Pior queda do real transforma Gol e BRF em perdedores

As companhias que compõem o Ibovespa têm US$ 353,5 bilhões em dívida em moeda estrangeira, ou 25 por cento de seu total

São Paulo – A pior queda trimestral do real em três anos está aprofundando a deterioração do cenário para empresas como Gol Linhas Aéreas Inteligentes SA e Petróleo Brasileiro SA.

As empresas brasileiras que carregam grandes dívidas em dólares, como a Gol, a BRF SA e a Natura Cosméticos SA, registrarão um aumento repentino nos custos dos empréstimos quando começarem a divulgar os resultados do terceiro trimestre no dia 14 de outubro.

As companhias que compõem o Ibovespa têm US$ 353,5 bilhões em dívida em moeda estrangeira, ou 25 por cento de seu total, acima dos 17 por cento de três anos atrás, mostram dados compilados pela Bloomberg.

Enquanto isso, exportadores como a Vale SA e a Fibria SA, que geralmente experimentam uma aceleração da demanda porque o real mais fraco torna seus produtos mais baratos para os compradores estrangeiros, verão esses benefícios diminuírem porque a moeda americana também está subindo contra aquelas de países rivais produtores de commodities, disse Álvaro Marangoni, sócio da Quadrante Investimentos.

Embora o real tenha se valorizado 2,1 por cento neste mês com as apostas de que a presidente Dilma Rousseff possa perder em sua tentativa de reeleição, sua queda de 8,6 por cento em setembro foi a maior entre as 31 moedas mais negociadas do mundo. A redução contrasta com um declínio de 6,3 por cento da moeda da Austrália, sede da concorrente da Vale, a BHP Billiton Ltd.

“O Brasil não tem muita vantagem para as exportações porque se trata do dólar tornando-se mais forte na comparação com várias outras moedas”, disse Marangoni, em entrevista por telefone, de São Paulo.

“E aqueles que precisam de produtos importados ou têm dívida em dólar terão um impacto inicial e isso pode ser algo difícil de transferir para os preços”.

Recuperação do dólar

O dólar se valorizou no trimestre que terminou em 30 de setembro em relação a todas as moedas mais negociadas do mundo, exceto o yuan chinês, devido aos sinais de que o banco central dos EUA em breve começará a elevar as taxas de juros.

O real compensou parte do terreno perdido nesta semana devido à especulação de que o candidato presidencial Aécio Neves, preferido pelos mercados, possa ganhar a eleição contra a candidata à reeleição Dilma no final deste mês.

A Fibria e a Natura preferiram não comentar o impacto do câmbio em seus lucros. A BRF e a Vale não responderam aos pedidos em busca de comentários.

A estatal Petrobras e a Gol, maior companhia aérea do Brasil, também são prejudicadas por um real mais fraco porque as importações de gasolina e combustível de aviação se tornam mais caras, disse João Pedro Brugger, que ajuda a gerenciar R$ 520 milhões (US$ 217 milhões) na Leme Investimentos.

Embraer

A Gol gasta mais em combustível de avião do que qualquer outra companhia aérea de seu tamanho nas Américas, segundo dados compilados pela Bloomberg. A Petrobras registrou mais de US$ 40 bilhões em prejuízos operacionais com refino e distribuição desde 2011, quando Dilma começou a usar a petroleira para subsidiar as importações de combustível e, assim, conter a inflação.

A Petrobras e a Gol não responderam aos pedidos de comentários enviados por e-mail.

Há alguns vencedores: empresas industriais como a fabricante de aviões Embraer SA podem se beneficiar com as oscilações cambiais, disse Luis Gustavo Pereira, analista da Guide Investimentos.

“Para uma companhia como a Embraer, o impacto da moeda sobre suas vendas acontece imediatamente”, disse Pereira, em entrevista por telefone, de São Paulo. “Diferentemente dos produtores de commodities, cujas vendas dependem dos preços internacionais, a Embraer simplesmente ganha mais reais por cada avião que vende em dólares”.

A assessoria de imprensa da Embraer preferiu não comentar.

Sem recuperação

A perspectiva para empresas com dívidas ligadas a moedas estrangeiras não irá melhorar tão cedo, já que as previsões do mercado indicam que o real continuará fraco, disse Brugger. A moeda brasileira estará em 2,40 por dólar no fim de 2014 e em 2,50 no ano que vem, segundo estimativas de economistas consultados pelo Banco Central na semana passada.

A Petrobras tem US$ 102,3 bilhões em dívida estrangeira, 72 por cento de seu total, e a Gol tem 38 por cento de seus US$ 2,45 bilhões em dívidas ligados a outras moedas em vez do real, segundo dados compilados pela Bloomberg.