Juros curtos sobem, longos caem por visão de Selic maior

Investidores mostraram-se mais confiantes de que o Banco Central conseguirá conter a inflação com o aumento da taxa básica

São Paulo – Pode-se dizer que o Banco Central (BC) teve uma vitória nesta terça-feira na recente luta para domar as expectativas dos agentes financeiros. Os contratos mais longos de juros fecharam o dia em queda, enquanto a ponta mais curta se manteve em leve alta.

O movimento de redução da inclinação da curva de juros, que ocorre no dia seguinte ao discurso do presidente do BC, Alexandre Tombini, mostra que os investidores estão ligeiramente mais confiantes que a autoridade monetária terá êxito em controlar a inflação via aumento da taxa Selic no curto prazo.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reafirmou mais cedo o discurso do BC, de que o controle dos níveis de preços é prioridade e que as autoridades econômicas estão vigilantes. A taxa de desemprego de janeiro, acima da mediana das estimativas, e o resultado expressivo do superávit primário do Governo Central também contribuíram para a baixa, além do cenário externo mais conturbado.

Após os ajustes na BM&FBovespa, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em julho de 2013 projetava taxa de 7,32%, com 329.975 contratos, de 7,28% no ajuste anterior, e o contrato com vencimento em janeiro de 2014 tinha taxa de 7,81%, com 577.505 contratos, de 7,80% na véspera. O DI para janeiro de 2015 apontava 8,45% (298.470 contratos), ante 8,47%. Entre os contratos com vencimento no longo prazo, o DI para janeiro de 2017 tinha taxa de 9,14% (85.920 contratos), ante 9,16% no ajuste anterior e o contrato com vencimento em janeiro de 2021 apontava 9,62% (15.805 contratos), estável em relação à segunda-feira.

“A curva de juros está ficando menos inclinada, o que é um movimento normal em razão da percepção crescente de que o BC atuará nos próximos meses, via aumento da taxa Selic, para ancorar as expectativas de inflação”, afirmou Sérgio Goldenstein, sócio gestor da Arsa Investimentos.

Apesar de as apostas majoritárias mostrarem chance de alta da Selic em abril, começam a surgir investidores querendo garantir algum ganho financeiro no caso de manutenção da taxa básica. Segundo uma fonte de mercado, houve um lote elevado de opções de DI apostando em juro estável ao longo do ano pagando cinco vezes o valor da aposta.

Foi um dia sem indicadores diretamente ligados à inflação. O desemprego (5,4%) maior que a mediana das projeções do mercado financeiro (5,3%) pesou sobre os DIs. Já o estoque de crédito ficou estável em janeiro ante dezembro, em R$ 2,367 trilhões, segundo dados divulgados pelo BC. O Tesouro Nacional informou que o superávit do Governo Central em janeiro somou R$ 26,146 bilhões, recorde para o mês, alcançando 6,99% do Produto Interno Bruto (PIB), e acima do teto das projeções (de R$ 11,3 bilhões a R$ 25 bilhões).

Em Nova York, o ministro Mantega disse que o Brasil deve bater a meta de inflação este ano e afirmou que a boa notícia é que novos indicadores, como o IPC-S, mostram uma desaceleração. “Nem por isso vamos deixar de relaxar nossa atenção com a inflação”, declarou. “O controle da inflação é prioridade no Brasil. Jamais relaxaremos esse controle.”

Nos Estados Unidos, os mercados acionários perderam fôlego depois do testemunho do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, ao Comitê Bancário do Senado norte-americano, além de os dados da confiança terem vindo ruins mais uma vez. Na Itália, a potencial instabilidade criada pela fragmentação política na formação no novo governo gerou temores sobre o fim das reformas de austeridade no país.

Como destaque, o mercado financeiro apresentou baixa liquidez nesta manhã, o que levou o BC a injetar R$ 11,010 bilhões no sistema financeiro em operação overnight (um dia útil), à taxa de 7,32% ao ano, sem cortes nas propostas (integral). A operação interrompe a dinâmica recente, segundo a qual a autoridade monetária vinha enxugando a liquidez, tomando recursos do sistema financeiro.

Houve ainda uma diminuição no descolamento entre as duas principais taxas que medem o custo do dinheiro no País, a Selic e o CDI. O descolamento, que atingiu 0,18 ponto porcentual no último dia 19, com CDI em 6,93%, caiu a 0,15 ponto porcentual na segunda-feira e estava em 0,11 ponto porcentual na manhã desta terça, com o CDI em 7,00% (considerando Selic de 7,11%).