Por que fundos multimercado, como o Verde, têm tido desempenho tão ruim?

De 37 fundos analisados, apenas cinco superam a expectativa de inflação para 2020

A máxima “melhor errar com muitos do que acertar sozinho” ajuda a explicar por que os fundos multimercado macro têm tido um desempenho pífio em 2020. No início do ano, a maior parte dos gestores estava otimista (bull) com o “pacote Brasil”. Adotaram estratégias para lucrar com a valorização do Ibovespa, principal índice da bolsa, e com a manutenção de juros básicos nos menores patamares da história. A dúvida era o dólar — haveria arrefecimento ou não do câmbio? Antes mesmo de chegarem a uma conclusão, o coronavírus se alastrou, mudando completamente as expectativas dos agentes financeiros. O otimismo deu lugar ao pessimismo, e os gestores correram para mudar suas posições.

Mesmo assim, a maior parte dos fundos continua com resultados no vermelho. Dos 37 fundos analisados pela plataforma de investimento Vérios, a pedido da EXAME, apenas 13 estão no azul. Destes, somente cinco superam a projeção de inflação para este ano, de 3,04%, segundo o último boletim Focus. Entre os fundos que mais caíram em 2020, se destaca o Vítreo Universia que tem 926 milhões de reais em patrimônio líquido. Ele recuou 20% no ano, dos quais 19% foram sentidos em março. “Houve uma queda importante do Ibovespa depois do Carnaval e muitos gestores aproveitaram para recompor posição. O problema é que, naquele momento, não se tinha ideia de que seria necessário um isolamento social com impacto expressivo para a economia e para os mercados”, explica George Wachsmann (mais conhecido como Jojo), gestor da Vitreo. Em outras palavras, não se sabia que nos dias seguintes as ações iriam cair mais — bem mais.

Segundo Jojo, a carteira do fundo até então se dividia em: de 35% a 40% em ações, 15% em fundos imobiliários (FII) e o restante em renda fixa. Desde meados da semana passada, depois dos tombos sucessivos do Ibovespa, o portfólio passou a ser composto de: 15% de ações, 10% de FIIs, 15% em câmbio, 15% ouro e o restante de caixa. “Essa nova composição fez com que nossas cotas recuassem apenas 0,38% ante a queda de 5,22% do Ibovespa, na segunda-feira, 23.”

O fundo Verde também está entre os que mais perderam em 2020, e o motivo é que os gestores cometeram um erro grave: “começamos a comprar muito cedo”. Segundo a equipe liderada pelo gestor Luis Stuhlberger, em carta direcionada aos clientes, os mercados globais passaram por uma enorme crise de liquidez. Prova disso é que os ativos considerados seguros, como ouro e títulos americanos, caíram juntamente com ações e dívidas. 

Os fundos multimercado da gestora Verde, dentro de seus mandatos, mantêm um portfólio simples, e sistematicamente, mas com parcimônia, temos aumentado a exposição ao mercado acionário americano. Vemos ali a melhor combinação de poder de fogo fiscal e monetário com lucratividade das empresas. Também mantemos exposição a ações no Brasil e na curva de juros real, focados entre a parte intermediária e longa”, afirma na nota.

 

Fundos multimercado

Fundo PL (R$ MM) 2020*  13 dias Posição em Brasil
VITREO UNIVERSIA 926 -20% -19% Bull
VINTAGE 2.146 -17% -16% Bull
KAPITALO ZETA 1.752 -16% -11% Bull
VERDE 18.019 -15% -12% Bull
GAUSS 364 -15% -11% Bull
PAINEIRAS 557 -14% -10% Bull
MACRO CAPITAL 156 -11% -10% Bull
OPPORTUNITY TOTAL 1.772 -10% -9% Bull
XP MACRO 2.165 -10% -8% Bull
KAPITALO KAPPA 1.657 -9% -6% Bull
GARDE 3.878 -7% -5% Bull
LEGACY 11.533 -7% -7% Bull
NOVUS 861 -7% -3% Neutro
BAHIA MARAÚ 4.520 -6% -5% Neutro
KINEA CHRONOS 9.225 -5% -4% Neutro
MZK 666 -5% -5% Neutro
QUANTITAS 114 -4% -2% Bull
VÉRIOS 5 350 -3% -5% Neutro
PERSEVERA 344 -2% -1% Bull
MAUÁ 620 -2% -3% Bull
ABSOLUTE 10.896 -2% -1% Neutro
PACIFICO 1.122 -2% -2% Neutro
TRUXT 946 -1% 0% Neutro
ACE CAPITAL 298 0% 0% Neutro
QUEST 1.494 1% -3% Bull
SPX 17.477 1% 0% Bull
SAFRA GALIELO 7.062 1% 0% Bull
VINLAND 609 1% 1% Neutro
IBIUNA 3.750 3% 1% Neutro
KADIMA 456 3% 1% Neutro
JGP STRATEGY 8.033 3% 1% Neutro
CLARITAS HEDGE 180 3% 2% Neutro
NEO 640 4% 3% Neutro
ZARATHUSTRA 984 4% 0% Neutro
ADAM MACRO 8.251 5% 2% Neutro
GÁVEA 1.855 5% 3% Neutro
ITAÚ HEDGE PLUS 8.466 16% 14% Bear

*Até 17 de março

Fonte: Vérios

 

Os fundos citados na tabela historicamente ganharam muito dinheiro com o “pacote Brasil”. O problema é que a maioria perdeu o “instante decisivo” (expressão cunhada pelo fotógrafo Henri Catier-Bresson) para mudar a estratégia. “Quem conseguiu minimamente se antecipar ou estava neutro ou pessimista ficou à frente dos demais”, comenta Pedro Mota, gestor de portfólio da Vérios. É o caso do fundo do Itaú, o Itaú Hedge Plus, que, graças a seu perfil conservador, acumula alta de 16% em 2020. O “instante decisivo” deles foi o anúncio dos dados preliminares da economia brasileira em fevereiro e a intenção do Banco Central de interromper o ciclo de corte de juros.

Onde investir?

Em meio ao cenário de caos para os multimercado macro, os investidores devem se perguntar se têm capacidade para aguentar esses solavancos — sempre levando em consideração de que fundos são investimentos de longo prazo. Caso a resposta seja positiva, o ideal é montar uma carteira com diferentes subcategorias de fundos multimercado (macro e long e short, por exemplo) para diversificar riscos e equilibrar retornos. “Também é importante analisar o perfil e o mandato de cada gestor (se é mais otimista ou pessimista) na hora de fazer a escolha da carteira de fundos”, afirma Juliana Machado, especialista em fundos de investimento da casa de análise EXAME Research.

Machado sugere que os investidores analisem o comportamento dos fundos nos últimos cinco anos para entender se os gestores conseguiram se sair bem em momentos de crise. Afinal, é sempre mais fácil ganhar quando o vento sopra a favor. Mas e se a gestora tiver menos do que cinco anos de existência? Como fazer a análise? “Nesses casos, o ideal é ler as cartas dos gestores, consultar sempre as lâminas dos fundos e, se possível, conversar com a área de relações com investidores para tirar dúvidas”, afirma a especialista.

Entre as várias opções no mercado, Machado recomenda investimento nos fundos multimercado macro das gestoras Legacy Capital e na Paineiras Investimentos. “Demonstram consistência na recuperação”, diz.