Maria Foster “pegou o touro pelos chifres” em apresentação ao mercado

Após críticas ao reajuste dos combustíveis, analistas dizem que queda das ações foi exagerada e dão voto de confiança para a nova CEO

São Paulo – Uma apresentação de duas horas e 89 páginas pode ter ajudado a melhorar um pouco a percepção do mercado sobre a Petrobras. O evento, “raro mesmo entre as empresas mais transparentes” segundo o HSBC, foi o primeiro comandado pela nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster. A boa receptividade aconteceu mesmo enquanto as ações derretiam na Bovespa.

A espetacular queda das ações da Petrobras na segunda-feira, primeiro dia após o anúncio do “frustrante” reajuste dos combustíveis, pode ter sido além da conta, avaliam analistas do mercado financeiro. “Acreditamos que a forte queda das ações da Petrobras ocorrida ontem foi exagerada – basicamente em função dos aumentos decepcionantes dos preços do diesel e da gasolina”, explica Anisa Redman, analista do HSBC, em relatório.

A empresa anunciou na sexta-feira um aumento de 7,83% nos preços da gasolina e de 3,94% no diesel. O valor cobrado do consumidor não irá crescer porque o governo reduziu a alíquota da CIDE a zero. O fato também foi visto como uma dificuldade a mais porque não há mais margem para reajustes sem impacto na bomba. A ação preferencial (PETR4) caiu 8,95%, a maior queda diária desde novembro de 2008. A ordinária (PETR3) recuou 8,33%.

Entretanto, enquanto os investidores avaliavam as mudanças nas expectativas por conta de um reajuste abaixo do esperado, Maria Foster, detalhava ao mercado o plano de investimentos anunciado uma semana antes e que também puniu os papéis. A Petrobras aprovou um plano de investimentos entre este ano e 2016 de 236,5 bilhões de dólares para o período, mas cortou as metas de produção de petróleo e gás. 

Franqueza

Os analistas ressaltam hoje a franqueza e coragem da CEO em sua primeira apresentação com a diretoria da Petrobras realizada ao mercado financeiro. “Eles afirmaram que a paridade dos preços da gasolina e do diesel com os preços internacionais é um dos pilares do plano e que a diretoria, incluindo importantes ministros do governo, aprovou o plano com essa premissa”, ressaltam Frank McGann e Conrado Vegner, analistas do BofA Merrill Lynch, em relatório.


Para o Deutsche Bank, a transparência da apresentação expôs as ineficiências que a atual diretora pretende atacar. “A administração irá precisar de tempo para provar que consertou os erros da anterior e o mercado irá precisar de tempo para acreditar que o plano pode ser executado com menores riscos de atrasos ou excesso de custos”, destacam os analistas Marcus Sequeira e Luiz Fonseca, do Deutsche Bank.

Segundo Anisa, do HSBC, o evento foi a prova da mudança nas prioridades da empresa. “A CEO ‘pegou o touro pelos chifres’ por dar início imediato à análise de erros, antecipando perguntas sobre: o não cumprimento persistente das metas de crescimento devido a atrasos em projetos; os custos excessivos (a refinaria de Pernambuco como exemplo do claro fracasso em controlar custos); os ineficientes sistemas de aprovação de projetos e os baixos níveis de responsabilidade”, explica.

Outro lado

A aparente mudança da Petrobras ainda precisa ser provada e para alguns ainda é apenas uma esperança. “A senhora Foster está tentando reeducar o mercado sobre o racional da Petrobras e a posição sobre a exigência do conteúdo local, desmistificando o fato de que os equipamentos construídos fora do país não sofrem atrasos. Ao mesmo tempo, sentimos alguma relutância em admitir os grandes atrasos e altos custos nos equipamentos construídos localmente”, argumentam Emerson Leite e Andre Sobreira, do Credit Suisse.

O banco diminuiu ontem a expectativa de lucros para a empresa em 10%, pois aguardava um repasse de 10% para cada tipo de combustível. “Também reduzimos a nossa expectativa de aumento futuro de 10% para 5%. Imaginamos o quão se tornarão difíceis as negociações, dado que agora não existe mais Cide para prevenir aumentos na bomba”, ressaltaram.