Mercado espera ágio baixo na privatização da Cesp

Para analistas, lance 15% superior ao preço mínimo já pode ser suficiente para arrematar empresa

A privatização da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), marcada para o dia 26 de março, não deve gerar grandes ganhos para quem decidir comprar as ações da empresa agora. Desde dezembro, quando foi anunciado que o governo retomaria o processo de privatização da empresa, as ações subiram 27%, praticamente alcançando o preço mínimo de 49,75 reais definido para o leilão, que já engloba grande parte do potencial de aumento de produtividade da Cesp. Pelas estimativas dos analistas, os lances devem elevar o preço dos papéis a, no máximo, 57 reais – o que representa uma valorização de 14,6% sobre o preço mínimo.

Como a Cesp oferece tag along (direito de receber um percentual do valor pago aos acionistas controladores) de 100% para as ações preferenciais, os minoritários receberão pelos papéis o mesmo valor que os acionistas controladores. Porém, num prazo muito maior. A empresa fará a oferta pública para quem detém as ações preferenciais apenas 180 dias após a realização do leilão. Ou seja, para receber o mesmo valor dos controladores, os minoritários terão de esperar no mínimo seis meses. Por isso, alguns analistas não consideram mais a ação tão interessante.

O Unibanco, por exemplo, retirou sua recomendação de compra dos papéis. Para o analista Fernando Adbala, já está na hora do investidor realizar lucro e buscar opções mais atraentes no setor, como Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e Tractebel, que teriam potencial de alta de 82% e 68%, respectivamente. Já a Alpes Corretora aconselha os investidores a aguardar a definição sobre a participação de estatais no leilão. “Se Cemig e Copel forem impedidas de participar da operação, eu aconselho o investidor a não comprar as ações da Cesp, uma vez que o potencial de valorização daqui para frente será pequeno. Mas, se as estatais puderem participar, daí o cenário muda e o papel poderá trazer bons lucros”, afirma Fausto Gouveia, analista da Alpes.

Apesar de ter sido vetada a participação de empresas públicas estaduais no leilão, a Copel já informou que está disposta a recorrer à Justiça para anular essa decisão do governo de São Paulo. A reação já mostra que a venda da estatal poderá não ser tão simples quanto parece – e a possibilidade de não concretização do leilão é um dos riscos apontados pelos analistas.

Estrangeiros de olho

Além das estatais, mais dez empresas demonstraram interesse pelo negócio (veja detalhes no quadro abaixo). Devido ao alto valor da operação, que ultrapassa 15 bilhões de reais considerando a compra do bloco de controle e a futura oferta pública de aquisição das ações de minoritários, espera-se que os potenciais compradores formem consórcios para participar do leilão, diluindo assim o valor a pagar. Entre os favoritos a levar a Cesp está a franco-belga Suez, controladora da Tractebel, a espanhola Iberdrola, que controla a Neoenergia, e a brasileira CPFL Energia. A Light e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) também estão no páreo, que deve contar ainda com a ítalo-espanhola Enel/Endesa, a portuguesa Energias de Portugal (EDP), que controla a Energias do Brasil, e os fundos de private equity Kohlberg Kravis Roberts (KKR), Blackstone e Pátria.

Os analistas divergem sobre quão disputado deve ser o leilão. Para André Segadilha, analista da Prosper Corretora, haverá uma grande concorrência pelos ativos da Cesp devido aos seus bons fundamentos, que incluem localização geográfica privilegiada, dívida equalizada e atuação no mercado de geração – que deve ser muito demandado nos próximos meses. Já para Sérgio Tamashiro, da Itaú Corretora, se houver a união em dois ou três consórcios, a concorrência será limitada.

As discussões em torno da disputa pela Cesp esbarram principalmente no risco gerado pelas dúvidas em torno da renovação das concessões de suas duas maiores hidrelétricas – Jupiá e Ilha Solteira, que respondem por 67% da capacidade de geração da empresa. Pelas regras do setor, as concessões, ao completar 20 anos, não poderão ser renovadas, devendo ir a leilão novamente. “O comprador terá de ter a coragem de pagar por algo que só vai saber exatamente o que é em 2015, quando vencem os contratos de concessão”, diz Fausto Gouveia. Ele também cita possíveis despesas com a Fundação Cesp como fonte de incertezas.

Para André Segadilha, existe uma questão jurídica em torno do assunto, mas na prática o risco é praticamente nulo. “Toda a estrutura para geração de energia é da Cesp, não do governo. O que o governo vai fazer? Mandar destruir tudo para construir de novo?” Tamashiro também não acredita que as concessões tenham um grande peso no leilão. “As concessões de Chesf, Furnas e Cemig também vencem em 2015. Se não houver a renovação, as empresas poderão operar sem concessão. Ninguém vai ficar sem energia por causa disso. O importante é gerar a energia e receber por ela”, afirma.

Setor promissor

Independentemente do resultado do leilão da Cesp, os analistas apontam o setor de energia como um dos mais promissores para 2008. “As ações ainda estão muito descontadas e o setor deve ter bom desempenho nos próximos meses”, diz Gouveia.

Com o aumento de demanda, pressupõem-se um aumento de preços – o que deve refletir em valorização dos papéis na Bolsa. Além de Cemig e Tractebel, as corretoras recomendam as ações da CPFL Energia e da Transmissão Paulista.


Quem deve brigar pela Cesp

CPFL Energia: companhia de energia que atende São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná e que conta como acionistas a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e a Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras

*Cemig: companhia de energia de Minas Gerais

*Copel: companhia de energia do Paraná

**Light: companhia de energia do Rio de Janeiro, que tem como acionistas Cemig, Andrade Gutierrez, BNDESPar e Pactual

CSN: siderúrgica brasileira

Energias do Brasil: holding controlada pela Energias de Portugal que atua nos estados de São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Tocantins

Neoenergia: controlada pela espanhola Iberdrola, é responsável pela geração e distribuição de energia na Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte

Tractebel: controlada pela franco-belga Suez, é a maior empresa privada de energia no Brasil, contando com seis usinas hidrelétricas e sete termelétricas, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás

Enel / Endesa: grupo formado em 2007 a partir da compra da espanhola Endesa pela italiana Enel, que em 2006 adquiriu as 11 empresas pertencentes ao Grupo Rede, que operava no Mato Grosso, em Tocantins e em São Paulo

Pátria Investimentos: fundo brasileiro de private equity

Blackstone: fundo americano de private equity

Kohlberg Kravis Roberts (KKR): fundo americano de private equity

*A participação de estatais no leilão é vetada por lei

** Como a Cemig faz parte do bloco de controle da Light, há o risco de a empresa ser barrada no leilão