Por que o dólar foi a R$ 3,85 e a Bolsa desacelerou com a tensão comercial

Ibovespa chegou a ensaiar uma recuperação após o corte da Selic, mas as novas tarifas de Trump sobre a China pioraram o humor do mercado

Após abrir agosto em alta de mais de 1%, a bolsa brasileira chegou a ensaiar uma recuperação do forte tombo da véspera, após o Banco Central reduzir a taxa básica de juros. Mal deu tempo de festejar o corte da Selic e, pela tarde, a piora das tensões comerciais no exterior jogou um balde de água fria sobre os mercados.

O principal índice de ações da B3, o Ibovespa, perdeu força nesta tarde, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar no Twitter que irá impor uma tarifa adicional de 10% sobre 300 bilhões de dólares em importações chinesas a partir de 1º de setembro. O indicador terminou o pregão subindo 0,31%, aos 102.125 pontos.

“A medida foi inesperada, uma vez que as sinalizações emitidas recentemente por ambos os países indicavam uma evolução, ainda que gradual”, escreveu a XP Investimentos em relatório.

Como a tensão chegou à bolsa

A notícia gerou temores imediatos sobre o ritmo da economia global e a demanda de petróleo no mundo, fazendo a cotação cair até 7%. Nos contratos futuros, o petróleo Brent, negociado em Londres, chegou a cair 6,15%, para 61,05 dólares por barril, enquanto o petróleo dos EUA (WTI) chegou a recuar 7,44%, para 54,22 dólares o barril.

As ações da Petrobras sofreram forte pressão vendedora com a baixa do petróleo. Os papéis preferenciais (PN) e ordinários (ON) desvalorizaram quase 2% após operarem na direção oposta mais cedo. Devido ao forte peso no Ibovespa, a queda da estatal ajudou a reduzir os ganhos do índice.

Dólar alcançou nível máximo em 1 mês

Sobre o dólar, a piora na tensão comercial entre EUA e China também pesou. A moeda dos EUA, que já ganhava força após o Federal Reserve não deixar sinais claros sobre a continuidade dos cortes de juros, passou a subir mais de 1%, alcançando o maior nível em mais de um mês. 

A moeda fechou cotada a R$ 3,84, em alta de 0,79%.

Economistas já esperavam uma volatilidade nesta sessão, mas ninguém contava com o fato de que e a guerra comercial adicionasse mais tensão ao cenário externo.

A cotação superou sua média móvel de 200 dias pela primeira vez desde meados de junho, o que é visto como um sinal técnico de mais altas. O real ficou entre as moedas que mais perdiam força nesta sessão.

Para a economista-chefe da Ourinvest, Fernanda Consorte, o cenário internacional sugere uma taxa de câmbio mais alta, mas não é algo determinante. “Se as reformas ganharem força de novo, o Brasil pode se sobressair sobre os emergentes”.

“A questão do diferencial de juros entre Brasil e EUA está impactando o câmbio e vai continuar assim”, disse à Reuters Thiago Silencio, operador de câmbio da CM Capital Markets.

Destaques do dia

A ação da empresa de meios de pagamentos CIELO disparou 15,33%, para 8,35 reais, nos minutos finais da sessão, fechando como maior alta do dia. Segundo a Broadcast, o Banco do Brasil estuda vender sua participação de 28,65% na empresa. O Bradesco, que possui uma fatia de 30,06%, teria preferência na compra.

A estatal elétrica ELETROBRAS avançou 6,9%, para 42,11 reais, definindo nova máxima histórica, após o presidente da companhia de energia elétrica, Wilson Ferreira Jr, ser convidado pelo ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, para encontro para discutir privatização com o presidente Bolsonaro, no Palácio do Planalto.

A aérea GOL avançou 6,9%, atingindo nível mais alto em mais de uma década, a 43,79 reais, após divulgar forte crescimento de receita no segundo trimestre, bem como melhorar previsão de lucro para o ano e anunciar programa de recompra de ações. O movimento também foi beneficiado por forte queda nos preços do petróleo. No setor, AZUL subiu 4,54%.

No setor de consumo, a VIA VAREJO e MAGAZINE LUIZA valorizaram-se 6,2% e 4,85%, respectivamente, em meio a expectativas de melhora no consumo, tanto via estímulos com a liberação de saques do FGTS como menor custo do dinheiro.

A produtora de alimentos JBS teve valorização de 4,8%, tendo de pano de fundo resultado de sua subsidiária Pilgrim’s Pride, nos Estados Unidos, que divulgou balanço trimestral melhor do que o esperado na noite de quarta-feira.