Oferta da Celpa envolve prejuízo maior que na Grécia

O plano de reestruturação da empresa causará mais perdas a investidores do que as trocas de dívida grega e argentina

Nova York/Brasília – Os títulos em default da Centrais Elétricas do Para SA estão despencando para a mínima histórica após a companhia divulgar plano de reestruturação que, segundo analistas, causará mais perdas a investidores do que as trocas de dívida grega e argentina.

O preço dos títulos da Celpa para 2016 recuou 9,7 centavos de dólar ontem, para 35,3 por cento do valor de face, segundo dados compilados pela Bloomberg. A BCP Securities estima que a proposta anunciada pela Celpa em 4 de maio pode levar à recuperação de apenas 20 centavos por dólar para investidores. A Grécia pagou 31,5 centavos por euro na reestruturação de sua dívida em março, enquanto o swap de dívida argentina em 2005 pagou 30 centavos por dólar.

Após a companhia inesperadamente entrar com pedido de recuperação judicial em fevereiro, gerando o primeiro calote desde 2010, agora a oferta da Celpa ameaça aumentar ainda mais as perdas de investidores. Segundo Alfredo Viegas, diretor- gerente de mercados emergentes da Knight Capital, os investidores da Celpa devem rejeitar a proposta.

“Os credores vão relutar”, disse Viegas, que estima que a proposta da Celpa tem valor de 27 centavos de dólar, em entrevista por telefone de Greenwich, no estado americano de Connecticut. “O primeiro tiro de advertência não parece assim tão interessante. Se eu fosse credor, jogaria duro.”

O papel caiu 54 centavos de dólar em 28 de fevereiro, um dia após o pedido de concordata, motivado pelo congelamento nas tarifas de energia, que afetou seus lucros e elevou sua dívida.

A reestruturação da Celpa envolve a redução de 40 por cento no valor principal de US$ 250 milhões em títulos, um período de carência de cinco anos para o pagamento de juros e um novo título com vencimento em 2027 que paga taxa anualizada de 3 por cento.

“Pensamento imaginário”

O plano também inclui a venda de R$ 650 milhões em debêntures conversíveis com vencimento em 2027, a obtenção de pelo menos R$ 200 milhões em linhas de crédito e a aprovação de um aumento de 10,33 por cento em suas tarifas pela Agência Nacional de Energia Elétrica.

Uma assessoria de imprensa externa contratada pela Celpa se recusou a fazer comentários para esta reportagem. Porta-vozes da Aneel e do Ministério de Minas e Energia também se recusaram a comentar.

“Esse plano de recuperação não será aprovado”, disse Jansen Moura, analista de dívida corporativa da BCP Securities no Rio de Janeiro, em entrevista por telefone. “É um pensamento imaginário.”


O Bingham McCutchen LLP, escritório de advocacia que aconselha um grupo ad hoc de detentores de títulos da Celpa, se recusou a comentar.

“Mesmo aceitável”

O calote da Celpa levou a controladora Rede Energia SA a anunciar em 2 de abril que vai buscar a renegociação dos termos de seus bônus perpétuos em dólar, no total de US$ 497 milhões. O preço dos títulos caiu 2,7 centavos de dólar ontem para 45 por cento do valor de face, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Para Marco Aurelio de Sá, diretor do Crédit Agricole SA, a Celpa pode convencer os credores estrangeiros a aceitar uma redução do principal e a estender prazos se aumentar a oferta.

“Para tornar isso atraente ou mesmo aceitável para os detentores dos títulos, eles teriam de aumentar o cupom”, disse Sá em entrevista por telefone de Miami. “No fim das contas, é preciso lembrar que se trata de uma empresa de serviço público – – que eu duvido que o governo deixará afundar.”

A Centrais Elétricas Brasileiras SA, estatal conhecida como Eletrobras, é dona de aproximadamente 35 por cento da Celpa, enquanto a Rede Energia tem cerca de 65 por cento, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

“A Eletrobras, sendo acionista e credora, está preocupada em manter o valor de seus ativos”, disse a assessoria de imprensa da companhia em e-mail enviado em resposta a perguntas da reportagem.

O diretor financeiro da Eletrobras, Armando Casado de Araújo, disse em 19 de abril que a empresa não vai resgatar a Celpa.

“O ponto essencial nessa grande bagunça é, em última instância, quem sobrará como dono da empresa”, disse Viegas, da Knight Capital. “Será a Eletrobras ou alguma empresa estatal? Se sim, então daria para obter uma recuperação próxima da faixa de 30 a 40 por cento do valor de face.”