Medidas para conter alta do etanol podem prejudicar ações do setor, diz Fator

Analista calcula o impacto de um eventual aumento de produção do álcool em detrimento do açúcar

São Paulo – A ausência de medidas do governo diante da forte alta do preço do etanol têm deixado o mercado preocupado e sem referências. O reflexo pode ser percebido, por exemplo, na queda recente das ações de empresas como a Cosan (CSAN3). Apenas nos últimos sete dias, as ações ordinárias de uma das maiores produtoras mundiais de açúcar e etanol caíram 10%.

“Como ainda não há nada de concreto anunciado pelo governo, o efeito sobre a rentabilidade das empresas não pode ser calculado”, lembra o analista da Fator Corretora, Rodrigo Fernandes.

Entretanto, uma simulação realizada pelo analista mostra o impacto do aumento da produção de etanol em detrimento da de açúcar. Segundo Fernandes, para cada 1 ponto percentual de aumento do etanol no mix de produção das empresas, ou seja, maior destinação da moagem de cana para etanol, os preços-alvo da São Martinho (SMTO3), Cosan (CSAN3) e Tereos Internacional (TERI3) caem 2%, 1% e 0,5%, respectivamente.

“Por enquanto as notícias são negativas para o setor, pois a intervenção do governo sobre a cadeia produtiva poderá prejudicar a flexibilidade de produção e o planejamento da safra, que afetam negativamente a estratégia comercial das usinas”, explica o analista.

Além disso, as medidas podem ser potencialmente ruins para as empresas se implicarem em interferência do governo sobre a decisão de produção e estocagem das usinas e sobre os preços de venda nos mercados de atuação, conforme lembra Fernandes. “O objetivo principal é o de aumentar a oferta de etanol, para o qual acreditamos que o efeito seja negativo sobre o valor das empresas”.

Dentro deste contexto, a empresa preferida no setor pelo analista é a São Matinho, com recomendação de compra e preço-alvo (dez/11) de 30 reais, um potencial de valorização de 23,4%.

“Preferimos a São Martinho em função da maior exposição ao setor e das estratégias de possuir maior participação de cana própria e colheita mecanizada, o que resulta em maiores ganhos operacionais. A empresa também antecipou a estratégia de estocar etanol para a entressafra, o que deve resultar em aumento das margens operacionais para o quarto trimestre de 2011”, afirma o analista.

Para a Cosan e Tereos Internacional, a Fator Corretora tem recomendação de manutenção, com preços-alvo (dez/11) em 30 reais e 4,5 reais, respectivamente.


Ação e reação

Em seu relatório, Rodrigo Fernandes também elencou os possíveis impactos derivados de medidas tomadas pelo governo:

1 – Regulação da Agência Nacional do Petróleo (ANP) pode resultar em interferência na flexibilidade de produção das usinas, que afetaria a estratégica comercial e o planejamento do canavial na decisão entre a produção de açúcar e de etanol. Atualmente, a decisão baseia-se no rendimento da safra e na rentabilidade relativa entre os produtos.

2 – Redução da mistura do etanol anidro na gasolina demandaria importação adicional de gasolina, o que poderia ter impacto sobre as margens operacionais da Petrobras, uma vez que, com a capacidade de refino no limite, o consumo adicional é suprido por importações.

3 – Criação de estoque regular para suprir o período de entressafra tende a estabilizar o preço do etanol ao longo da safra e também poderá afetar a produtividade agrícola. Se este estoque, entretanto, ficar a cargo das usinas, haverá pressão adicional de capital de giro.

4 – A taxação das exportações de açúcar terá impacto sobre o mercado internacional, pois haverá repasse para preços e também a efeitos adversos sobre o mercado interno, que já é plenamente abastecido. Vale lembrar que o Brasil é o principal exportador da commodity.

5 – Apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para novos projetos em etanol e renovação do canavial, porém com restrições ou menos benefícios às usinas com maior produção de açúcar.

6 – A Petrobras poderá aumentar sua participação no setor através de participação em usinas e investimentos em novos projetos de expansão

7 – Maiores dificuldades para reconhecimento do etanol brasileiro como commodity global em função do direcionamento da produção ao mercado interno e falta de garantias para os importadores em relação ao suprimento.

8 – A taxação de automóveis nacionais e importados movidos apenas à gasolina, a fim de incentivar a demanda por etanol e levantar recursos para investimentos em inovação tecnológica.