Recuperação da Via Varejo atrai investidor individual

A quantidade de investidores individuais na Via Varejo hoje é vinte vezes maior do que em 2017

(Bloomberg) — Há uma estrela em ascensão no rali recorde do Brasil. As ações da Via Varejo dispararam 156% desde o início do ano e mais do que dobraram de valor desde 14 de junho, quando um grupo de fundos se juntou a Michael Klein para comprar, em leilão na B3, a fatia da empresa colocada à venda pela Cia Brasileira de Distribuição, subsidiária da Casino no Brasil.

Os novos donos correram para mudar a administração, que por sua vez tomou medidas para recuperar os negócios o mais rapidamente possível, instalando 8.000 novos computadores nas lojas em cinco meses e arrumando a plataforma de comércio eletrônico da empresa a tempo da Black Friday.

O retorno veio na forma de R$ 1,1 bilhão de vendas em 24 horas e sem queda no sistema, o que o presidente da empresa, Roberto Fulcherberguer, chamou de “o teste dos testes de estresse no varejo” em reunião com investidores na terça-feira.

“A gente não sabia se ele tinha dente antes da Black Friday“, brincou no palco, referindo-se a Helisson Lemos, ex-vice-presidente do MercadoLibre Inc. e atual diretor digital da Via Varejo. “Ele nunca ria e só começou a fazer piadas quando a Black Friday acabou.”

O rali da Via Varejo também está ligado ao crescente número de investidores individuais na maior economia da América Latina. As ações da varejista — as mais negociadas no Brasil nos últimos 20 dias — viram um aumento significativo no número de pessoas em sua base acionária, segundo o diretor financeiro Orivaldo Padilha.

“Aumentou e agora é bastante relevante”, disse Padilha em entrevista na terça-feira em São Paulo, preferindo não dar detalhes sobre o quanto esses investidores agora representam. “É uma nova realidade. O brasileiro está descobrindo as empresas produtivas e acredita em algumas e a gente está sendo bastante feliz em poder atrair esse novo investidor.”

A quantidade de investidores individuais na Via Varejo hoje é vinte vezes maior do que em 2017 e a empresa está pensando em criar uma divisão em seu departamento de relações com investidores focada nesse tipo de acionista, de acordo com uma pessoa próxima às discussões que não quer ser nomeada porque os planos ainda não são públicos.

A mudança não se restringe à Via Varejo: a queda das taxas de juros estão provocando uma mudança radical em como os brasileiros alocam seus ativos. Os investidores estão mergulhando em relatórios de análise, colocando dinheiro em ações populares e comprando títulos de alto rendimento. Foram os locais que levaram o Ibovespa a níveis históricos, com os investidores estrangeiros ainda tímidos.

As ações da Via Varejo tiveram duas quedas bruscas no último mês, após a divulgação de informações sobre uma investigação de fraude. Mas as quedas foram momentâneas, com os investidores vinculando as práticas à antiga administração da empresa. Somente no último mês, a Via Varejo subiu mais de 48%, o melhor desempenho do Ibovespa, ficando entre as três primeiras no ano.

O impacto estimado das fraudes – que ainda estão sob investigação – é de até R$ 900 milhões no quarto trimestre e os delitos estão supostamente relacionados a funcionários de médio escalão, disse Padilha aos investidores. O impacto deve ser mitigado ao longo de 2020 com a expectativa de créditos fiscais e no final pode ficar em até R$ 500 milhões, disse.

Analistas veem mais potencial de alta para as ações, que têm nove recomendações de compra, seis de manutenção e apenas uma de venda, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. O Itaú BBA e a Eleven Financial Research aumentaram o preço-alvo para a Via Varejo após a reunião com investidores, mencionando o progresso da administração até o momento e estimativas para 2020.

“Saímos do evento com a sensação de que a mudança está ganhando velocidade na Via Varejo“, disseram analistas do Itaú BBA liderados por Thiago Macruz em relatório de 17 de dezembro.