Perda da Eletrobras na bolsa chega a 70%

Papéis são negociados muito abaixo do valor patrimonial

São Paulo – Algumas empresas, em momentos críticos, são negociadas na bolsa a um preço tão deprimido que ficam abaixo do valor patrimonial. Ou seja, elas precificam um valor para a companhia que é menor do que o dos ativos possuídos por ela e, portanto, também não embutem as projeções futuras no valor. O caso recente da Eletrobras é emblemático.

As ações (ELET3; ELET6) negociavam, com dados de quarta-feira, a 0,1 vez o valor patrimonial. É verdade que isso não é uma exclusividade da estatal. Outras também operam abaixo do patrimônio, como a Gafisa a 0,7 vez e a PDG a 0,5 vez. Além disso, em junho, antes de toda a polêmica sobre a renovação das concessões, a estatal negociava a 0,3 vez. Era pouco e já refletia o fato de possuir indicadores de eficiência inferiores aos do setor e o controle estatal.

Mas outro indicador de valor também chama atenção: o preço da ação sobre o lucro (P/L). Enquanto em junho os papéis preferenciais operavam a 6,5 vezes o resultado de 2011, ontem essa relação era de 2,1 vezes. E a situação, já incrivelmente péssima, pode piorar ainda mais.

O nível ainda não pode ser considerado o fundo do poço, segundo alguns analistas. Para o Barclays e a Planner, sem a geração de caixa no ano que vem, os papéis devem continuar a cair. O preço-alvo do Barclays é de 1 real.

Os ativos caem mais uma vez nesta quinta-feira e, no ano, a queda acumulada já chega a 70%. Na mínima do dia, as ações preferenciais recuavam 10% e as ordinárias 9,7%, para 7,05 reais e 6,09 reais, respectivamente.

Incertezas

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, disse hoje que o governo não deixará a Eletrobras falir. “A Eletrobras é necessária e o governo não vai deixar ela perecer. Consideramos ela uma empresa importante. Sem dúvida alguma, o governo conta com a Eletrobras”, explicou. 


Sem a perspectiva de dividendos por conta da esperada contenção de custos, os 13 mil acionistas minoritários que tinham as ações da estatal de acordo com dados de maio, estão sem esperanças.

A Eletrobras irá precisar de um aumento de capital para não “perecer”. O dinheiro, contudo, sairá provavelmente da União. Ou seja, todos os contribuintes do país irão pagar a conta da esperada redução média de 20% tarifa energética que a Medida Provisória 579 espera conseguir.

Segundo o documento, cada empresa do setor precisa manifestar a intenção de adotar as novas regras com preços mais baixos para garantir a renovação e receber uma indenização. A outra saída é indicar a manutenção das condições atuais até o final da concessão. Aí, porém, não terá a renovação garantida.

O problema é que a indenização proposta pelo governo federal ficou aquém das expectativas. Enquanto o mercado aguardava algo em torno de 30 bilhões de reais para a Eletrobras, o valor a ser pago será de 13,9 bilhões de reais.

A companhia divulgou na sexta-feira um estudo sobre os impactos da nova realidade. As perdas esperadas em receitas chegam a 8,7 bilhões de reais, além de uma baixa contábil de ativos de aproximadamente 17 bilhões de reais.

A empresa convocou os acionistas para deliberar sobre o assunto no próximo dia 3 de dezembro, um dia antes da data final de apresentação das propostas para o governo. Não há expectativa de um resultado diferente.