de Ruanda nasceu após o genocídio.

“Se o genocídio revela o poder chocante da crueldade humana, as escolhas de Ruanda ilustram sua capacidade de renascimento”, acrescentou, durante as cerimônias cheias de emoção no Estádio Amahoro (“paz”) de Kigali, na presença de oito chefes de Estado africanos e de trinta delegações estrangeiras.

“Nossa cultura comum é a nossa identidade, nossa língua nos une”, cantamos em Kinyarwanda, os 30.000 espectadores do estádio, o hino coral. Uma coreografia de mais de 500 dançarinos contou a história de Ruanda, em uma emoção palpável, com gritos escapando das tribunas a cada ator que caía, simbolizando os assassinatos.

Quando os sobreviventes relataram sua experiência durante o massacre e sua luta para sobreviver, espectadores comovidos, rapidamente ajudados por equipes de resgate, começaram a gritar e chorar descontroladamente, expressões traumáticas – chamadas “ihahamuka” – que surgem a cada ano durante as celebrações.

As queixas continuaram durante toda a cerimônia. “É tão difícil para as pessoas, porque ouvir os testemunhos dos sobreviventes abre feridas mentais, faz lembrar o que aconteceu com eles”, explicou um socorrista à AFP.

O ódio que não acabou

Em 6 de abril de 1994, o avião do presidente hutu Juvenal Habyarimanana, que retornava de negociações em Arusha (Tanzânia) com os rebeldes tutsis da Frente Patriótica Ruandesa (RPF), liderados por Paul Kagame, foi abatido sobre Kigali.

No dia seguinte, os massacres começaram. Os tutsis foram mortos – muitas vezes a golpes de facão – em suas casas, nas ruas ou em igrejas onde se refugiaram, por militares e milícias hutus, assistidos por uma parte da população.


Hutus que se recusaram a participar nas matanças também pereceram.

Nesta segunda-feira, no memorial do genocídio de Gisozi em Kigali, o presidente Kagame, sua esposa e o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon acenderam, com uma tocha que percorreu todo o país em três meses, uma “chama de luto”, que vai queimar por 100 dias, simbolizando os cem dias que duraram os massacres.

O genocídio em Ruanda continua a ser uma mancha na história da ONU, incapaz de parar os assassinatos e que, em meados de abril, no auge da violência, evacuou a maioria dos seus 2.500 soldados da paz.

“No espaço de uma geração, o ódio não foi apagado”, assegurou Ban Ki-moon no estádio Amahoro, “poderíamos ter feito muito mais. Devíamos ter feito mais. Os capacetes azuis foram retirados de Ruanda no momento em que mais eram necessários”.

Os fatos são teimosos

Kagame também criticou a França, acusada de se recusar a reconhecer a sua responsabilidade nos massacres.

“Nenhum país é poderoso o suficiente – mesmo se ele pensa ser – para mudar os fatos” e a história, declarou em inglês o presidente de Ruanda antes de dizer, em francês, “depois de tudo os fatos são teimosos”, sob os aplausos da multidão.

Neste mesmo momento em que o presidente questionava o papel de Paris no genocídio, a presidência francesa emitiu um comunicado ressaltando que a França “se une ao povo de Ruanda para honrar a memória de todas as vítimas do genocídio”.

Inicialmente, Paris cancelou sua participação nas cerimônias, após Kagame acusar a França, aliada em 1994 do regime de Habyarimana e cujo papel no genocídio continua a ser controverso.

Finalmente, para representar o governo francês, o embaixador da França em Kigali, Michel Flesch, foi descredenciado domingo à noite para assistir às cerimônias oficiais.

Kagame também questionou amplamente os críticos de Ruanda que, depois de muito tempo beneficiada diplomaticamente da culpa da comunidade internacional, tem sido recentemente alvo de severas críticas, inclusive de seus aliados mais próximos, os Estados Unidos à frente.

“Não há justificativa para estabelecer paralelos supostamente morais, o tempo corrido não deve obscurecer os fatos, diminuir as responsabilidades ou transformar as vítimas em vilões”, lançou Kagame, cujo país é acusado de desestabilizar o leste da República Democrática do Congo e de estar envolvido no assassinato de refugiados ruandeses dissidentes na África do Sul.

Aparentemente respondendo às acusações de autoritarismo de seu governo, ele afirmou que “aqueles que pensam que Ruanda ou a África ainda precisam de sua aprovação para serem governados como se deve (…), vivem no passado”.

O luto oficial em Ruanda terminará no dia 4 de julho, aniversário da tomada de Kigali pelo RPF, que pôs fim ao genocídio.

*Atualizada às 14h02 do dia 07/04/2014