Tombini impõe estilo e “vence” mercado com Selic histórica

Desde a primeira redução, em agosto de 2011, BC peitou as projeções de analistas e operadores

São Paulo – “Assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro sólido e eficiente”. Essa frase está no topo do site do Banco Central na internet e resume a missão da autoridade monetária brasileira, mas durante a gestão de Alexandre Tombini – que assumiu o cargo no início de 2011 – a preocupação com o crescimento econômico e a crise financeira internacional ganhou uma importância maior.

Foi esse o principal motivo para o desentendimento entre os economistas e operadores do mercado financeiro e o novo líder do BC. Enquanto as projeções indicavam a possibilidade de uma inflação persistente acima da meta, o Copom (Comitê de Política Monetária) nem deu bola e, de maneira inesperada, iniciou o histórico ciclo de cortes na Selic que a levaria ao menor nível já visto e que até culminou com a temida mudança na poupança.

Os diretores justificaram a decisão de cortar o juro em 31 de agosto de 2011 como uma maneira de mitigar os efeitos de um ambiente global mais restritivo. A decisão não foi unânime (5 votos a 2, que defendiam a manutenção) e o comunicado divulgado na ocasião inovou ao ser mais longo que o habitual. A notícia veio como uma bomba para as planilhas dos economistas, que refizeram os cálculos e passaram a prever que um grande ciclo de afrouxamento monetário estaria por vir.

As surpresas não pararam por aí e se seguiram em outras decisões, como a que levou a Selic de 9,75% para 9% em abril. A BM&F até registrou um recorde nas negociações dos contratos de juros futuros naquele dia.O perfil de Tombini se confirmava como mais agressivo e “falador” do que seu antecessor, Henrique Meirelles.

“Pombini”

O presidente do BC voltou a ser conhecido como “Pombini”, apelido que ganhou de desafetos a partir de 2005, quando passou a integrar o Copom. O termo “pomba” é usado no mercado financeiro para classificar os economistas que assumem uma abordagem menos agressiva com o controle dos preços. Os falcões, ao contrário, têm um viés mais duro quando veem uma ameaça à inflação. A tendência de queda continuou e a tesoura do BC cortou 5,25 pontos percentuais da Selic, que chegou a 7,25% na última quarta-feira.


O BC sinalizou na ata da última reunião publicada nesta quinta-feira que o juro será agora mantido por um período “suficientemente prolongado”. Tombini parece ter aproveitado a janela aberta pela crise ao limite. A redução de 25 pontos-base na semana passada teve o placar mais apertado de sua gestão: 5 a 3. Anthero Meirelles, Carlos Hamilton e Sidnei Corrêa queriam a manutenção, pois acreditavam que a recuperação da atividade já está sustentada pelos impulsos monetários, fiscais e de crédito implementados pelo governo federal.

Futuro

Se os operadores nos mercados futuros não tinham mais como apostar em uma mudança de tendência nos juros, vide que o BC estava determinado a derrubá-los, a pausa agora traz ao menos a esperança de especular o momento no qual ele voltará a subir. As negociações dos contratos na quinta-feira ainda não trouxeram tal aposta. As taxas para janeiro e abril de 2013 ficaram praticamente inalteradas após a divulgação da ata. O mercado só precifica um aumento a partir de outubro do ano que vem. Mesmo assim, as taxas não se mexeram muito ontem.

Há indefinição também entre os economistas. “Diante das sinalizações na Ata e do esforço conjunto do governo para garantir a retomada da atividade, alteramos o nosso cenário de referência para a política monetária, contemplando agora a projeção de manutenção da Selic em 7,25% no restante de 2012 e ao longo de 2013”, diz Flávio Combat, da Concórdia Corretora. Segundo ele, caso seja necessário pisar no freio, o BC lançará mão de instrumentos de controle do crédito e da liquidez do sistema financeiro.

Outros, por sua vez, apostam que o juro sobe no último trimestre do ano que vem. “A LCA continua a projetar no cenário base – que traz premissas relativamente benignas para a evolução do ambiente externo e para a trajetória da atividade doméstica – um aumento total da Selic de 175 pontos-base, para 9% ao ano, a ser implementado a partir do 4º trimestre de 2013”, ressaltou a consultoria em um relatório.