Mudança na Kroton não convence e grupo perde mais de R$ 1 bi na bolsa

Mercado viu um possível conflito de interesses em serviço voltado para outras empresas de educação, diz analista

A ampla reestruturação do maior grupo de educação privada do país não convenceu os investidores. A Kroton (KROT3) chegou a perder 1,3 bilhão de reais em valor de mercado com a queda de suas ações, desde que a empresa anunciou, na tarde de ontem, que mudará de nome e o formato de sua operação. Durante evento na segunda (7), a companhia informou que será dividida em quatro braços e criará uma holding chamada Cogna Educação.

Como parte da mudança, as ações da Cogna passarão a operar na B3 sob o código “COGN3” a partir de 11 de outubro.

Por volta das 16h30, os papéis ordinários (ON) da Kroton lideravam as perdas do Ibovespa, recuando 3,89%, a 10,37 reais cada. Considerando o pregão de ontem, a ação acumulou uma desvalorização de 6,5%. No ano, contudo, ainda avançava ao redor de 19%.

Apesar da reação negativa na bolsa, analistas da Guide Investimentos previram um impacto positivo da mudança para o grupo. “A reestruturação da companhia concede maior autonomia nos segmentos de atuação, proporcionando condições para melhor aproveitar as oportunidades do setor”, escreveram em relatório.

Para analistas do banco UBS, a nova holding Cogna pode ser uma forma interessante de destravar o valor da empresa, à medida que “suas várias dinâmicas de negócios se tornem mais claras e isto reduza o ônus atribuídos ao ensino superior tradicional”. O banco manteve a recomendação “neutra” para a ação após a notícia.

O que desagradou o mercado?

Conforme noticiado mais cedo, a nova holding servirá para supervisionar quatro empresas focadas no ensino superior e no ensino fundamental e médio. Até então, o grupo inteiro tinha o nome de Kroton e a empresa era dividida em dois braços, o de educação superior e educação básica. Agora, cada uma as quatro divisões será uma nova empresa.

As empresas serão a Kroton, com o mesmo nome e foco em ensino superior; a Saber, que inclui línguas e as escolas de ensino básico das quais a Kroton é dona; a Vasta Educação, que vai oferecer serviços de gestão para as escolas e material didático; e a Platos, criada para oferecer serviços de gestão para o ensino superior. O grupo terá ainda um braço de investimento em startups, a Cogna Venture.

Segundo o analista de ações da Levante Investimentos, Eduardo Guimarães, o mercado ficou confuso com um possível conflito de interesses com os serviços da Vasta, com educação básica, e da Platos, com o ensino superior.

“Ficou a dúvida se eles poderiam oferecer produtos para empresas do mesmo grupo e para concorrentes da Yducs”, afirma o analista. “ O mercado não entendeu como a empresa vai operacionalizar isto”.

A mudança, que começa a valer a partir do dia 1º de janeiro de 2020, faz a Kroton ampliar seu espectro de serviços para empresas, o chamado B2B (business to business, ou negócio para negócio). A empresa, famosa pelas faculdades privadas como a Anhanguera, até então tinha serviços majoritariamente voltados aos estudantes.

Recentemente, seu maior concorrente, o grupo de ensino carioca Estácio, foi rebatizado de Yduqs em um mudança estratégica anunciada em julho. No novo reposicionamento, a companhia decidiu manter os nomes e identidades das empresas adquiridas, em um movimento de maior agressividade comercial. Três anos antes, o Cade, o conselho de defesa da concorrência, barrou uma tentativa de união entre os dois maiores grupos educacionais do país, Kroton e Estácio.