Ninguém mais sabe quanto vale a Vale

Nova leva de revelações e de interrupções reforçam as incertezas sobre as consequências do desastre de Brumadinho para o futuro da empresa

Afinal, quanto vale a Vale? A pergunta voltou a dominar as mesas de negociação na tarde de ontem após a mineradora envolvida em dois rompimentos de barragem voltar a cair com força na bolsa nesta quarta-feira. Os papéis caíam desde a abertura do mercado, mas intensificaram a baixa durante a tarde com a notícia de que a mineradora está impedida de operar a barragem de Laranjeiras.

A decisão foi tomada pela SEMAD (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável), que cancelou a autorização provisória da companhia para operar a barragem. Em nota, a Vale informou também que foi determinada pela SEMAD a suspensão imediata da mina de Jangada por entender que a licença de operação da mina está unificada à licença de operação da mina Córrego de Feijão, a despeito das minas terem atos autorizativos distintos.

As ações da Vale fecharam o pregão com baixa de 4,63%, cotadas a 42,46 reais cada uma. A negociação dos papéis chegou a ser suspensa pela B3 entre 17h26 e 17h46 (de Brasília). Desde o estouro da barragem em Brumadinho, as ações acumulam perda de 24,4%.

A notícia da proibição de operar mais duas barragens voltou a mostrar a investidores que as consequências do rompimento da barragem de Brumadinho ainda são incalculáveis. Elas vêm em duas frentes: de imagem e operacional.

No lado da imagem, a informação revelada ontem de que inspetores da companhia alemã Tüv Süd alertaram a mineradora de problemas nos sensores da barragem pelo menos dois dias antes do rompimento ganharam destaque em veículos internacionais como o Wall Street Journal, ontem. Segundo os depoimentos, o engenheiro que atestou a estabilidade da barragem diz ter sido pressionado pela Vale.

Segundo operadores ouvidos por EXAME, o maior volume de vendas de ações da Vale nos dias seguintes ao rompimento foi realizado por acionistas estrangeiros, que detêm 48% dos papéis da empresa. Muitos desses são fundos de pensão que seguem rígidas regras de governança que os impedem de fazer aplicações em empresas de imagem negativa. Fundos como o soberando da Noruega e o sueco AP Funds sinalizaram que pretendiam recomendar a retirada da Vale de suas carteiras.

Do lado operacional, as sucessões de multas, interrupções e indenizações tiram capacidade operacional da mineradora, mas também encarecem o acesso à crédito e comprometem o planejamento da companhia. Após o rompimento da barragem da Samarco, há três anos, as ações da Vale, co-controladora da mineradora, chegaram a cair 45%. Desta vez, a resposta mais rápida da mineradora, se prontificando a descomissionar 10 barragens semelhantes à de Brumadinho, acalmou os mercados por um tempo, mas a nova leva de notícias abre novas frentes de incerteza.

Desde 2010, quando uma plataforma de petróleo explodiu no golfo do México, a britânica BP teve que desembolsar um total de 67 bilhões de dólares em pedidos de indenização e outras contingências. A Vale já teve 12 bilhões de reais bloqueados, e é alvo de processos na Justiça americana e de incalculáveis despesas no Brasil.

Questionado sobre quanto vale a mineradora, um operador diz que tudo que pode responder é que a quinta-feira deve ser mais um dia difícil na bolsa. Para a Vale, as análises, agora, são dia a dia.