Reação extrema do mercado não deveria surpreender

Em momentos de incerteza, o comportamento do mercado financeiro nem sempre é pautado pela racionalidade

São Paulo – O dólar já caiu 3,70% esta semana, enquanto a bolsa brasileira valorizou mais de 5%. O desempenho de algumas ações é ainda mais impressionante. Os papéis da estatal de energia Eletrobras subiram 14% em três dias, os da Petrobras tiveram alta de 12% e os do Banco do Brasil ganharam 16%.

O motivo é um só: o crescimento do candidato à presidência Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto.

Eufóricos com a possibilidade de vitória de um candidato que tem dito que vai fazer privatizações, reformas e adotar medidas de ajustes fiscal, muitos investidores têm ignorado os alertas de analistas econômicos, que apontam para os riscos de um governo Bolsonaro. Os principais, no campo econômico, são o seu real comprometimento com o equilíbrio das contas públicas e a chance de conseguir aprovar reformas.

Impossível saber quem está certo hoje – os economistas com o pé atrás ou os investidores otimistas. Mas vale lembrar que o comportamento do mercado financeiro nem sempre é pautado pela racionalidade, especialmente em momentos de grande incerteza como o atual.

“Os investidores não têm medo de crise, porque isso se coloca nos preços. Têm medo do escuro”, diz Adeodato Netto, estrategista-chefe da Eleven Financial. Na dúvida, os investidores acabam comprando demais, ou vendendo demais.

Se o próximo presidente fizer um bom governo, a bolsa deve subir. Quem estiver de fora deixará de ganhar dinheiro. Muitos investidores passaram por isso no fim de 2016, ao não acreditar que as ações valorizariam num governo Michel Temer. É possível que não queiram viver isso de novo e estejam se antecipando.

Se o cenário mudar — ou expectativas forem frustradas –, o mercado deve oscilar bastante com os investidores tentando se ajustar à nova realidade. Com a subida de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, os analistas apostam que ele irá para o segundo turno com vantagem em relação a Fernando Haddad. Uma diferença apertada, dentro da margem de erro, pode fazer a bolsa cair e o dólar voltar a apreciar na próxima semana. 

Hoje, o que mais preocupa a maioria dos executivos do mercado financeiro é a chance de um eventual governo Fernando Haddad ser parecido com o de Dilma Rousseff, o que poderia gerar um novo período de crise.