Mercado teme crise sistêmica após quebra do Lehman

Sem ajuda do banco central americano, sistema financeiro mundial poderá entrar em colapso, dizem especialistas

Nos últimos meses, especialistas ressaltaram a maturidade da bolsa brasileira, que teria se descolado do mercado acionário americano. Mesmo com a crise nos Estados Unidos, desencadeada pelas hipotecas de alto risco, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) conseguiu bater diversos recordes, motivados pela concessão do grau de investimento ao Brasil. Nesta segunda-feira, entretanto, o comportamento do Ibovespa - que chegou a cair mais de 6% durante o pregão -  mostrou que não há como se manter descolado dos mercados internacionais por muito tempo.  </p>

O pedido de concordata do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos, e a venda do Merrill Lynch para o Bank of America, surpreenderam investidores e analistas, que apostavam na ação do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) para evitar tal situação. “Como o Fed não evitou a quebra do Lehman Brothers, agora fica a expectativa de que, com o pedido de concordata, o preço do banco caia e apareça algum comprador”, diz Keyler Carvalho Rocha, professor de Finanças da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). “Caso não haja uma solução de mercado para a instituição, teremos o risco de uma crise sistêmica, e não há como prever qual será a dimensão do estrago”, complementa.

A decisão do Fed de não utilizar o dinheiro público para garantir papéis podres do Lehman Brothers pode ter impactos negativos por dois motivos. O primeiro é que o banco central dos Estados Unidos deixou claro que não vai resgatar todos que tiverem dificuldades para tomar créditos. Após socorrer o banco Bear Stearns e também as agências Freddie Mac e Fannie Mae, parecia que o banco agiria sempre que houvesse o risco de quebra de uma instituição financeira. Agora, a percepção é de que o mercado terá de encontrar soluções para a própria crise.

O segundo ponto importante é que agora os bancos terão uma nova fonte de perdas – além dos papéis ligados a hipotecas. Como o Lehman Brothers devia mais de 600 bilhões a diversas instituições financeiras credoras, é de se esperar que vários bancos não recebam ao menos parte do dinheiro emprestado. Segundo o jornal Financial Times, somente o Citigroup e o Bank of New York Mellon eram garantidores de cerca de 138 bilhões de dólares em bônus emitidos pelo Lehman. Isso não significa que os dois bancos terão de arcar com perdas dessa magnitude, mas as instituições podem sofrer pressão de credores para que as perdas sejam repartidas.

O pedido de concordata do Lehman Brothers mostra ainda que o Bank of New York Mellon teria garantido outros 17 bilhões de dólares em dívidas subordinadas da instituição. Já o banco japonês Aozora Bank teria 463 milhões de dólares a receber do Lehman Brothers. A instituição, no entanto, informou que a maior parte dessa dívida tem garantias. Outros bancos japoneses que podem ter perdas são o Mizuho Corporate Bank (crédito de 382 milhões de dólares), Shinsei Bank (231 milhões de dólares) e UFJ Bank (185 milhões de dólares). Na Europa, um grande credor do Lehman Brothers é o BNP Paribas (250 milhões de dólares).

Alívio

Após recusar-se a salvar o Lehman, o Fed tem a chance de tentar acalmar os mercados nesta terça-feira. Os principais dirigentes do banco vão se reunir para definir o futuro da taxa básica de juros americana. Para analistas, é possível que haja um corte de 0,25 ponto percentual na taxa, que cairia para 1,75% ao ano. Essa medida, entretanto, teria efeito apenas paliativo, na avaliação de Rocha. “Qualquer medida que não seja a de injetar dinheiro no sistema e evitar a quebra de bancos não resolverá o problema”, diz. Segundo rumores de mercado, entre as instituições com dificuldades de financiar suas operações estão a AIG, maior seguradora dos Estados Unidos, e o banco Washington Mutual.

Por enquanto, não há sinais de uma corrida dos investidores aos bancos. Mas a confiança no setor já não é mais a mesma. Mesmo instituições que não trabalham com o segmento subprime, como é o caso das brasileiras, estão sentindo o impacto da crise. As ações de grandes bancos brasileiros perderam até 24% de seu valor neste ano, acima dos 18% do Ibovespa. “Existe uma barreira psicológica. Não interessa se o banco é lucrativo ou se o cenário doméstico é positivo. Os investidores simplesmente não aplicam”, afirma o economista do Banco Real, Fábio Susteras.

Mas os bancos não devem ser os únicos afetados pela crise. Para Susteras, as empresas voltadas para commodities, como Vale do Rio Doce, Petrobras e as siderúrgicas, devem registrar mais perdas nas próximas semanas. “Os bancos lá fora deixarão de emprestar e, com isso, o consumo cairá, fazendo com que a demanda por matérias-primas também diminua”, explica Susteras. “Não há como escapar da contaminação. A Bolsa só vai voltar a subir quando houver uma melhora no cenário internacional.”

Reação

Para os especialistas, o termômetro da economia americana é o mercado imobiliário. “Quando os preços dos imóveis voltarem a subir, será o sinal de recuperação”, diz Susteras.  A valorização imobiliária provocaria uma alta nos títulos lastreados em imóveis, capitalizando os bancos. Por isso, uma saída para evitar o agravamento da crise, segundo os especialistas, é o governo americano lançar pacotes de ajuda ao setor.

Outra possibilidade seria os governos de outros países incentivarem o reaquecimento da economia global. “A China, por exemplo, poderia investir pesadamente em infra-estrutura. O país tem recursos para isso e já mostrou que quer voltar a impulsionar sua economia”, destaca Susteras. Nesta segunda-feira, pela primeira vez desde 2002, o banco central chinês reduziu sua taxa básica de juros, além de diminuir a reserva obrigatória para pequenos bancos.