Euforia com fundo imobiliário na bolsa não é bolha, diz CVM

Novo presidente da Comissão de Valores Mobiliários, Leonardo Gomes Pereira, assume com grande preocupação com a educação financeira e a orientação para o investidor

São Paulo – Melhorar a comunicação entre os vários agentes do mercado de capitais, e entre eles e o restante da sociedade é a grande ambição do novo presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Leonardo Gomes Pereira. Em entrevista a Angelo Pavini e Eduardo Tavares, do blog Arena do Pavini, o ex-executivo da Gol e da Net, que assumiu o cargo há seis semanas, mostra grande preocupação com a educação financeira e a orientação para o investidor, que devem ser objeto de vários programas da autarquia. Ele observa com atenção a forte procura pelos fundos imobiliários e defende maior orientação para o investidor e o próprio mercado, com a criação de uma cartilha sobre os riscos dessa aplicação, afastando o risco de uma bolha. A cartilha está sendo lançada hoje pela CVM, durante evento de orientação ao investidor.

Nova bolsa

O novo xerife do mercado diz estar aberto também à discussão sobre uma nova bolsa no Brasil. Quer também entender e acompanhar de perto o desenvolvimento dos sistemas de alta velocidade e os modelos matemáticos que hoje revolucionam os negócios em bolsa. Sobre o período de silêncio que as empresas precisam seguir, ele alerta que a limitação não pode servir de desculpa para as empresas deixarem de divulgar fatos importantes para o mercado.

Papel do RI

Mas um ponto fundamental para Pereira é o papel do diretor de relações com o investidor, o RI, que ele define como peça-chave para o contato entre a empresa e o mercado. O novo presidente da CVM pretende exigir o máximo de capacitação desses profissionais, com educação continuada e aperfeiçoamento dos canais de comunicação com o mercado. Pereira pretende cobrar o mesmo dos conselhos de administração, que também precisam se capacitar cada vez mais para cumprir seu papel diante da empresa e do mercado, evitando os erros do passado que levaram até à quebra de empresas. Para ele, conselho e o diretor de RI são os fundamentos da governança de uma empresa.

Cinco prioridades

O novo presidente da CVM elegeu cinco prioridades para seu mandato. A primeira, deixar a CVM pronta para garantir a expansão segura e sustentável do mercado de capitais. A segunda, melhorar o gerenciamento de riscos das empresas, investidores e gestoras. A terceira é adaptar as regras de contabilidade internacional, chamadas de IFRS, ao Brasil, permitindo a continuidade da globalização das empresas e do mercado. A quarta, acompanhar de perto a indústria de fundos. E a quinta, que envolve todas as anteriores, consolidar a questão da educação e da capacitação continuada dos profissionais do mercado.


Estatais e minoritários

Sobre a polêmica envolvendo a intervenção do governo nas empresas estatais negociadas em bolsa, Pereira diz que a CVM é independente para agir e até punir as empresas que estejam descumprindo as regras do mercado. E defende que as empresas públicas deixem claro ao mercado os riscos que o investidor pode ter. A seguir, a entrevista do novo presidente da CVM, Leonardo Pereira.

– O senhor tem medo de uma bolha por conta dessa onda de fundos imobiliários no mercado?

Leonardo Gomes Pereira – Não tenho, desde que essa questão da educação seja bem feita. Estamos vendo o que fazer, podemos lançar um manual sobre esse assunto (Pereira anunciou hoje pela manhã a criação do manual sobre fundos imobiários, que ficará disponível no site da CVM). Tem várias coisas que podem ser feitas. Qualquer coisa nova é muito boa e tem que ser muito bem recebida. Mas ela tem que ser também muito bem entendida por quem vende o produto e por quem o compra. Essa questão dos fundos imobiliários é um produto que vai muito para o varejo, e por isso tem que ser muito bem entendida desde os pontos básicos. A compreensão dos riscos e dos benefícios é muito importante.

– Que outras coisas são importantes para a CVM na questão do varejo?

Pereira – A CVM tem essa preocupação com o varejo e vai continuar tendo, de que suas instruções e orientações sejam cada vez mais claras e simples. Quando você vai dar alguma orientação ou parecer, tem que se esforçar para que as pessoas se entendam.

– E vocês também vão querer essa clareza das empresas?

Pereira – Sim, eu tenho falado muito isso. O mercado é um lugar com muita gente. Não é o regulador apenas que tem que ser claro. Tem que ser um esforço de todo mundo, todos têm que abraçar isso. Por isso, estamos chamando todos a refletir sobre o assunto.


– E se as pessoas não refletirem muito sobre isso?

Pereira – Estamos alertando, esse é o nosso papel antes de tudo. Depois vem a fiscalização, a supervisão. O papel do regulador é completo, é desenvolver o mercado, ter certeza de que o mercado vai crescer, se expandir, de forma segura, com todas as instituições presentes.

– Quais serão suas prioridades no comando da CVM?

Pereira – Tem cinco coisas que acho que são importantes. Uma é essa questão da CVM estar pronta para lidar com essa expansão do mercado, para que ela seja sustentável e segura. A segunda é a questão da gestão de riscos. Isso é um processo. Os negócios estão cada vez mais complexos, as pessoas estão tendo que tomar decisões cada vez mais complicadas em um espaço de tempo cada vez menor. Você nunca sabe qual será o próximo risco macro que vai aparecer, só percebe depois. É preciso ter um arcabouço de identificação de risco dentro das empresas, dos diversos agentes de mercado. É isso que vai fazer com que as pessoas fiquem treinadas para lidar com os riscos e responder de forma segura.

O terceiro ponto é a questão do IFRS (as novas normas internacionais de contabilidade). É um ponto muito importante. Os efeitos de se ter uma linguagem contábil comum são muito positivos. Com essa questão de globalização, com operações que vão além de fronteiras, ter normas contábeis comuns é essencial. Mas nós estamos ainda muito no começo, haverá uma consolidação nos próximos anos. E isso merece muita atenção, pois as IFRS abrem alguns espaços para interpretação, então, é importante que essa consolidação seja feita com muita prudência e cautela. O quarto ponto é a questão da indústria de fundos, que cresceu muito e precisa ser acompanhada com atenção.

E o quinto ponto engloba todos os anteriores, é a questão da educação e da capacitação. Todo mundo quer que o mercado cresça, mas, para isso, você precisa de capacitação. É bom ter gestão de risco, é importante, mas é necessária a capacitação. A consolidação das IFRS demanda capacitação. Lidar com uma indústria nova, como a de fundos, requer educação, para que as pessoas saibam o que estão vendendo e o que estão comprando. Um bom exemplo são os fundos imobiliários, que estão indo para o varejo.