Por que o dono do Aliexpress está perdendo suas forças

Um ano depois de registrar o maior IPO da história, as ações do Alibaba só caem e os problemas, são muitos

São Paulo – Há exatamente um ano, o fundador do gigante conglomerado de vendas online Alibaba tinha seus olhos vidrados em um dos monitores da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE). Jack Ma aplaudia euforicamente enquanto os números que via aumentavam a cada minuto.

Naquele dia, 19 de setembro de 2014, o Alibaba (que aqui no Brasil ficou famoso pelo seu site Aliexpress) realizava sua oferta inicial de ações (IPO), que captou 25 bilhões de dólares, batendo o recorde de maior IPO da história. 

“Hoje, o que conquistamos não foi dinheiro. O que conquistamos foi a confiança das pessoas”, declarou Ma após o fechamento do pregão.

Mas a euforia inicial que tomou conta do mercado naquele dia, parece muito distante agora. No último dia 08 de setembro, os papéis da empresa caíram ao menor nível já registrado e chegaram aos 60,91 dólares, bem distante dos 93,89 dólares iniciais. E até o fechamento do pregão desta sexta-feira (18), as ações da empresa acumulavam uma perda de 31% desde a abertura do capital.

Jack Ma durante o IPO do Aliexpress na NYSE (Bloomberg News/Scott Eells)

 

O que aconteceu, Alibaba?

A revista Barron’s, do grupo do The Wall Street Journal, publicou um artigo alertando que ações da empresa, em breve, podem valer apenas metade do seu valor de negociação atual, caindo para algo em torno dos 32 dólares.

A reportagem apresenta inúmeros problemas enfrentados pela empresa. Além da visível crise na China, a competição no comércio eletrônico tem aumentado e os investimentos do Alibaba em outras áreas – como mídia, entretenimento, logística e computação em nuvem – ainda não trouxeram muito retorno.

O Youku Tudou (YOKU), por exemplo, uma espécie de YouTube chinês, perdeu 140 milhões de dólares no ano passado. 

Além disso, reclamações sobre a falta de repressão do Alibaba sobre produtos piratas vendidos em seus sites são uma reclamação constante. Por conta disso, a companhia enfrenta uma ação judicial movida pelo controlador das luxuosas marcas Gucci e Yves Saint Laurent no Tribunal Distrital Federal de Nova York.

Soma-se a tudo isso, o fato de que os acionistas da empresa não tem muito poder de decisão no Alibaba. Por meio de um acordo legal, todo o fluxo de caixa e lucro da empresa deve ser repassado para o holding da empresa, o Alibaba Group. Mas cabe a Jack Ma e sua equipe selecionar quem faz parte do conselho de administração da holding.

Tudo isso para driblar o governo chinês, que proíbe estrangeiros de controlar empresas nacionais em setores considerados “sensíveis”, como a internet. Norte-americanos e outros estrangeiros detém 90% do Alibaba Group.

Números inflados?

O problema mais grave apresentado pela reportagem da Barron’s é que o Alibaba estaria “inflando” seus dados.

No último ano fiscal, terminado em junho deste ano, o Alibaba afirmou que seus sites transacionaram um valor de 409 bilhões de dólares, o que representa um crescimento anual de 55%. Já as receitas do grupo crescem, em média, 56% a cada ano. Um percentual muito maior do que o crescimento médio de Google (20%), Amazon.com (23%) e Facebook (49%).

A empresa de pesquisa chinesa, JCapital Research, que monitora de perto os números do Alibaba e do comércio eletrônico na China, concluiu que os resultados apresentados pela companhia são, no mínimo, intrigantes. 

“Os números do Alibaba chegaram a uma velocidade que não bate com os números do governo chinês sobre as vendas do varejo, os gastos dos consumidores e o comércio online”, relata Anne Stevenson-Yang, fundadora do JCapital, na reportagem.

Para se ter uma ideia, o Alibaba afirma ter 367 milhões de usuários. O número é quase igual ao total de clientes de todo comércio eletrônico do país, de acordo com dados do governo chinês.

Além disso, o Alibaba afirma que, anualmente, o valor gasto por seus consumidores equivale a 75% dos gastos anuais dos clientes de todo o comércio eletrônico dos Estados UnidosSendo que consumidores norte-americanos tem um comércio eletrônico muito mais desenvolvido. 

Após a reportagem da Barron’s, o Alibaba publicou um documento respondendo a cada uma das críticas apresentadas.

De acordo com a companhia, a matéria contém “imprecisões factuais e uso seletivo de informações, e suas conclusões são enganosas.”

Fato é que, pelo menos por enquanto, investidores não acreditam mais que o Alibaba pode ser um “negócio da China”.