Lemann e Buffett: um papo de U$ 100 bi

Paula Rothman, de Cambridge

O encontro entre os investidores Warren Buffett e Jorge Paulo Lemann colocou 104 bilhões de dólares de fortuna pessoal no painel de encerramento da MIT-Harvard Brazil Conference, evento realizado nos Estados Unidos para debater temas ligados ao Brasil. Com 29 bilhões de fortuna, Lemann é sócio-fundador do fundo 3G e um dos donos de negócios como a cervejaria ABInBev e a fabricante de alimentos Heinz. Buffett, com 75 bilhões, é sócio de Lemann nesses negócios e dono de outros tantos.

A conferência, que está em seu terceiro ano e contou com mais de 700 participantes, é organizada por alunos brasileiros do Massachusetts Institute of Technology e da Universidade Harvard. Através de sua fundação, Lemann é um dos principais patrocinadores do evento. No sábado à noite ele seria entrevistado por Nitin Nohria, reitor da Harvard Business School, encerrando os dois dias de debates. A surpresa para os participantes foi anunciada logo que os dois subiram ao palco: Warren Buffett se juntaria à conversa.

Um dos pontos mais interessantes foi quando Nohria questionou sobre investimentos em países em desenvolvimento. Direto, Warren Buffett deixou claro que o grande problema fora dos Estados Unidos é achar algo com tamanho e relevância para suas operações. “Não me interessaria um negócio de 200 milhões de dólares,” disse. Já para Lemann, investir em lugares como a África, por exemplo, é estratégico. “A África vai passar os Estados Unidos no consumo de cerveja,” afirmou.

Ao final, o púbico pode fazer perguntas aos executivos. O vereador Eduardo Suplicy, sentado na segunda fileira, foi o primeiro a levantar a mão. Usando o gancho do livre comércio, ele questionou Buffett sobre a importância do livre fluxo de pessoas na economia – e sobre qual seria sua opinião sobre ter um presidente que propôs justamente construir um muro separando os Estados Unidos do México. Educado, Buffett saiu pela tangente, falando sobre o quanto o país avançou desde que nasceu.

Os destaques da conversa:

Parceria nos negócios

Buffett – “Estávamos no Colorado, quatro anos atrás, quando Jorge Paulo mencionou a Heinz. Pouco tempo depois ele me mandou uma página com informações financeiras e não precisei mexer em uma palavra. (…) Nós nos damos muito bem juntos.”

Lemann – “Conheci o Warren no conselho da Gilette. (…) Naquele momento, eu estava vendendo o banco (Garantia, em 1998). Ele me perguntou se eu estava feliz por vender e eu disse que sim. Ele quis saber o porquê. (…) Eu disse que queria ser como ele: ter mais controle do meu tempo, da minha vida… e ser mais rico. Ele me respondeu ‘Vou te mostrar o quão rico eu sou’, e trouxe uma agenda vazia. ‘Está vendo? Eu só faço o que quero… com meus amigos’. Até hoje minha mulher fala que eu não tenho a agenda do Warren (risos). (…). Quando mandamos a ele o memorando (da Heinz), liguei e perguntei se ele estava interessado e se gostaria que explicássemos algo. Ele perguntou: ‘Quanto dinheiro você precisa?’. Eu disse: ‘14 bilhões de dólares’. Ele respondeu ‘ok’. Você sempre tem respostas imediatas com ele. E elas são claras e objetivas”.

Investindo em mercados emergentes

Buffett – “Nós não vamos olhar para empresas menores – o que não significa que os negócios que já temos não deveriam olhar para outras oportunidades. Os Estados Unidos são um ótimo lugar para se viver e investir (…) mas, adoraria receber uma ligação da Alemanha ou Reino Unido a respeito de um negócio de 10 bilhões de dólares. Mas não me interessaria um negócio de 200 milhões de dólares.”

Lemann – “No nosso caso, a cerveja não é um mercado em expansão na Europa ou Estados Unidos. Temos que olhar para outros lugares – como a África. O maior atrativo da África é que eles terão dois bilhões de pessoas nos próximos 30 anos. É um clima quente, ideal para operarmos. Precisamos saber como fazer negócios lá. (…) A África vai passar os Estados Unidos no consumo de cerveja.”

Por que não investir em tecnologia?

Buffett – “Apple, Facebook, Microsoft e Google. Juntas, estas quarto empresas têm mais de 2 trilhões de dólares de valor de Mercado. Elas não precisam de uma rede grande de ativos. (…) Este mundo, em que você pode criar um modelo bilionário sem ativos tangentes – esse é um modelo diferente. (…) Há negócios que não precisam de um inventário grande, ativos, recebíveis, e eles têm margens extraordinárias. Isso não quer dizer que os dois tipos de negócios não possam existir.”

Lemann- “Essas empresas têm um grande valor – invejo isso. Mas os negócios para os quais estávamos disponíveis, onde eu estava, onde comecei, eram mais simples, básicos: tentar crescer o máximo que puder. O Warren tem evitado investir no que ele diz que não conhece. Eu me sinto tentado a experimentar, de vez em quando, sem colocar muito. Tenho consciência do que anda acontecendo (…) Os bons investimentos serão em tecnologia, mas eles são muito difíceis de entender e mudam rápido. Haverá cada vez mais oportunidades – e eu gostaria de saber mais sobre o assunto.”