Apatia do mercado mostra denúncia contra Temer já precificada

Embora tenha caído, o pregão foi muito mais calmo do que no dia do circuit breaker, em 18 de maio, após a revelação da delação premiada de Joesley Batista

Desde que as gravações do executivo do grupo JBS, Joesley Batista, vieram à tona, em meados de maio, sossego é uma palavra que o governo riscou do dicionário.

Na noite de segunda-feira foi enviada a denúncia pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, contra Temer por corrupção passiva — o primeiro presidente a ser denunciado no cargo na história do país. Se a política em Brasília vive novos momentos de tensão, como ficam o mercado e os investidores com a denúncia?

O Ibovespa começou a terça-feira oscilante até fechar com 61.675 pontos, uma queda de 0,82%. Embora tenha caído, o pregão foi muito mais calmo do que no dia do circuit breaker, em 18 de maio, após a revelação da delação premiada de Joesley Batista.

“O mercado mudou desde aquela ocasião, o investidor doméstico se tornou mais apático ou saiu da bolsa e os eventos atuais acabaram se precificando”, afirma o analista da corretora Clear Raphael Figueredo. Para ele, não deve haver novo pânico generalizado na bolsa por causa da crise política.

“O preço irá encontrar alguma sustentação. Até porque no curto prazo ainda temos a leve recuperação econômica, bem como as expectativas de queda na inflação e na taxa de juros, que deve diminuir o endividamento das empresas”.

Para o estrategista da corretora Guide, Luis Gustavo Pereira, a denúncia de Janot estava totalmente precificada e as outras três possíveis denúncias, que devem vir no futuro, também já estão.

“A questão é que essas denúncias aumentam o tempo de incerteza causada pela política no mercado”, diz. Com essas denúncias, o governo também foca na sobrevivência e deixa em segundo plano a agenda de reformas.

Segundo Pereira, a própria reforma da Previdência já não deve vir no futuro próximo, programada apenas para 2019. Outros investidores ainda acreditam que pequenas medidas podem ser tomadas no governo Temer, mas reforçam que o grosso da reforma ficará para depois.

“A gente não escapa disso com qualquer um que ganhar no ano que vem, porque o Brasil é ingovernável com um teto de gastos se a reforma da Previdência não for feita”, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo, Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde.

A reforma trabalhista, que deve ser votada amanhã na Comissão de Constituição e Justiça do Senado pode se tornar real até o final da semana, ainda é aguardada. Mas a oposição à reforma, bem como o enfraquecimento do governo, são palpáveis e o texto pode vir mais aguado do que o original.

“Mesmo que venha desidratado, qualquer reforma é um avanço e pode melhorar o cenário de desemprego no segundo semestre, com o empresário podendo se programar para contratar”, afirma Figueredo, da Clear.

Além das denúncias da PGR, há outros riscos políticos que podem impactar o mercado. Um possível desembarque do PSDB da base aliada seria um evento que fragilizaria ainda mais o governo — e um baque que iria repercutir na bolsa.

Outros prováveis cenários de crise que ainda podem surgir vão desde a saída de presidentes das estatais, como por exemplo de Pedro Parente da Petrobras, e até mesmo a debandada da base aliada na votação das denúncias contra Temer na Câmara dos Deputados — historicamente a casa é muito menos coesa e muito suscetível a pressões públicas, o que aumenta o grau de imprevisibilidade.

Por hora, enquanto o cenário é incerto, os volumes de operação e negociação na bolsa continuam em baixa. Segundo Figueredo, o volume de maio foi mais alto do que o mês anterior porque havia vencimento de opções e de contratos futuros no mês, o que não há agora em junho.

Quem continua na bolsa o faz apenas de maneira especulativa. E será assim enquanto o futuro do governo seguir incerto.