Meu foco no Brasil são empresas de tecnologia, diz diretor da NYSE

“Preciso bater de porta em porta para mostrar a realidade. Muita gente ainda tem aquela ideia de 1989, quando a Nasdaq conseguiu umas companhias do setor”

Diretor de capital internacional da Bolsa de Nova York (NYSE, do inglês New York Stock Exchange), Alex Ibrahim costuma visitar o Brasil em busca de companhias interessadas em abrir capital em Wall Street. Em sua última viagem ao país, ele concedeu entrevista exclusiva ao Papo que Rende e afirmou que, hoje, seu maior foco por aqui são empresas de tecnologia.

Impressionado pelo setor brasileiro de fintechs, que define como “fantástico”, Ibrahim disse que há muito espaço para essas empresas listarem tanto no mercado local como nos Estados Unidos. “Elas estão crescendo muito e o investidor americano gosta desse crescimento.”

Recentemente, as brasileiras Linx e PagSeguro fizeram IPO na NYSE, assim como gigantes do ramo, como as americanas Uber, Pinterest e Spotify. Entretanto, nem isso foi capaz de apagar da memória os anos em que a Nasdaq liderou o nicho.

“Nos últimos cinco anos, nosso market share nos IPOs de tecnologia foi de 76%. Aqui no Brasil, preciso bater de porta em porta para mostrar a realidade. Muita gente ainda não conseguiu entender e está com aquela ideia de 1989, quando a Nasdaq conseguiu umas empresas de tech. ”

Apesar do esforço em atrair empresas para listagem, bolsas do mundo inteiro viram cair o número de IPOs nos últimos anos. De acordo com a consultoria EY, a redução foi de 20,71% entre 2017 e 2018. No primeiro semestre de 2019, o recuo foi de 23,18% em relação ao mesmo período do ano passado. Situação semelhante também ocorreu na NYSE.

Responsável pela parte de capital internacional da Bolsa de Nova York desde 2015, Alex Ibrahim está há quase duas décadas na NYSE, onde fez quase toda carreira voltada para mercados da América Latina. Leia a entrevista:

Qual o motivo de sua viagem ao Brasil?

Como você deve saber, a Bolsa de Nova York é a maior do mundo e o Brasil é o nosso quarto país em termos de representação. Nós temos trinta e uma empresas brasileiras listadas, com valor de mercado agregado de quase 700 bilhões de dólares. A última a ser listada foi a Linx, uma empresa de tecnologia, que fez uma captação de quase 300 milhões de dólares com a gente. Então, a razão de eu estar aqui é continuar esse diálogo com o mercado brasileiro para atrair outras empresas e também oferecer serviços para as que já estão listadas crescerem no mercado global, em termos de liquidez, de acesso a investidores, para terem uma visibilidade maior. Então, meu papel aqui é atrair empresas brasileiras para fazer listagem no mercado americano ou uma listagem nos dois mercados: no Brasil e nos Estados Unidos

Qual seria a grande vantagem de a empresa abrir capital nos EUA?

Meu trabalho aqui é posicionar essa ideia de dupla listagem, porque para nós é muito importante uma empresa brasileira estar listada no mercado brasileiro. Aqui você tem acesso ao capital local, que tem bastante dinheiro. Mas a listagem americana agrega outro elemento importantíssimo que muitas vezes você não consegue captar no mercado local. Quando uma empresa lista lá, como é caso da Linx, ela está exposta ao investidor dedicado ao setor de tecnologia. Muito desse dinheiro não negocia no mercado local por restrições do fundo ou não tem acesso a contas daqui. Esse dinheiro não vem para cá. Então, com a listagem lá fora, abre-se a oportunidade da empresa para conseguir esse capital de investidores dedicados ao setor, que não tem no mercado local. Aqui no Brasil tem muito dinheiro estrangeiro, mas geralmente é um dinheiro que olha Brasil, que olha América Latina, que olha mercados emergentes. Lá fora você consegue chegar aos fundos globais, e, principalmente, ao investidor dedicado ao setor. Quando você faz uma dupla listagem é um ganha-ganha, você pega o mercado local e pega o mercado internacional.

A ideia é pegar o máximo de empresas possíveis?

A ideia é trabalhar com o mercado local. Não estou dizendo que quero pegar todas. É uma coisa estratégica de cada empresa. Cada uma tem uma ideia do que quer fazer em termos de capital raising. Muitas delas não precisam do mercado americano. Elas conseguem captar aqui e serem muito liquidas, felizes no mercado local. Então, não precisa falar comigo. Já outras, que já tem um perfil um pouco mais internacional, ou está querendo passar por esse processo de internacionalização, a dupla listagem na B3 e na Bolsa de Nova York funciona.

O senhor citou a Linx. Recentemente, também teve o IPO da PagSeguro na NYSE. As empresas de tecnologia são o alvo?

É. O meu maior foco aqui no Brasil, hoje, é tecnologia. Infelizmente, aqui no mercado local existe pouco entendimento de que [a NYSE] é a Bolsa de tecnologia, de empresas inovadoras, de high growth. Essas empresas, hoje, estão listadas na Bolsa de Nova York. Não estão na Nasdaq. Nos últimos cinco anos, nosso market share nos IPOs de tecnologia foi de 75%. Ou seja, em cinco anos, a Bolsa de Nova York liderou o mercado de tecnologia global. Estão com a gente empresas como Uber, Pinterest, Slack, Sportify, Tencent Music Entertainment, Nio, Despegar. Essas empresas, que a gente chama de inovadoras no setor de tecnologia, estão listadas na Bolsa [de Nova York]. Aqui no Brasil, tenho que bater de porta em porta e mostrar a realidade de que hoje a Bolsa de Nova York é o mercado de tech. Muita gente ainda não conseguiu entender e está com aquela ideia de 1989, quando a Nasdaq conseguiu umas empresas de tech.

Porque demorou décadas até a NYSE passar a liderar esse mercado?

A porta estava fechada porque nossa listing standard exigia lucro. Se você não era uma empresa com lucro, você não podia listar com a gente. Então, o mercado fechou para empresas de tech. Há dez anos, nós eliminamos isso. Hoje, a porta está aberta. Ou seja, nós modernizamos as nossas regras de listagem. Eliminamos o teste de profitabilidade e a porta abriu. No momento em que a porta abriu, as empresas de tech começaram a vir.

O que fez a Bolsa de Nova York superar a Nasdaq em abertura de capital de empresas de tecnologia? Isso se deve ao IPO do Facebook, que apresentou falhas na Nasdaq?

Eu acho que não. Acho que essa migração para a Bolsa de Nova York está mais relacionada ao valor que a gente oferece às empresas. A forma de negociarmos os papéis é o primeiro ponto. Cada empresa na Bolsa de Nova York tem um designator market maker (DMM), que é o formador de mercado. A primeira função do DMM é fazer com que a listagem seja feita sem nenhum problema. A NYSE nunca teve um erro de execução no IPO. Essa é a razão número um do DMM. Depois que a empresa está listada, a função do DMM é diminuir a volatilidade nas ações negociadas diariamente. Ou seja, [com] menos volatilidade, o investidor entra e sai sem grande deslocação de preço. Então, você tem o DMM para te representar e diminuir a volatilidade com capital para trabalhar contra os fluxos de mercado – isso é superatraente. Nasdaq não tem isso. Não existe. Então isso é único da Bolsa de Nova York.

Outro ponto importante é a [ferramenta de] network que a Bolsa tem. Nós temos 2.200 empresas listadas, com valor agregado de 28 trilhões de dólares. É a maior bolsa do mundo em termos de valor. Existem bolsas fora dos Estados Unidos que têm até mais empresas listadas, mas, se você agregar todo valor de market cap, nem é comparável. Então, as maiores empresas do mundo estão listadas com a gente. Quando você olha os índices globais, 82% das empresas do Dow Jones estão listadas com a gente. Quando você olha o S&P 500, [o percentual é de] 79%. Quando você olha o Interbrands, das maiores global brands do mundo, 82% delas estão listadas na Bolsa. Muitas empresas querem fazer parte desse universo e a gente ajuda essas empresas a se comunicarem com outras, que podem ser uma potencial compradora ou uma potencial parceira. Para ajudar na conectividade, a gente fornece o network. A Bolsa também oferece um programa de subsidio de dois anos para ajudar a diminuir o custo de listagem. Também promovemos visibilidade global. Como a gente vai apresentar a empresa para investidores e depois para potenciais consumidores. Então a bolsa trabalha com o time dela de marketing para fazer a empresa ficar mais vista no mercado global.

Abrir capital na Bolsa de Nova York faz com que o investidor estrangeiro passe a olhar menos o risco do país onde a empresa tem suas operações e mais para o nicho em que atua?

O investidor olha para tudo. O investidor tem que fazer uma análise de como vai alocar recursos. Ele ou ela está olhando os fundamentos da empresa, o management team, como a empresa está crescendo, como ela reporta em termos dos números, como a empresa está nos últimos anos, como é o mercado em que ela opera. E, lógico, além disso tem o risco Brasil, o cenário político econômico, que tem um peso na hora da alocação de recursos. Mas quando você olha Brasil, principalmente o setor de tecnologia, existe hoje no mercado uma falta enorme de essas empresas lá fora. Quando você olha para China, a quantidade de companhias de tecnologia que estão listadas com a gente se comparada com o Brasil é noite e dia, night and day. Aqui no Brasil, acredito, que há muito espaço para empresas de tecnologia estarem listadas aqui, listadas lá ou listadas nos dois lugares porque elas estão crescendo muito e o investidor americano gosta desse crescimento. A parte de fintech aqui é fantástica. A parte de techs de educação é gigantesca. O investidor olha o potencial de crescimento dessas empresas e usa os riscos globais, não só de Brasil. Hoje você tem que olhar o momento global. Há muitas incertezas lá fora e isso faz parte da análise se vai comprar ou não uma empresa no Brasil.

No primeiro semestre, o número de IPOs na Bolsa de Nova York foi inferior ao mesmo período de 2018. Por que diminuiu?

Boa pergunta. O mercado americano nesse ano tem tido tanta turbulência global. Você sabe que teve duas ondas de deslocação com a China. Aconteceu em torno de maio, depois melhorou um pouco. Aí, voltou agora. Isso cria um impacto no mercado. Lembre-se também que este ano tem sido um ano fantástico de IPOs americanos gigantescos. Com isso, de alguma forma o mercado fica um pouco mais – não vou dizer contraído. Tivemos meganegócios entrando, como Uber, Pinterest e Levi’s, que arrecadaram muito dinheiro. Então, acho que muitas empresas estavam esperando esses meganegócios ficarem prontos. Mas, infelizmente, essa história com a China entrou no meio e isso diminuiu a quantidade de IPOs vindo no primeiro semestre.

No segundo semestre, se tudo ocorrer bem, eu, quando olho o pipeline americano e a parte que cuido, a parte internacional, o pipeline é forte. Ali tem negócios vindo potencialmente do Brasil e da Europa. Se a China melhorar e as coisas se arrumarem, o pipeline da China é enorme. Temos o sudeste da Ásia vindo para cá, Canadá. Então, é um pipeline altamente diversificado geograficamente e também através de setor. Quando você olha para fora dos Estados Unidos, tecnologia é muito importante para a gente, mas a gente toca outros setores também como energia, infraestrutura e serviços financeiros. Essas empresas, se tudo ocorrer bem, deverão entrar no mercado depois do feriado do Dia do Trabalho americano, (2 de setembro).

O número de IPOs no mundo todo diminuiu em 2018 em relação a 2017 e em 2019 está sendo menor também. Isso está atrelado à desaceleração global?

Eu acho que o que está acontecendo globalmente afeta o universo de IPOs. Mas, você também tem que pensar no outro lado da equação: muitas empresas grandes estão ficando privadas por mais tempo e continuam recebendo recursos no mercado privado. Isso dificulta o processo de se tornarem públicas. Você vê que a Uber demorou muito tempo para abrir o capital. Tem várias empresas no mundo que ainda não abriram. Estão pensando, mas essa quantidade de dinheiro no mercado privado ajuda essas empresas a não acessarem o mercado de capitais público. Parte dessas empresas não quer abrir o capital ainda.

O movimento de corte de juros por parte dos bancos centrais pode levar a um aumento do volume de negócios nas bolsas de valores?

Eu acho que sim. Você vai ver uma alocação para o mercado de ações. Mas tem um cenário de desaceleração global acontecendo. A gente não tem controle. É uma coisa que está acontecendo na Europa e na China. Até mesmo aqui no Brasil você vê que o crescimento foi menor do que estava sendo esperado. Eu acho que isso pode criar um impacto. Mas, se a empresa tem uma história boa e inovadora e está em um setor bacana – pode ser qualquer setor, tech, biotech ou construção – eu acho que vai ter apetite para fazer IPO lá fora.

Estamos observando aqui na bolsa brasileira uma fuga de capital estrangeiro. Como o senhor enxerga esse movimento?

Isso me deixa meio preocupado porque o Brasil é um mercado superdesenvolvido. Tem empresas maravilhosas negociadas aqui. Mas é como eu te disse, investidores têm que olhar o cenário macro, global e local. Se eles não estão confortáveis com o que estão vendo no curto ou longo prazo, eles vão sair e vão realocar para outro lugar, vão para outros produtos. Infelizmente, nesse último semestre, o número caiu bem, mas os ADRs lá fora estão negociando, porque tem um apetite muito grande no mercado americano. Eu espero que esse dinheiro volte para cá depois que tiver uma visão clara do que está acontecendo em Brasília. Eu acho que esse dinheiro volta. Esse dinheiro entra e sai. Às vezes está alto, às vezes está baixo. Mas, afinal de contas, esse mercado aqui é muito liquido e o investidor americano e global gostam do Brasil. Ele tem comprado Brasil por muitos anos e conhece bem o mercado. Alguns tem um risco de tolerância maior do que outros. Os que entram e saem talvez sejam muito ligados a hedge fund, eles não são investidores de longo prazo. Os que estão aqui há muito tempo não estão saindo. Acho que é o fast money que entra e sai.