Os investidores nem sempre são racionais

Quem não trabalha com finanças acredita que os profissionais do mercado são capazes de tomar muitas decisões e ganhar muito dinheiro, sempre de forma fundamentada e racional. A realidade, porém, é bem diferente

Em um experimento que se tornou um clássico, os psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman, este último ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2002, propõem o seguinte dilema a dois grupos de participantes: eles estão diante da explosão de uma epidemia que pode matar 600 pessoas e deverão escolher entre os possíveis planos de combate à tragédia. Ao primeiro grupo são propostos os planos A e B. No plano A, 200 pessoas serão salvas. No plano B há um terço de probabilidade de que as 600 pessoas serão salvas e dois terços de que ninguém será salvo. Neste caso, 72% dos participantes preferiram o programa A. Ao segundo grupo de participantes são apresentados os planos C e D. No plano C, 400 pessoas morrerão e no plano D há um terço de probabilidade de que ninguém morrerá e dois terços de probabilidade de que os 600 morrerão. Nesta abordagem, 78% dos participantes escolheu o plano D. O curioso do experimento é que as alternativas A e C são idênticas, assim como as alternativas B e D. No entanto, bastou mudar a forma como o problema é apresentado para que as pessoas fizessem escolhas opostas.

Os mesmos pesquisadores mostraram os resultados de outro experimento num artigo de 1974. Nele, os participantes deveriam dar um palpite quanto ao percentual de países do continente africano pertencentes à ONU. Para cada grupo, uma espécie de roda da fortuna foi girada e um número entre zero e 100 foi escolhido aleatoriamente. Os participantes do experimento deveriam responder a duas perguntas. Primeiro, deveriam dizer se o percentual era superior ou inferior ao número sorteado. Em seguida, deveriam dizer qual era efetivamente o seu palpite para o percentual de países africanos pertencentes a ONU. No grupo de pessoas em que o número da roda da fortuna foi 65, as pessoas responderam que o percentual de países era inferior a 65%. Quando perguntados qual o percentual estimado, a maioria respondeu 45%. Já no grupo em que o número da roda da fortuna foi dez, as pessoas julgaram que a resposta era superior a 10% e estimaram que 25% dos países africanos pertenciam a ONU. Ou seja, as pessoas formularam uma resposta influenciadas por um dado absolutamente aleatório. Parece racional?

Muito da teoria tradicional de finanças está baseada na premissa de que os agentes econômicos atuam sempre de forma racional – a chamada Hipótese dos Mercados Eficientes. Num mercado assim, qualquer distorção de preços não passa de um evento momentâneo dado que os agentes tendem a perceber a oportunidade de ganhos e perdas e farão a distorção desaparecer. É curioso que as pessoas que não trabalham diretamente com finanças tendem a acreditar que os profissionais do mercado financeiro são capazes de absorver grande quantidade de informações, tomar muitas decisões e ganhar muito dinheiro, sempre de forma bem fundamentada e, principalmente, racional. A realidade, porém, é diferente. Evidências empíricas indicam que as teorias baseadas na suposição de racionalidade dos indivíduos não são capazes de explicar de forma satisfatória muitos fenômenos.

Finanças comportamentais – ou Behavioral Finance – é o termo utilizado para definir um novo enfoque que procura rever as teorias tradicionais considerando que o comportamento dos agentes econômicos nem sempre é racional. A partir de uma série de experimentos controlados, foi possível observar que, quando o ser humano precisa tomar decisões em situações de incerteza, envolvendo, por exemplo, a avaliação de probabilidades, ele costuma utilizar mecanismos mentais de simplificação. Esses mecanismos, que geralmente são úteis, às vezes nos levam a tomar decisões viesadas, longe dos parâmetros de racionalidade utilizados teoricamente.

O que se pôde observar em diversos experimentos é que, quando colocadas diante de uma situação que envolve um ganho certo, as pessoas são avessas a risco e estão dispostas a abrir mão da possibilidade de um lucro maior, desde que garantam o ganho certo. No entanto, quando colocadas diante da possibilidade de uma perda certa, as pessoas tendem a estar dispostas a correr o risco de perder mais, desde que essa escolha inclua a possibilidade de que a perda seja reduzida a zero. Reformulando, as pessoas se mostram avessas ao risco em situações de ganho e propensas ao risco em situações de possível perda. Em um contexto de agentes racionais, porém, um mesmo problema jamais teria duas respostas diferentes independentemente do enunciado. Isso é conhecido como “desvio da razão”. A tendência das pessoas de se basearem em dados iniciais, mesmo que não guardem nenhuma relação com o problema que precisam resolver, também é um desvio da razão.

Todo ser humano possui limitações cognitivas e está sujeito à falhas. Mas o trabalho de muitos pesquisadores – e em especial de Tversky e Kahneman – mostra que essas inconsistências do ser humano geram padrões de comportamento que podemos compreender. Por isso, mesmo que não seja possível ser racional sempre, o bom conhecimento do tema nos permite melhorar nosso desempenho no desafio diário de tomar decisões.

Elsen Carvalho é sócio-diretor da gestora de recursos Investidor Profissional