Vencimento de títulos do Tesouro deve impulsionar ações de dividendos

De acordo com relatório do Itaú, parte desse dinheiro deve ser investido em empresas de saneamento básico, energia elétrica e construção civil

São Paulo – O vencimento da dívida do governo brasileiro nos próximos anos tem potencial para impulsionar ainda mais os investimentos em ações, avalia a Itaú Corretora. Nos cálculos da instituição, cerca de 2,9 trilhões de reais da dívida pública vencem nos próximos cinco anos. Parte dessa dívida é negociada diretamente com os investidores via Tesouro Direto.

Desse total, mais da metade, 1,6 trilhão de reais, são papéis dos tipos NTN-B, corrigidos pela inflação, NTN-F, prefixados com juros semestrais, e LTN, prefixados com juros no vencimento. Esses papéis dificilmente serão renovados nas mesmas taxas de quando foram emitidos. Isso significa que eles são passíveis de conversão em outros tipos de investimentos, acredita o Itaú. Segundo a corretora, 100 bilhões de reais em LTN vencerão nesta terça-feira (1), um evento digno de nota que poderia criar outra onda de aplicações em ações.

Para a corretora, nunca houve um momento melhor para investir em ações em relação a títulos de renda fixa do que agora. O retorno em lucros oferecido pelas ações é o melhor de todos os tempos em relação aos rendimentos dos títulos, e vem superando a renda fixa desde 2017. E a tendência de taxas de juros ainda mais baixas pode ampliar essa dinâmica, avalia o Itaú, que acredita que os efeitos dos grandes vencimentos do Tesouro serão visíveis no mercado de ações. A corretora dá o exemplo de maio, quando o vencimento de 88 bilhões de reais em NTN-B provocou um aumento da entrada de investimentos em fundos de ações.

Ações de dividendos devem atrair mais

Para o banco, o ambiente de troca de renda fixa por ações deve favorecer em especial os papéis de boas pagadoras de dividendos, empresas que apresentam grandes fluxos de caixa com um grande histórico de distribuição de lucros. Os investidores acostumados a investimentos seguros e de alto rendimento vistos no passado no mercado de renda fixa brasileiro têm maior probabilidade de migrar primeiro para ações menos voláteis, e as empresas de dividendos se encaixam melhor nesse perfil. “Sua alta geração de caixa e histórico positivo de dividendos provavelmente atrairão novos investidores”, diz o Itaú.

Em alguns casos, o retorno em dividendos das empresas, isento de imposto de renda, chega a superar o ganho das NTN-Bs do Tesouro, diz o banco.

Taxas de juros mais baixas podem beneficiar outras empresas a se tornar pagadoras de dividendos também, observa o Itaú. Juros consistentemente menores tendem a ajudar esses setores naturalmente geradores de caixa, mas que precisam se financiar no mercado para crescer, como os de infraestrutura. É o caso de empresas de saneamento, energia elétrica, estradas e construção.

A ausência do BNDES no mercado de dívida coincidiu com um aumento no mercado de capitais, que passou a desempenhar o papel de financiador de projetos. E isso proporcionou uma fonte de recursos descentralizada e barata para projetos de alto investimento, o que poderia ajudar a impulsionar segmentos de infraestrutura nos próximos anos e ampliar a oferta de empresas pagadoras de dividendos. O Itaú analisou empresas desse segmento de boas pagadoras de dividendos e chegou aos nomes de CPFL, Copasa, Multiplan e Rumo.

Atualmente, a carteira sugerida do Itaú destina 40% de seu peso para ações de dividendos, enquanto no Índice Bovespa elas representam apenas 9%.

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Crescimento, a próxima onda

A corretora acredita também que a próxima tendência a ser observada no mercado de ações, depois dos dividendos, será a busca por crescimento. No entanto, os sinais de retomada da economia ainda estão muito fracos. Para passar para ações de crescimento, em que as small caps, ou empresas menores, seriam beneficiadas, o Itaú diz que gostaria de ver tendências positivas consistentes em dois indicadores: empregos e investimentos.

Um indicador seria os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apresentarem persistentemente uma criação líquida de vagas acima de 50 mil por mês, a fim de impulsionar ainda mais o mercado de crédito. Outro seria um forte aumento na utilização da capacidade industrial, que poderia levar as empresas a obter mais crédito para fins de investimento.

Texto publicado originalmente no site Arena do Pavini.