Petrobras é tratada como junk no mercado de CDS

O motivo é que a petroleira com maior alavancagem do setor está se endividando mais para financiar recorde de gasto espiral de US$ 237 bilhões

Rio de Janeiro – A Petrobras está sendo trata como junk pelos operadores de derivativos, porque a petroleira com maior alavancagem do setor está se endividando mais para financiar recorde de gasto espiral de US$ 237 bilhões.

O custo para proteger a dívida da Petrobras por 5 anos usando CDS quase dobrou neste ano para 280,11 pontos-base, o maior nível entre 20 petrolíferas integradas no mundo, segundo dados da CMA. A dívida líquida/Ebitda de 3x é a maior entre petrolíferas com valor de mercado acima de US$ 50 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg.

“Nós vemos o CDS como provavelmente o comentário mais em tempo real sobre como os credores estão vendo o risco”, diz Thomas Coleman, analista da Moody’s Investors Service, por telefone de Nova York. “Há muita pressão sobre o rating. O momentum é mais negativo agora”. Petrobras preferiu não comentar sobre o aumento de seus gastos e dívida ou sobre a percepção de risco dos investidores e seu rating.

Moody’s tem rating A3 para Petrobras com perspectiva negativa para possível rebaixamento. E Fitch disse a semana passada que os contratos indicam rating BB+, um nível abaixo do grau de investimento e 2 abaixo da nota BBB da Petrobras. A companhia, que teve ratings de grau de investimento por mais de uma década, tomará mais empréstimos para financiar US$ 47 bilhões em gastos por ano visando expandir a produção e refino. As obrigações aumentaram seis vezes desde 2007, quando a Petrobras anunciou as primeiras estimativas das suas maiores descobertas de petróleo da história, totalizando US$ 112 bilhões.

O rating implicado dos CDS da Petrobras caiu um nível em maio e provavelmente continue descendo caso os contratos sigam rondando o nível mais alto desde 2009, o último ano de contração da economia brasileira, informou a Fitch Solutions, do Fitch Group, num relatório em 20 de agosto. A unidade compila modelos de risco creditício segundo CDS e é autônoma da divisão Fitch Ratings.

Enquanto o México procura flexibilizar seu monopólio petroleiro para atrair investimentos estrangeiros, o governo brasileiro está forçando a Petrobras a operar em todos os novos projetos nas águas muito profundas da chamada camada pré-sal, onde possuirá uma participação mínima de 30 por cento por campo.


Gastos em P&D

Isso significa que além do plano atual de despesas, a Petrobras terá que investir mais R$ 120 bilhões (US$ 50 bilhões) para desenvolver a Libra, a maior descoberta de petróleo bruto deste século, conforme estimativas da ANP.

A complexidade envolvida em extrair petróleo de campos até 1,6 quilômetros sob o oceano e mais 3,2 quilômetros sob o leito do Atlântico faz com que a Petrobras também gaste mais que outras petrolíferas em pesquisa y desenvolvimento. A companhia investiu US$ 1,13 bilhão – 0,8 por cento das vendas – no ano passado, a maior taxa entre os principais produtores, segundo dados compilados pela Bloomberg. A maior produtora de petróleo bruto do mundo, segundo valor de mercado, a Exxon Mobil Corp., gastou 0,3 por cento.

A razão entre dívida total e ações da Petrobras, de 73 por cento, é a mais alta entre seus concorrentes de capital aberto, e deverá aumentar neste ano já que a companhia usa seu caixa para financiar investimentos, disse o diretor financeiro Almir Barbassa em uma teleconferência. no dia 12 de agosto. Barbassa acrescentou que a impossibilidade de aumentar o preço dos combustíveis pela terceira vez neste ano poderia piorar a alavancagem da companhia.

Leilão da libra

A Libra, primeiro projeto petrolífero do Brasil na camada pré-sal com um modelo de lucros compartilhados com vencedores de leilão, será licitada em outubro. A lei que obriga a Petrobras a ser operadora do campo implica que terá que pagar pelo menos R$ 4,5 bilhões pela licença, segundo os termos do leilão.

“Os detentores desses bônus – como seguradoras e fundos de pensões – os compraram há alguns anos, quando achavam que o Brasil estava indo muito bem”, disse Fabiano Santin, analista de renda fixa na Kondor Invest, em entrevista por telefone de São Paulo. “De repente, as pessoas começam a pensar ‘talvez não seja tão bom ter esse tipo de risco no meu portfólio’. As coisas estão piorando”.