Onda de otimismo na bolsa

Thais Folego

Só neste ano, o Ibovespa já subiu 40%, ativos de renda fixa ganharam 30% e o real valorizou em 20%. Nem parece que isso tudo acontece em um país ainda em meio a uma grave crise econômica e social. O mercado financeiro, no entanto, tenta antecipar os movimentos da economia real. O otimismo foi destravado após o impeachment de Dilma Rousseff e o anúncio de medidas de ajuste fiscal pelo novo governo. Mas ainda há dúvidas se, de fato, a nova administração terá força política para aprovar medidas impopulares. A aprovação da PEC 241, que impõe um teto para os gastos públicos, em primeira votação na Câmara dos Deputados esta semana foi, claro, uma vitória. Só que o mercado espera mais.

“O mercado ainda tem gatilhos para continuar subindo”, diz Alexandre Silvério, chefe de investimentos da gestora AZ Quest. Ele cita a expectativa com a decisão de política monetária do Banco Central na próxima semana, a votação da PEC 241 em segundo turno na Câmara — prevista para acontecer até o final do mês – e depois sua apreciação no Senado, além do envio das propostas de mudanças na Previdência para comissões da Câmara. O gestor projeta que o Ibovespa feche o ano acima dos 65.000 pontos — nesta sexta-feira o principal indicador da bolsa brasileira esteve próximo dos 62.000 pontos, o maior patamar em dois anos.

Para Samuel Kinoshita, sócio e economista da Bozano Investimentos, os efeitos que a PEC 241 terá para o país ainda não estão totalmente incorporados nos preços dos ativos brasileiros. “O país está mudando radicalmente de perspectiva. Chegamos muito perto do abismo e agora estamos nos afastando, a questão agora é em que velocidade faremos isso”, diz. Ele lembra que o Brasil vive um desarranjo fiscal de muitas décadas, que por muitos anos foi compensado com inflação, aumento da carga tributária e elevação da dívida. Mas que agora chegou-se no limite em que as opções são cortar os gastos públicos ou voltar para a hiperinflação da década de 1980, avalia.

A valorização dos ativos locais, porém, não é resultado apenas de uma melhora do cenário interno. “Tivemos o impeachment, mas pegamos um vento de polpa internacional muito importante. O Ibovespa saiu do seu pior momento do ano, quando bateu nos 38.000 pontos, para os atuais 60.000 pontos. Isso foi resultado de uma combinação de fatores externos e internos, mas nessa composição o externo foi maior”, diz Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp, que administra mais de R$ 20 bilhões em recursos de previdência. Ele cita a postergação da alta dos juros nos Estados Unidos e a menor percepção de risco com a China entre os principais fatores que sustentaram a melhora de humor com os mercados emergentes neste ano.

Simino separa a perspectiva para o desempenho futuro das ações brasileiras em duas questões: de números e de percepção. No primeiro caso, o Ibovespa é negociado atualmente a um múltiplo de preço sobre lucro (P/L) próximo de 20 vezes, muito acima de sua média histórica de 12,4 vezes dos últimos 10 anos. Segundo ele, para voltar para perto desse patamar, é necessário estimar um crescimento de 80% dos lucros nos próximos dois anos, o que não parece muito razoável. “Quando olhamos a bolsa do ponto de vista dos números, já passou do ponto. Mas esse padrão de comportamento [de alta] é justificável em um mundo com uma liquidez absurda e uma busca desesperada por retorno”, diz Simino, lembrando que nos países desenvolvidos os juros estão próximos a zero há muitos anos — quando já não estão no campo negativo, como no Japão, Suíça e Dinamarca. Sob a perspectiva da percepção, porém, o gestor lembra que o Brasil é visto pelos investidores estrangeiros como um dos únicos países entrando em um processo de reformas, experiências vividas recentemente por México e Índia.

Segundo os últimos dados do BC, de janeiro a agosto o investidor não-residente tirou 18,5 bilhões de reais da renda fixa do país. Em ações, o saldo é positivo em 5 bilhões de reais e para os fundos de investimentos ingressaram outros 2,3 bilhões de reais. Segundo Kinoshita, a percepção que a gestora teve nas últimas reuniões com investidores estrangeiros é de que o interesse por ativos brasileiros subiu bastante de maio para cá e que eles estariam próximos de voltar a aportar recursos no país. Ele estima que os hedge funds, que perderam essa primeira pernada de alta, devem voltar no começo do ano que vem, época em que revisam seus portfólios. Já os com visão de mais longo prazo podem demorar mais tempo para aplicar no país, pois esperam a reforma da Previdência.

Novidades também devem vir do câmbio. Quando o mercado ainda estava azedo, no início do ano, chegou-se a se falar em dólar a 5 reais, em um momento em que a moeda americana era negociada perto dos 4,20 reais. Mas de lá para cá a trajetória foi de apreciação. “Ainda tem espaço para mais valorização. Vai depender do encaminhamento da reforma da Previdência e do ritmo do ciclo de corte de juros do BC”, avalia a economista-chefe da Arx Investimentos, Solange Srour, que projeta dólar a R$ 3,20 no fim deste ano e R$ 3,30 em 2017.

O dólar é negociado hoje na casa de R$ 3,19. Segundo a economista, se o Banco Central cortar os juros mais gradualmente, o real tem mais espaço para subir. Se a autoridade monetária for mais rápida nos cortes, há menos espaço. Sua estimativa é de que a Selic chegue aos 10,25% ao fim do ano que vem. O último relatório Focus, do Banco Central, mostra que o mercado estima que o dólar termine este ano em 3,25 e que em 2017 fica na casa dos 3,40 reais. Para a Selic, a projeção é de 13,75% no fim do ano e de 11% ao fim de 2017.

Para que o roteiro benigno do mercado se concretize, no entanto, o vento externo precisa continuar soprando a favor. “O cenário externo é complicadíssimo. Ainda há o risco de o Fed subir os juros mais rápido que o esperado. Precisamos esperar para ver as consequências do Brexit. Há também as eleições em países importantes da Europa, como Alemanha e França, além do balanço do Deutsche, que é assustador”, diz Simino, da Fundação Cesp. Em resumo: o caminho parece ser o de ganhos para os ativos locais, desde que ninguém tropece em nenhum fio.