Movida: o primeiro IPO de 2017?

Letícia Toledo

Após 2015 e 2016 terem sido marcados por apenas duas ofertas iniciais de ações (IPO), 2017 começou de forma mais promissora. Nesta segunda-feira, a locadora de veículos Movida divulgou prospecto para realizar um IPO no próximo dia 8 de fevereiro em que pretende captar cerca de 790 milhões de reais.

É um processo que será acompanhado com lupa por investidores, banqueiros, analistas e empresários – ao menos 20 companhias estão na fila para abrir capital neste ano, e um sucesso na primeira empreitada pode “abrir a porteira” para as demais. Na lista estão companhias como a subsidiária brasileira da rede de supermercados Carrefour, o programa de fidelidade Tudo Azul, a operadora de salas de cinema Cinesystem e até mesmo uma das concorrentes da Movida – a locadora de veículos Unidas. A pergunta que rodeia a cabeça de todos é se o mercado já está pronto para novos IPOs.

As últimas tentativas não se saíram muito bem. A empresa de diagnósticos por imagem Alliar conseguiu levantar 766 milhões de reais em sua abertura de capital no início de outubro – o primeiro em um ano e quatro meses – o problema é que desde então as ações da companhia já caíram 26%. Em dezembro, a construtora Tenda – controlada pela Gafisa – cancelou seu IPO após não haver demanda suficiente para comprar os papéis dentro da faixa que a companhia queria, entre 12,50 e 16,50 reais.

Para especialistas, desta vez a história pode ser diferente. A principal explicação é a resiliência do mercado de locações de veículos. “O setor cresceu mesmo durante os anos de 2015 e 2016. O ano de 2017 deve ser de subida de preços, já que as empresas concederam muitas promoções nos últimos anos. A receita deve continuar crescendo”, afirma Felipe Silveira, analista da corretora Coinvalores. O setor faturou 16,3 bilhões de reais em 2015. Os dados de 2016 ainda não foram divulgados.

A Movida vai ofertar 71,46 milhões de ações ordinárias em oferta primária e outros 6,74 milhões de papéis em distribuição secundária que será realizada pela companhia que controla a Movida, a empresa de logística JSL. Segundo a Movida, os recursos serão utilizados para financiar o crescimento de suas operações com a expansão de frota e abertura de novas lojas.

Após a abertura de capital, a JSL deterá cerca de 63,4% do capital da Movida e o restante será detido pelos novos acionistas. O preço estimado por ação da companhia está entre 8,90 e 11,30 reais. No valor médio de 10,10 reais, a companhia levantaria um total de 789,8 milhões de reais, o que a avaliaria em 2,1 bilhões de reais.

A Movida é atualmente a segunda maior empresa do setor em faturamento e é a marca que mais cresce na locação de veículos desde que o grupo JSL comprou a companhia, no fim de 2013. Na época, a JSL pagou 65 milhões de reais pela companhia e, desde então, tem investido na compra de veículos e gestão de frotas. De 2013 para 2015 a receita passou de 92,6 milhões de reais para 1,8 bilhão de reais (até o terceiro trimestre de 2016 o faturamento foi de 1,4 bilhão de reais). A empresa abriu 233 lojas e ampliou sua frota de 2.400 para 57.600 carros no período.

O objetivo tanto da Movida quanto de sua concorrente Unidas é ter um negócio mais parecido com a Localiza, que está quilômetros à frente de suas desafiantes. O retorno sobre o capital investido da Localiza foi de 17% em 2015, comparado a 9,3% para a Unidas e 9,3% para a JSL (a Movida não apresenta o dado). Na Bolsa, o valor de mercado da Localiza, que fatura 3,9 bilhões de reais, é de 7,58 bilhões de reais – 3,5 vezes maior que o valor que a Movida terá, se conseguir realizar o IPO. Mas nem todo mundo vai bem neste mercado – a Locamérica, que abriu capital em 2012, perdeu 31% de seu valor de mercado desde então, atualmente em 393,5 milhões de reais.

Como o mercado é um só, a Movida e a Unidas estão em uma disputa ferrenha para ver quem chega primeiro à bolsa. O pedido de registro de abertura de capital – feito pelas companhias em novembro do ano passado – teve diferença de apenas dois dias.

Os planos da Unidas de abrir capital são antigos. A companhia já fez outras duas tentativas desde 2007. No fim de outubro do ano passado, a gigante americana de locação de veículos Enterprise Holdings, dona das marcas Alamo e National, comprou 20% da Unidas. Na transação, a Enterprise avaliou a Unidas (terceira maior locadora do país) em cerca de 1 bilhão de reais, sem contar a dívida da companhia, que está em 809 milhões. O plano era que a Enterprise fornecesse um selo de qualidade capaz de atrair investidores para uma abertura de capital – a empresa já tinha feito operação semelhante na China.

O investimento da Enterprise foi visto como estratégia dos controladores da empresa para atrair novos investidores quando a empresa abrir capital – já que a Enterprise tem um longo histórico operacional e capital virtualmente ilimitado e fatura mais de 20 bilhões de dólares por ano. A Unidas tem como sócios os fundos de private equity Kinea, Vinci, Gávea e o português Principal Guest.

“Apesar do crescimento nos últimos anos, as duas companhias ainda estão estão sendo avaliadas com promessas de lucros altos no futuro. O problema é que toda promessa traz um risco e o mercado não está com apetite para risco”, diz o executivo de uma concorrente. Nos nove meses até setembro de 2016, o lucro da Unidas caiu 7,2%, para 26,1 milhões de reais, já o da Movida recuou 19,6%, para 39,6 milhões de reais. Na Localiza, o lucro subiu 2,8% para 309,4 milhões de reais neste período.

A própria Movida cita em seu prospecto que a instabilidade e a falta de liquidez do mercado brasileiro são riscos para sua oferta de ações. A economia do país, vale lembrar, segue sem grandes avanços. Nesta segunda-feira o Fundo Monetário Internacional revisou sua projeção de crescimento da economia brasileira em 2017 de 0,5% para 0,2%.

Além disso, 2016 terminou cheio de turbulências no cenário político, com o nome do próprio presidente Michel Temer e de ministros citados em delações da empreiteira Odebrecht. Do lado internacional, ninguém ainda sabe o quanto o novo presidente americano Donald Trump e sua política expansionista são capazes de afetar o mercado financeiro.

A Movida afirma que, caso não haja interesse suficiente, a oferta pode ser cancelada. A torcida para que isso não aconteça tem pelo menos 20 empresas.