O (positivo) impacto dos juros na bolsa

Letícia Toledo 

Um fenômeno observado em países desenvolvidos deve chegar ao Brasil nos próximos meses – a saída de investimentos em renda fixa para a renda variável. O maior exemplo pode ser visto nos Estados Unidos, onde os juros baixos levaram as principais bolsas do país a alcançarem patamares recordes ao longo deste ano. No Brasil, ainda vivemos às voltas com juros de 14%. Mas a queda de 0,25 ponto anunciada pelo Banco Central na última quarta-feira, e que deve ganhar força nos próximos meses, deve provocar um fenômeno semelhante. Ou seja: investidores tendem a ir à bolsa em busca de maiores rendimentos.

É um movimento que já se observou em outras oportunidades. Um estudo do Bank of America Merrill Lynch revela que durante os últimos seis ciclos de queda de juros no Brasil desde 2000, o Ibovespa subiu em média 32%.

Se os 32% se concretizarem desta vez, o Ibovespa poderia sair dos 64.000 pontos atuais para um patamar acima dos 83.000 pontos ao fim do ciclo de queda (o boletim Focus prevê juros de 11% para o fim de 2017). O maior patamar histórico foi em maio de 2008 – 72.500. Especialistas consultados por EXAME Hoje acreditam que o ciclo de alta na bolsa visto em outras oportunidades tem tudo para voltar a acontecer. Isso mesmo com a alta de 48% que o Ibovespa já teve este ano. “Ano que vem devemos ver a bolsa acima dos 80.000 pontos”, afirma Eduardo Moreira, sócio do banco Brasil Plural e colunista de EXAME Hoje.

O impacto da queda nos juros, evidentemente, não pode ser analisado isoladamente. Embora teoria para sustentar uma correlação entre juros e bolsa não falte. Juros (e inflação) menores melhoram o fluxo de caixa descontado das companhias e, consequentemente, aumentam seu valor de mercado. Quando isso se soma a um pacote de reformas como o que está em pauta no Congresso, as perspectivas de crescimento no Ibovespa são ainda maiores.

Um dos primeiros setores a se beneficiar de uma queda seria o financeiro. Segundo relatório da agência de classificação de risco Moody’s, o corte da taxa beneficia os bancos porque os custos de captação dessas instituições caem mais rapidamente do que as taxas de juros oferecidas aos clientes em operações de crédito. Com isso, a margem líquida de juros durante o ciclo de corte de juros deve crescer. “Juros menores vão ajudar a reduzir custos de ‘funding’, melhorar a qualidade de ativos e apoiar o crescimento do crédito para os bancos brasileiros”, afirmam os analistas da Moody’s.

A concessão de mais empréstimos, por sua vez, pode beneficiar as construtoras – isso tanto para a tomada de novos empréstimos para concluir empreendimentos, quanto para que mais clientes consigam financiar imóveis. A melhora do crédito para o consumidor também deve ajudar o varejo de eletroeletrônicos e eletrodomésticos a sair do buraco.

Empresas de serviços públicos, como de energia e saneamento, também são beneficiadas. O motivo principal é que as regras de concessões obrigam essas companhias a pegarem novos empréstimos para fazer investimentos.

A queda também pode aliviar o alto endividamento das companhias brasileiras – elas têm mais de 400 bilhões de reais em renegociação. Um setor em especial que sofre com dívidas altas é o de shoppings centers. Analistas do banco BTG Pactual ressaltam que, neste setor, a principal beneficiada é a BR Malls, que hoje tem uma dívida de 4,5 bilhões de reais – quase 5 vezes a sua geração de caixa. “O lucro da BR Malls aumentaria em 10% a cada 100 pontos-base de corte na Selic”, afirmam.

“O juro alto hoje não é uma causa da crise, é uma consequência. Não basta apenas derrubar os juros, é preciso aprovar medidas fiscais, como a PEC do Teto, e reformas mais amplas, como a da previdência”, afirma Raphael Figueredo, analista da corretora Clear. O risco, claro, é que as reformas não saiam do papel. Neste caso, mesmo com menos juros, a bolsa em 80.000 pontos deve ficar apenas no campo das ideias.