PIB revisado derruba papéis de empresas no mercado de dívida

A alta reflete o receio de que a crise da dívida europeia prejudique a recuperação da maior economia da América Latina, o Brasil

Nova York – Os rendimentos dos títulos de dívida corporativa brasileira dispararam para o maior nível em cinco meses. A alta reflete o receio de que a crise da dívida europeia prejudique a recuperação da maior economia da América Latina.

O prêmio de juros que os investidores pedem para aceitar dívidas denominadas em dólar de empresas brasileiras no lugar de títulos do governo subiu 35 pontos-base, para 181, o maior desde 15 de dezembro, segundo dados do JPMorgan Chase & Co. O número é comparado ao aumento de 0,26 ponto percentual no prêmio pedido por títulos de empresas na Rússia, para 143. Na China, o rendimento extra pedido por investidores encolheu 31 pontos- base, para 357.

Especulações de que a Grécia vá deixar a zona do euro estão reduzindo a demanda por ativos de maiores rendimento e risco. Embora o governo brasileiro tente impulsionar O crescimento com medidas como estímulo ao crédito para automóveis e redução dos juros, analistas reduziram suas estimativas para o Produto Interno Bruto.

“Nós continuamos a ter ruído da Europa, então à pessoas em volta vão vender, é claro”, disse Robert Abad, que ajuda a administrar US$ 41 bilhões em ativos de mercados emergentes na Western Asset Management. “É uma questão de saber se você tem estômago para este barulho agora.”

O rendimento médio dos títulos corporativos brasileiros subiu 30 pontos-base no último mês para 6,07 por cento, de acordo com o JPMorgan. As emissões de dívida por empresas do País foram interrompidas este mês, após a quantia recorde de US$ 25,7 bilhões em títulos ofertados nos mercados internacionais nos primeiros quatro meses do ano, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

“Sair de risco”

Especulações de que a Grécia vai abandonar o euro eliminaram cerca de US$ 4 trilhões em valor de mercado das bolsas mundiais este mês.

“O sentimento de sair de risco está aqui”, disse em entrevista por telefone Marco Aurélio de Sá, diretor da Credit Agricole Securities em Miami. “É muito claro nos mercados. Todo mundo está em modo de espera para ver o que vai acontecer na Europa, especificamente na Grécia. Existe um movimento em direção a papéis soberanos e quase soberanos de classificação elevada.”

A economia brasileira vai se expandir 3,09 por cento este ano, de acordo com a estimativa mediana da pesquisa Focus do Banco Central divulgada em 21 de maio. A projeção na pesquisa da semana anterior era de 3,2 por cento. O Produto Interno Bruto cresceu 2,7 por cento em 2011.


Paulo Leme, presidente do conselho do Goldman Sachs Group Inc., afirmou durante uma conferência em 21 de maio no Rio de Janeiro que será “difícil” o Brasil superar este ano a expansão do ano passado.

“Fraqueza preferível”

O governo anunciou em 22 de maio a redução do depósito compulsório para aumentar o crédito para compra de automóveis, como parte de um pacote de estímulos para reacender o crescimento econômico. O governo também buscou enfraquecer o real para sustentar a economia. A desvalorização em relação ao dólar este ano chega a 8,7 por cento, a maior perda registrada entre as moedas importantes.

Para Omar Zeolla, analista da Oppenheimer & Co., o real mais depreciado vai ajudar as empresas locais a concorrer com os importados.

“Elas também devem se beneficiar de uma fraqueza preferível em taxas de câmbio menores em relação ao dólar, mesmo se algumas companhias forem algo afetadas pelos preços menores das commodities”, disse Zeolla em entrevista por telefone de Nova York.

O JPMorgan aconselha os investidores a diminuir o peso de títulos corporativos de mercados emergentes em suas carteiras, porque os papéis provavelmente terão desempenho inferior ao da dívida soberana de nações em desenvolvimento.

“Esperamos que os papéis corporativos de mercados emergentes tenham desempenho pior do que os papéis soberanos de mercados emergentes durante esse período de maior incerteza”, escreveu Warren Mar, chefe de pesquisa corporativa e estratégia do JPMorgan em Nova York, em relatório.