Saravalle, da XP: Temer e a bolsa

Letícia Toledo

Em um dia caótico no mercado financeiro, o Ibovespa despencou 8,8%. No início das negociações, às 10h21, o pregão teve um circuit break e as negociações foram interrompidas por 30 minutos. O dólar subiu para 3,38 reais. A pergunta que fica agora é: até quando as ações vão cair? Para o analista Marco Saravalle, da XP Investimentos, quanto mais o mercado demorar para ter respostas, pior o cenário vai ficar.

A bolsa caiu 8,8% e o dólar subiu 3,38. O movimento do mercado hoje foi tão ruim quanto o esperado?
Sempre quando é negativo é ruim. É difícil dizer o quão ruim foi. O que foi precificado foi a aversão ao risco. E agora precisamos medir os impactos dessas notícias no fundamento das empresas. De que forma isso impacta a inflação, os juros, o crescimento econômico e de que forma isso pode impactar o desempenho das empresas.

Então o impacto no mercado acionário deve continuar? Que empresas sofrem mais?
O ajuste infelizmente vai continuar. Talvez não seja com a mesma intensidade de hoje, mas deve impactar nos fundamentos. Empresas públicas ou muito ligadas ao governo tendem a continuar com os piores desempenhos. Já no setor financeiro, que caiu muito hoje, os bancos privados não devem ter muita mudança na rentabilidade. Não faz sentido o Itaú, por exemplo, perder 20% de seu valor por conta de um escândalo do governo.

De acordo com o site O Antagonista, Aécio Neves teria confidenciado a Joesley batista que teve de pagar 40 milhões de reais para garantir Fábio Schvartsman na presidência da mineradora Vale. Mesmo assim, as ações da companhia terminaram o dia em leve alta. Os investidores ignoraram a notícia?
Realmente não vi ninguém no mercado usar essa notícia como um fator de risco para a empresa. Schvartsman é um nome com boa reputação e os investidores parecem lhe dar o benefício da dúvida. É preciso lembrar também que as ações subiram porque a empresa é exportadora, como toda exportadora é beneficiada pela alta do dólar.

Os investidores esboçaram alguma reação ao pronunciamento do presidente Michel Temer de que não irá renunciar?
Teve uma reação negativa nas ações. Isso porque agora a gente tem uma incerteza a mais, com a base enfraquecida. Os próximos passos estão bastante incertos porque os partidos estão anunciando a saída da base e o que a bolsa precisa é de certezas. O Temer permanece, mas permanece enfraquecido, a reforma da Previdência fica mais complicada.

Se o Temer renunciasse, seria melhor para a bolsa?
A bolsa sempre prefere um cenário com a maior certeza. Seria mais fácil, com a renúncia, cumprir uma agenda, saber quais são os próximos passos, esperar a eleição direta e avaliar os possíveis nomes. Hoje, há muitos cenários possíveis e nenhum cenário provável. É diferente do período pré-impeachment, por exemplo, em que se tinha apenas dois cenários. Agora a gente tem muitos cenários.

Diante de tudo isso, os investidores já consideram a reforma da Previdência inviável?
Ainda não conseguimos precificar essa possibilidade. Não descartamos a Previdência, sabemos que ela precisa ser revista, mas ainda não sabemos qual a possibilidade da aprovação. É importante agora ter agilidade para clarear o cenário. Quanto maior o ponto de interrogação, mais ansioso o mercado fica e mais as ações podem perder o valor.