Morgan Stanley emitirá títulos em reais atrelados à inflação

Como o Banco Votorantin, o banco americano também quer aproveitar a demanda criada pela maior inflação em seis anos no Brasil

São Paulo e Nova York – O Morgan Stanley está seguindo os passos do Banco Votorantim SA ao fazer a primeira venda captação internacional com títulos denominados em reais e atrelados aos preços ao consumidor desde 2007. O banco americano também quer aproveitar a demanda criada pela maior inflação em seis anos no Brasil.

O Morgan Stanley, que controla a maior corretora do mundo, pretende emitir até R$ 400 milhões (US$ 246 milhões) em títulos com um rendimento de 5,5 por cento numa operação que pode sair ainda hoje, segundo três pessoas a par da oferta, que pediram anonimato porque não serem autorizadas a falarem publicamente sobre a operação. Em 9 de maio, o Banco Votorantim, divisão financeira do Grupo Votorantim sediada em São Paulo, captou R$ 1 bilhão com títulos de prazo de cinco anos a um rendimento de 6,25 por cento.

Investidores estão comprando os papéis ao mesmo tempo em que o governdo da Presidente Dilma Rousseff luta para conter o avanço de preços. A inflação, puxada pela disparada das commodities, obriga autoridades em países como China e Chile a elevar os juros. O Tesouro Nacional colocou R$ 9,8 bilhões em títulos atrelados à inflação em abril, a maior quantidade em sete meses.

“Acho que agora essas emissões vão ser frequentes”, disse Pedro Mollo, chefe de tesouraria do Banco Votorantim, disse em entrevista por telefone de São Paulo. “Essa demanda dos investidores vai perdurar por um bom tempo. “Essa demanda de investidores veio para ficar por um bom tempo.”

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo subiu 6,51 por cento nos 12 meses até abril, rompendo o teto da meta do governo pela primeira vez desde 2005. O IPCA vai terminar 2011 em 6,3 por cento, contra 5,9 por cento no ano passado, segundo a estimativa mediana da pesquisa do Banco Central com 100 economistas divulgada em 9 de maio.


Apostas na inflação

Para Morgan Stanley e Votorantim, as ofertas são em parte uma aposta de que a inflação vai se desacelerar devido ao aumento de juros pelo Banco Central para o maior nível em dois anos e aos cortes de gastos públicos para frear o crescimento, disse Mariano Cirello, que administra R$ 5 bilhões como diretor de investimentos da Mapfre Investimentos em São Paulo.

A porta-voz do Morgan Stanley, Mary Claire Delaney, disse numa mensagem enviada por e-mail que não comentaria.

“Os dois bancos começaram achando que a inflação vai ser tão alta quanto pensavam”, disse Cirello em entrevista por telefone. “É uma maneira mais fácil de colocar alguns títulos em um mercado ainda preocupado com a inflação.”

A diferença entre as taxas das Notas do Tesouro Nacional série B, que são atrelados à inflação, e as prefixadas Notas do Tesouro Nacional série F, uma medida das expectativas de investidores para a inflação dentro de um ano e meio, caiu ontem para 602 pontos-base, a menor em sete meses. A chamada taxa implícita de inflação sugere que investidores esperam que a alta anual dos preços ao consumidor vai se desacelerar para cerca de 6 por cento nesse período.

Disparada de commodities

Os preços das commodities caíram 6,6 por cento este mês, reduzindo o ganho nos últimos 12 meses para 26 por cento, de acordo com o índice UBS Bloomberg CMCI.

A demanda dos investidores por dívida atrelada à inflação pode diminuir à medida que a alta dos preços ao consumidor perde força, disse Marco Freire, diretor de investimentos em renda fixa da Franklin Templeton Investimentos, que administra R$ 1 bilhão em ativos em São Paulo.

As NTN-B tiveram a maior queda em dois meses no dia 6 de maio, após a divulgação de resultado abaixo do esperado pelos analistas para o IPCA. O rendimento das NTN-B com vencimento em 2012 saltou 20 pontos-base.

“Na nossa opinião, vamos ver nos próximos três a seis meses níveis de inflação muito mais baixos do que a gente viu nos seis meses passados”, disse Freire em entrevista em São Paulo.


Oferta do Votorantim

O Comitê de Política Monetária elevou a taxa básica Selic três vezes este ano para 12 por cento, após três altas em 2010. Os investidores apostam que o presidente do BC, Alexandre Tombini, vai subir o juro a 12,75 por cento até o fim do ano, segundo negócios com contratos de juros futuros.

O juro real brasileiro, que exclui a inflação, é o segundo mais alto do mundo, só perdendo para o da Croácia. A taxa alta alimenta a demanda por dívida denominada em reais no mercado internacional, disse Jim Harper, diretor de pesquisa corporativa da BCP Securities em Greenwich, no Estado americano de Connecticut.

A demanda pelos papéis do Banco Votorantim chegou a R$ 2 bilhões, o dobro da quantia ofertada, disse Mollo.

“Você tem que vender o que o mercado quer”, disse Harper em entrevista por telefone. “Não é segredo que o mercado está preocupado com isso e que o Brasil tem uma das taxas locais mais altas do mundo.”