Quem ganha e quem perde na bolsa com a alta dos juros

Analista da Ativa Corretora lista empresas e setores que podem se beneficiar – ou se prejudicar – com a Selic mais elevada

São Paulo – Pela quarta vez consecutiva o Banco Central subiu a taxa básica de juros na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), encerrada ontem. Tendo a inflação elevada no horizonte, o Banco Central elevou a taxa em 0,50 ponto percentual, a 9,00% ao ano. Em relação à mínima registrada em outubro de 2012, de 7,25%, a alta foi de 1,75 ponto percentual.

A elevação da taxa de juros reduz a atratividade da bolsa para os investidores de forma geral, mas alguns há setores e empresas que possuem uma defesa natural ao aumento dos juros. Marcelo Torto, analista da Ativa Corretora, destacou quem pode se favorecer em um cenário de juros mais elevados – e também quem enfrenta maior turbulência.

Quem ganha

Um aumento nos juros beneficia os bancos, de forma geral, devido à forte correlação entre os spreads bancários (a diferença entre o custo de captação do banco e os juros cobrados do cliente) e a taxa Selic. Juros maiores significam spread maior e, consequentemente, um repasse em maior magnitude ao tomador final em relação ao aumento do custo de captação. Beneficiariam-se Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Santander (SANB11).

O novo ciclo de alta dos juros permite uma normalização dos retornos históricos após a redução da rentabilidade de juros dos bancos decorrente do acirramento da concorrência com bancos públicos que, pressionados pelo governo, diminuíram suas taxas.

Marcelo Torto pondera que um descolamento muito grande entre as taxas de curto e longo prazo poderia prejudicar o setor bancário, diante do alto nível de inadimplência atual, o que poderia reverter a trajetória de queda dos calotes.

Seguradoras e a Cetip também são favorecidas nesse cenário, segundo Marcelo Torto. O analista projeta que a Cetip (CTIP3), deverá se beneficiar de um maior volume negociado no mercado de renda fixa, diante da atratividade desses investimentos.

Seguradoras, como a BB Seguridade (BBSE3), Porto Seguro (PSSA3) e Sul América (SULA11) tem impacto positivo no médio/longo prazo, diante da elevação dos ganhos auferidos com os investimentos provenientes dos prêmios recebidos. Já no curto prazo, há um efeito negativo, provocado pela marcação a mercado dos seus títulos de renda fixa.


Quem perde

O segmento varejista é bastante afetado pela elevação dos juros. Marcelo Torto destaca a B2W (BTOW3), que tem grande parte de sua receita atrelada a eletrodomésticos, itens de menor margem e mais dependentes do crédito. Também pesa para a companhia seu endividamento elevado, com grande parcela atrelado ao CDI, e não a pouca probabilidade de redução da alavancagem no curto prazo, devido ao processo de expansão dos centros de distribuição.

O setor de construção civil também é impactado pela alta dos juros. A Ativa destaca possíveis perdas para as empresas do setor que possuem altos níveis de endividamento, como Gafisa (GFSA3), Brookfield (BISA3), Rossi (RSID3) e PDG (PDGR3). Com a alta dos juros, o montante de dívida destas empresas passa a ter um custo financeiro ainda maior, diante de sua vinculação ao CDI, o que pode piorar ainda mais os resultados. Uma elevação no custo financeiro da operação também faz os consumidores finais demandarem menos imóveis.

No setor, MRV (MRVE3) e Gafisa seriam menos impactadas graças às classes de menor renda, segundo Marcelo Torto. A MRV tem um perfil voltado para classes mais baixas e a Gafisa tem grande exposição a esse público por meio da Tenda.