Juros sobem com dólar e parâmetros do Orçamento

Com avanço das taxas mais curtas nesta quinta-feira, os investidores voltaram a precificar, pelo menos, duas altas consecutivas de 0,5 ponto porcentual da Selic

São Paulo – Num dia de agenda pesada, as taxas futuras de juros subiram nesta quinta-feira, 29, com certa intensidade, influenciadas, sobretudo, pelo comportamento do dólar, que voltou a se valorizar diante de dados positivos nos Estados Unidos.

Mas a divulgação dos parâmetros orçamentários de 2014 também fez preço, uma vez que o governo estabeleceu como meta um superávit primário de 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB), mas já avisou que o resultado pode ser de 2,1% ao se considerar os abatimentos. Além disso, as projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e para o crescimento do PIB foram de 5% e 4%, respectivamente.

Ao término da negociação regular na BM&FBovespa, a taxa do contrato futuro de juro para janeiro de 2014 (343.200 contratos) marcava 9,23%, de 9,17% no ajuste anterior.

O vencimento para janeiro de 2015 (497.015 contratos) indicava taxa de 10,41%, de 10,18% nesta quarta-feira, 28. Na ponta mais longa da curva a termo, o contrato para janeiro de 2017 (244.790 contratos) apontava máxima de 11,74%, ante 11,41% na véspera. O DI para janeiro de 2021 (5.855 contratos) estava em 12,10%, de 11,74% no ajuste anterior.

Com o avanço das taxas mais curtas nesta quinta-feira, os investidores voltaram a precificar, pelo menos, duas altas consecutivas de 0,5 ponto porcentual da Selic, que terminaria o ano em 10%. Nesta quarta-feira, confirmando as expectativas, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevou o juro básico em 0,5 ponto porcentual, repetindo os comunicados da decisão de maio e julho.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tentou minimizar as discussões sobre o resultado fiscal. Mantega afirmou que trabalha “com a hipótese de não usar o abatimento completo” e que o “objetivo é conseguir resultado melhor que 2,1% do PIB”. “Se o cenário melhorar, podemos fazer em 2014 superávit primário intermediário”, continuou, em referência a um resultado que ficaria abaixo dos 3,2%, mas acima dos 2,1%.


Mas, de acordo com profissionais da área de renda fixa, ficou evidente que não teremos, mais uma vez, uma meta clara e factível para o resultado primário. “Essa incerteza acaba adicionando pressão sobre os juros, pois a conta da pressão sobre os preços ficará toda sobre a política monetária”, disse um operador.

Nesta quinta, por sinal, o Tesouro Nacional anunciou que as contas do Governo Central apresentaram em julho um superávit primário de R$ 3,72 bilhões, um pouco acima da mediana encontrada pelo AE Projeções, de R$ 3,650 bilhões. No acumulado de 2013, as contas do Governo Central – que reúne Tesouro Nacional, BC e Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) – acumulam superávit primário de R$ 38,1 bilhões, apresentando uma queda de 26,7% em relação ao mesmo período de 2012.

Na avaliação do estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, o dólar é o principal vetor de pressão sobre os juros hoje. “Tanto que os DIs passaram a renovar máximas, à tarde, na medida em que o dólar acelerava os ganhos diante do real”, afirmou. Segundo Rostagno, a moeda dos EUA reage, principalmente, aos indicadores melhores do que o esperado vindos do país, o que reforçou a percepção de que o Federal Reserve (Fed, o BC norte-americano) pode iniciar a redução dos estímulos em setembro.

O PIB americano no segundo trimestre foi revisado para uma taxa anual de 2,5%, de 1,7% anteriormente. Além disso, o número de trabalhadores que entraram pela primeira vez com pedido de auxílio-desemprego nos EUA caiu em 6 mil, para 331 mil e em linha com as projeções. Diante disso, o dólar subiu de maneira generalizada. No Brasil, a moeda norte-americana no mercado à vista de balcão terminou cotada na máxima de R$ 2,3780, com valorização de 1,36%, em meio a novas intervenções do BC.