O que esperar de Trump, dos mercados e do Brasil no 1º semestre

Na avaliação de um ex-diretor do Banco Central, o primeiro semestre deverá ser bastante agitado tanto no campo político quanto no campo econômico

O primeiro semestre deve ser bastante animado nos mercados financeiros tanto pelo cenário externo quanto pelo interno, diz um ex-diretor do Banco Central (BC), hoje gestor, que pediu para não ter seu nome citado.

Lá fora, Donald Trump tomou posse na Presidência dos Estados Unidos e vai dizer a que veio. Será possível saber se será o “good Trump” ou o “bad Trump” que governará, sancionando ou não as expectativas criadas logo após a eleição, e que fizeram as bolsas americanas dispararem com a aposta de mais incentivos e cortes de impostos para empresas locais.

Trump é de fora do “establishment” político americano e faz questão de mostrar isso, o que leva os políticos tradicionais e a imprensa a reagir, criando divisões até dentro da própria equipe de governo. A incerteza é sobre quais elementos da agenda populista de Trump serão realmente levados adiante.

Corte de impostos

É possível, porém, já avaliar alguns impactos das propostas do futuro presidente. Os primeiros, com relação às propostas fiscais. Qualquer componente de redução de impostos, como a sugestão de reduzir os impostos das empresas, de repatriação de recursos com taxas especiais ou de diminuiu a taxação sobre fortunas ou sobre dividendos vai representar redução líquida na arrecadação do governo. Ou isso será compensado com cortes em outras áreas ou com uma realocação de tributos. Ou seja, ou o governo reduz a carga tributária ou joga a conta para outros setores, o que já cria a primeira incerteza.

Mais gastos

Outro ponto é o gasto fiscal. Já está previsto um aumento de gastos grande com o setor de defesa, e promessas de investimentos em infraestrutura. A expectativa é que esses gastos sejam compensados por uma redução nos programas sociais, como o de saúde, com o fim do ObamaCare, criado por Barack Obama. Haverá portanto uma combinação de redução de arrecadação com aumento de gastos que pode ser compensado com cortes em algumas áreas.

Menor regulação de setores

O segundo elemento a ser acompanhado é a parte regulatória, que abrange três setores importantes. O primeiro é o setor financeiro, que pode ganhar mais liberdade. O governo Obama elevou a regulação e reduziu a capacidade do setor financeiro de alavancar o crescimento, com o objetivo de impedir que se repetissem os abusos do subprime do mercado imobiliário que levaram à crise de 2008. Mas muitos acham que a regulação passou da conta, o que justificaria algumas mudanças afrouxando as regras. Essa expectativa fez os papéis dos bancos subirem bastante nas bolsas após a eleição. Mas a falta de mais indicações dessas reformas nas últimas semanas, porem, fez o setor financeiro recuar neste mês.

Outra questão diz respeito à regulação ambiental, na qual Trump prometeu voltar atrás para reduzir o custo das empresas e permitir o crescimento de setores mais poluentes ou menos sustentáveis. A discussão, porém, promete ir além do aspecto econômico, tendo em vista os impactos das mudanças no meio ambiente. E há também a proposta de dar incentivos ao setor farmacêutico.

Protecionismo

E o terceiro elemento a acompanhar com Trump é o protecionismo. A proposta de taxar em 5% todos os bens importados nos EUA teria impactos na inflação e até na competitividade do país. E países com comércio maior com os EUA terão suas moedas desvalorizadas, como já ocorreu com o México, o Canadá, a Coreia do Sul e a China. O impacto, porém, vai depender da forma e da velocidade de adoção dessas mudanças.

Benefício da dúvida

O mercado já sabe de todos esses riscos, mas preferiu dar o benefício da dúvida para o republicano, vendo o copo meio cheio, com a perspectiva de que a economia americana vai crescer mais, as empresas americanas vão ganhar produtividade e a bolsa subiu. “Mas tem muita coisa no ar que precisa dar certo”, avalia o ex-diretor. Ontem, o bilionário George Soros previu que o otimismo das bolsas com Trump vai passar em breve, dando lugar a muita incerteza.

Relação de Trump com o Fed

Há ainda um quarto ponto, que é como será a relação de Trump com o Federal Reserve, Fed, o banco central americano. O futuro presidente já criticou a presidente do Fed, Janet Yellen, e pode fazer duas indicações para a diretoria do banco central que seu antecessor Obama não conseguiu aprovar no Congresso, de maioria republicana.

Trump deve indicar os dois nomes, pois tem maioria no Congresso e, assim, abrir caminho para não renovar o mandato de Yellen, que termina em 2018. O substituto de Yellen provavelmente será um dos dois indicados por Trump, o que também mudará a composição do “board” do Fed e, com isso, a sua forma de atuar.

Fed deve mudar atuação e agir mais rápido

Essa mudança na atuação do Fed ocorrerá por dois motivos. O primeiro, a mudança na parte fiscal americana, que leva a uma piora na perspectiva da inflação a partir do gasto maior do governo.

A piora na expectativa de inflação pelo lado fiscal muda a estratégia do Fed, que ia fazer um controle gradual dos preços via alta lenta dos juros. Agora, o Fed pode ter ficado “atrás da curva”, ou seja, atrasado para subir os juros diante da perspectiva de alta da inflação. Com isso, o Fed terá de agir mais depressa para compensar a mudança.

O segundo motivo é a própria Janet Yellen, que pensava que teria cinco anos para controlar inflação caso o novo presidente fosse a democrata Hillary Clinton, que não mexeria muito na parte fiscal. Mesmo ficando atrás da curva agora, Yellen poderia corrigir nos próximos quatro anos se seu mandato fosse renovado. Sem essa perspectiva, o mais provável é que ela tente fazer o ajuste em um ano.

“Ela não vai passar o bastão do Fed sem deixar claro que fez tudo o que devia fazer, e a mudança fiscal cria incentivo para Yellen ser mais agressiva este ano”, diz o ex-BC.

Isso já fez a presidente do BC mudar de tom em seus discursos, indicando maiores altas dos juros e preocupação com inflação e atividade. “Mudou o incentivo e o ambiente, então a reação tem de ser mais dura”, diz o ex-BC.

Assim, além do que Trump vai fazer, será preciso antecipar qual será a reação do Fed. Essa será a grande discussão nos próximos meses, com muitas informações sobre quem realmente é o Trump presidente, sobre o que vai acontecer com a economia americana e se os mercados exageraram no otimismo.

Juros americanos em alta

O primeiro reflexo é a curva de juros americana, cujas taxas mais longas subiram, apostando que algum estímulo fiscal haverá e impactará a economia, que já anda de maneira robusta. E como o Fed já está trazendo os juros para um nível “normal”, cria-se um diferencial entre os países desenvolvidos, já que Europa e Japão estão com taxas de juros negativas. O resultado é a valorização do dólar, que deve ser forte neste primeiro semestre.

A grande incerteza é se o resultado dessa alta dos juros será benéfico para as bolsas ou vai derrubá-las. A perspectiva de juros indica uma economia mais aquecida, um PIB nominal mais alto e inflação mais alta, levando a um aumento do faturamento das empresas, o que é bom para as bolsas. Mas é uma hipótese. Outra é que o aquecimento apenas crie mais inflação do que crescimento econômico.

Ventos piores para o Brasil no exterior

Esse ambiente de incerteza deve dominar o cenário externo no primeiro semestre. Para o Brasil, os ventos do exterior estão mudando. Eles eram favoráveis, ajudavam o investidor externo a ter complacência com o Brasil, dando tempo para o presidente Michel Temer avançar em suas reformas. Mas com o vento mudando, o cenário externo deve se expressar mais pela taxa de câmbio, que vai ser o veículo de transmissão dos problemas internacionais para a economia brasileira.

Se houver alta muito forte dos juros americanos ou aversão maior ao risco, haverá maior pressão na moeda brasileira e o dólar subirá, puxando os preços e a inflação. Portanto, o dólar deve ser mais volátil e o real mais depreciado que no ambiente externo anterior. O dólar mais alto pode criar mais incerteza, mas pode ser ajudar nas exportações brasileiras, apesar de um dólar alto limitar os investimentos em máquinas importadas.

Cenário político será principal fator interno

Mas a grande briga no cenário interno vai ser politica, ligada com a retomada da economia ou não, diz o ex-diretor do BC. Mesmo que BC corte mais os juros este ano, a taxa de desemprego, que é um indicador atrasado do ciclo econômico, vai continuar subindo, mesmo que a economia comece a se recuperar. O pico do desemprego deve ocorre entre março e abril.

E mesmo que o BC acelere a redução da taxa de juros, vai levar tempo para a economia reagir. E há ainda todo o elemento político da Operação Lava Jato. Tudo isso com o governo precisando aprovar a reforma da Previdência e outras reformas no Congresso.

“Há uma convergência de fatores, de conjuntura externa desfavorável, os primeiros 100 dias do governo Trump com ambiente econômico local ruim, desemprego em alta, escândalo da Lava Jato, tudo coincidindo com o pós-carnaval”, diz o ex-diretor.

Fatores positivos

Mas há também fatores positivos que devem impedir o Brasil de explodir. A queda significativa da inflação, por exemplo, é positiva para quem está empregado, que é a maioria da população.

Isso deve aumentar a sensação de bem-estar dessa parte da sociedade. E o juro vai continuar caindo, também trazendo alívio para os endividados.

E, na agenda do que precisa ser feito pela equipe econômica, que significa mudar a trajetória explosiva de crescimento da dívida, reduzindo o gasto público, o governo está conseguindo avançar, revendo também as intervenções desastradas do governo anterior em determinados setores como energia, na Petrobras, na educação. “Aos poucos estamos revertendo os estragos deixados pelo legado Dilma”, diz o ex-BC.

Setor externo equilibrado

Olhando para frente, se há algo positivo, é o fato de o país estar enfrentado seus problemas, inclusive o dos Estados e municípios, e com setor externo ajustado. O déficit de contas correntes deve ser de 1% de PIB, facilmente financiável com o investimento externo direto. “Inflação baixa, juro menor, setor externo ajustado e politica econômica mais consistente, dando sinais corretos, criam o alento que o país está avançando para fazer a travessia”, diz o ex-diretor do BC.

Águas de março

O resumo é que este ano será desafiador, com ventos contrários no exterior e no Brasil, mas com um país mais preparado para enfrentar as dificuldades do que há três anos. “Se Temer passar fase mais aguda de março, o ambiente deve ficar bom” diz o ex-BC.

Bolsa, aguardando a retomada

Nos investimentos, o ex-diretor do BC diz que o ambiente será desafiador para bolsa. “Ela vai performar apenas quando o fim da recessão ficar óbvio”, afirma. Ele lembra que, quando houve a troca de Dilma por Temer e a confiança melhorou, todos acharam que a economia ia andar e a bolsa subiu. Mas os sinais de que a retomada ainda vai demorar derrubaram o mercado. “A bolsa vai voltar a ficar boa quando houver confiança de que a economia passou o fundo do poço, e até março, o mercado deve sofrer, por isso o ideal é o investidor ter uma posição mais defensiva.”

Juros altos no CDI no curto prazo

Na renda fixa, o BC deve continuar com queda dos juros, mas o CDI para 6 a 9 meses ainda é bom negócio pela taxa ainda alta. O custo de ficar em aplicações defensivas, como fundos DI, é, portanto, baixo. E dólar, pela apreciação do real no fim do ano e no começo deste, indica que ficar comprado não é mau negócio. Mas o investidor tem de ser atento e rápido no primeiro semestre. Se Trump for bem e Temer se segurar, o Brasil tem espaço para avançar bastante. “Este é um período para ser mais cauteloso, defensivo, mas com cabeça para virar mais agressivo”, diz.

Este conteúdo foi originalmente publicado no blog Arena do Pavini.