O Buffett chinês chega ao Brasil

Giuliana Napolitano e Thiago Lavado

Parece o típico caso de empreendedor americano bem sucedido, mas a história de Guo Guangchang se passa numa realidade cultural, política, social e econômica bastante diferente. Há quase 25 anos, ele e outros dois estudantes da Universidade Fudan, umas das mais tradicionais da China, em Xangai, abriram uma pequena empresa de investimentos.

Duas décadas depois (e com um punhado de ótimos contatos com o governo no caminho), sua empresa, a Fosun Investimentos, vale 11,2 bilhões de dólares na bolsa, e é a maior e mais voraz empresa de investimentos do país. Aos 49 anos, Guangchang é dono de uma fortuna avaliada em 7,3 bilhões de dólares, a 19a maior da China. Seu império empresarial tem negócios tão diversos quanto a rede de resorts Club Med, o Cirque du Soleil, o time de futebol da segunda divisão do campeonato inglês Wolverhampton Wanderers.

“Quando penso em investir em alguma companhia, eu não olho para a variação das ações no curto prazo. Eu sinto que o desempenho de longo prazo é um fator mais importante”, disse Guanchang ao Financial Times.

No último sábado 30, as pretensões de Guangchang e seu grupo atravessaram o mundo e desembarcaram por aqui, onde a Fosun adquiriu 50,1% dos ativos da Rio Bravo investimentos. É a primeira vez que a Fosun compra um grupo de investimentos na América Latina e mais um passo de sua expansão internacional — em 2014 eles compraram a Idera Capitais, no Japão; em 2015, compraram a Resolution no Reino Unido e abriram um escritório na Rússia.

Segundo Mario Fleck, presidente da Rio Bravo, o objetivo é que a empresa seja um braço de investimentos da Fosun na América Latina, usando a experiência local e a capilaridade do grupo para avaliar o melhor momento de investir e fazer uma ponte com o mercado chinês. “No passado, houve uma onda de investimentos estrangeiros que não deu certo por má avaliação do momento e das oportunidades”, diz Fleck. A Rio Bravo vai ser importante para que a Fosun escolha os melhores alvos”.

Em uma entrevista conduzida quase que totalmente em chinês, na manhã desta terça-feira na sede da Rio Bravo, em São Paulo, Guo Guangchang falou de suas pretensões e também de seu modelo de investimentos. Comparado por diversas vezes ao magnata americano Warren Buffett, dono da companhia de investimentos Berkshire Hathaway e de uma fortuna avaliada em mais de 63 bilhões de dólares, Guo fez ressalvas quanto ao modelo de atuação dos dois. “A diferença é que a Fuson investe no mundo inteiro, aproveitando o bom momento econômico da China, incentivando setores que promovem o progresso, como turismo, saúde, educação”, afirma.

Guo utilizou a famosa frase de Buffett — “seja temeroso quando os outros são gananciosos e ganancioso quando os outros são temerosos” — para explicar o porquê de investir no Brasil em um momento tão complicado política e economicamente. “É hora de deixar o medo de lado e investir no Brasil. Antes de eu vir pra cá, eu ouvia coisas horríveis sobre o Brasil. Mas quando vim, achei ótimo. Não se pode tomar decisões só lendo os relatórios, é preciso estar presente para avaliar o risco real e o risco percebido. Estamos há anos analisando o país e acreditamos que este é o melhor momento”, disse Guo, que acredita que a economia começa a dar sinais de vida e que há boas oportunidades a se prospectar por aqui.

O empresário que sumiu

A história da Fosun começou em 1992, quando o capitalismo dava os primeiros passos na China comunista e muitos estudantes preferiam ir para outros países trabalhar com capital privado. Guo Guangchang, à época recém graduado em filosofia, decidiu ficar em casa.

Com 100.000 yuans (que, na época, valiam cerca de 18.000 dólares), alguns investimentos próprios e uma ajuda da Universidade Fudan, ele abriu junto com dois amigos – o estudante de genética, Liang Xinjun, e a estudante de ciência da computação, Tan Jian – uma consultoria em tecnologia, chamada Guangxin, para dar auxílio a companhias estrangeiras que quisessem entrar no mercado chinês.

Os negócios evoluíram rápido, bem como o relacionamento entre Guangchang e Tan, que acabaram se casando. A participação de Tan foi importante para a transição entre a Guangxin e a Fosun, principalmente na relação com oficiais do governo chinês — seu pai é um acadêmico respeitado na China, o que lhes rendeu contatos no governo e na indústria farmacêutica, até hoje um dos principais braços de investimento do grupo. O grupo Fosun se tornou uma das maiores companhias da China, operando negócios que vão desde a fabricação de medicamentos e construção de propriedades até o varejo e mineração.

Filho de uma família de fazendeiros pobres da província de Chekiang, perto de Xangai, Guangchang sempre foi bastante reservado, tanto na vida particular quanto empresarial. Mas começou a aparecer com frequência nas colunas sociais chinesas quando se separou de Tan e casou com uma conhecida apresentadora de TV de Xangai, Wang Jin Yuan.

Guangchang afirma que seu objetivo é construir uma versão chinesa do conglomerado americano General Electric. Quem trabalha perto do empresário afirma que ele tem uma postura franca em suas opiniões e vontades fortes. Ele também valoriza a Universidade Fudan e o suporte que foi dado para o início de seu empreendimento, fato que se reflete na presença massiva de graduados da instituição na Fosun.

No ano passado, o empresário ganhou as manchetes em sites de notícias mundo afora por um motivo inusitado: ele desapareceu por quatro dias em dezembro. Nesse período, as ações da Fosun e de algumas subsidiárias, como a Fosun Farmacêutica e a Nanjiang Ferro e Metal, foram suspensas na bolsa de Xangai. A companhia divulgou um comunicado afirmando que Guangchang havia sido chamado pela polícia chinesa para cooperar em uma investigação sobre corrupção, que na China é um crime punível com a morte, mas que o empresário não era suspeito. Vai saber. É só mais um mistério do Buffett chinês, que deve começar a estampar manchetes com frequência no Brasil. Mas nas páginas de negócios, e não no caderno policial.