Recuperação do Ibovespa carece de consistência, vê Itaú

Corretora do banco não acredita que crescimento do índice seja consistente e reflita o clima atual de negócios ou o faturamento das empresas

São Paulo – Durante o último mês, o Índice Bovespa (Ibovespa) aumentou em 12%, saindo de 45.000 pontos no começo de julho para, agora, passar dos 50.000. O Itaú, no entanto, não acredita que esse movimento seja consistente e reflita o clima atual de negócios ou o faturamento das empresas brasileiras.

Desde o começo do ano, o crescimento do lucro por ação (LPA) das empresas vem apresentando uma constante queda, passando de 22,5% para os atuais 11,5%, o que tem ofuscado o que parecia uma temporada satisfatória de ganhos – 51% das empresas brasileiras com ações na bolsa divulgaram resultados acima das expectativas.

Isso corrobora para o que os grandes clientes do banco consideram uma desaceleração da economia que está se espalhando rapidamente, mesmo com a inflação permanecendo resistente. Ou seja, mesmo com o índice abaixo do que no começo do ano, o mercado acionário brasileiro não está parecendo tão barato ou tão atrativo em relação ao desempenho das empresas.

Os economistas do Itaú BBA revisaram o cenário macro e, apesar de terem baixado suas estimativas em relação a 2013, é para os números de 2014 que, segundo relatório do banco, eles estão olhando com a “testa franzida”.

Os economistas baixaram o crescimento do PIB de 2014 para 1,7%, significativamente abaixo do consenso estimado pelo mercado, que é de 2,2%. Com esse número em mente, fica difícil imaginar o lucro por ação dos papéis que compõem o MSCI Brasil cresça 14,9% em 2014. Em vez disso, o banco espera que os desapontamentos e as reduções de lucros continuem no curto prazo, com o Brasil provavelmente entrando em uma fase de crescimento zero do PIB no próximo trimestre.

Em suma, o banco analisa esse recente crescimento e não vê motivos para se dizer otimista em investir no mercado local. Ainda assim, o Itaú afirma que existem várias explicações para esse crescimento atual, e acredita que três deles mereçam destaque. São eles:

Brasil não tem sido uma boa opção

O fluxo de capital estrangeiro para fundos internacionais dedicados ao Brasil foi negativo durante 24 semanas consecutivas e tem alcançado um total de perda de US$ 4,3 bilhões no acumulado do ano, mesmo depois de um começo de ano aparentemente forte.


Em conversa com clientes, o Itaú viu que o interesse dos investidores no Brasil diminuiu. Um argumento que o banco continua ouvindo é o de que “se você quiser investir em tendência de momento, os Estados Unidos são a melhor escolha, e se você quiser investir em valor das ações, há opções razoáveis na Europa”. Assim, um possível responsável por essa recuperação do Brasil hoje seria a cobertura de posições vendidas em excesso, que estariam sendo parcialmente ajustadas para menos.

Ações para emprestar estão mais difícil de encontrar

O principal sinal que o banco recebe de sua mesa de negociações é de que tem sido mais difícil encontrar ações para alugar no curto prazo, além de as taxas de empréstimo terem subido substancialmente. Ou seja, ficou mais difícil construir operações de aluguel e venda de uma ação para compra de índice futuro.

Com isso, o chamado carregamento de posições, no qual se vende o papel à vista e compra-se futuro, está mais complicado, também pela falta de ETFs de BOVA11, que reproduz o Ibovespa, para alugar. Com isso, diversos investidores tiveram que fechar suas posições, o que significa comprar ações à vista e vender futuro, puxando os preços. Isso apertou o mercado, fazendo que ele ficasse mais caro.

A metodologia do Ibovespa

Há quem diga que a metodologia do Ibovespa deva ser revista e melhorada. Para esse aperfeiçoamento, a Bovespa coletou sugestões de investidores e está discutindo essa possibilidade. O fato é que um rebalanceamento da carteira do índice ocorrerá no fim de agosto seguindo a metodologia atual, e este ajuste vai continuar ampliando os problemas do Ibovespa.

A diferença de desempenho do Ibovespa para MSCI Brasil IBX alargou-se, a volatilidade do índice brasileiro tem aumentado e as próximas mudanças nele – como a OGX – vai lançar dúvidas sobre o índice e se ele realmente deve ser um ponto de referência. Enquanto isso, a atual metodologia continua criando grandes distorções nos preços das ações.

Apesar do explicado acima, o banco não acredita que esses pontos justifiquem o recente desempenho. Ele mantém sua posição defensiva em ações brasileiras como uma classe de ativos. De maneira geral, banco sugere apenas arbitragens, como Vale contra Petrobras e bancos versus consumo discricionário, ou compra de exportadoras e papéis defensivos.