Itaú Corretora mensura estrago da alta dos juros nas ações de varejo

Se a Selic subir 3 pontos percentuais, por exemplo, é melhor investir em renda fixa do que em várias empresas do setor

A decisão do Banco Central (BC) de voltar a elevar os juros após três anos, anunciada nesta quarta-feira, representa apenas o início de um ciclo de aumentos que está por vir nos próximos meses. Um dos setores mais afetados pelas decisões do Copom (Comitê de Política Monetário do BC) é o varejo. Afinal, a diretoria do BC eleva a Selic justamente com o objetivo de conter o consumo e, com isso, frear as pressões inflacionárias.
 
Ainda é incerto o tamanho e a duração do ciclo de aumento de juros. Neste momento, o mercado trabalha com um cenário de que a Selic vai subir neste ano 1,5 ponto percentual até dezembro, chegando a 12,75% – previsão do boletim Focus. Em 2009, o BC retomaria gradualmente o movimento de baixa, com os juros retornando para 11,25%. Vale lembrar, no entanto, que as previsões para os juros são muito voláteis. Em janeiro, por exemplo, quase ninguém no mercado apostava em um ciclo de altas durante 2008 e havia até quem trabalhasse com previsões de retomada da trajetória de redução. Em poucas semanas, entretanto, a expectativa de IPCA para este ano superou o centro da meta de 4,5% e obrigou o BC a agir.
 
Devido a essas rápidas mudanças de cenário, a Itaú Corretora simulou o impacto da alta dos juros a partir de três cenários: elevação da Selic em 1, 2, ou 3 pontos percentuais (veja abaixo o resultado).
 
B2W
 
 Selic
  11,25% 12,25% 13,25% 14,25%
Preço-alvo (R$) 86,10 74,80 64,10 62,60
Potencial de Valorização (%)* 55,36 34,97 15,66 12,96
Pão de Açúcar
 
 Selic
  11,25% 12,25% 13,25% 14,25%
Preço-alvo (R$) 42,50 41,30 39,60 37,30
Potencial de Valorização (%)* 17,37 14,06 9,36 3,01
Ponto Frio
 
 Selic
  11,25% 12,25% 13,25% 14,25%
Preço-alvo (R$) 47,90 45,50 39,70 38,00
Potencial de Valorização (%)* 91,68 82,07 58,86 52,06
Riachuelo
 
 Selic
  11,25% 12,25% 13,25% 14,25%
Preço-alvo (R$) 76,10 73,60 69,40 59,50
Potencial de Valorização (%)* 55,31 50,20 41,63 21,43
Lojas Americanas
 
 Selic
  11,25% 12,25% 13,25% 14,25%
Preço-alvo (R$) 14,90 14,30 13,50 12,60
Potencial de Valorização (%)* 23,14 18,18 11,57 4,13
Lojas Renner
 
 Selic
  11,25% 12,25% 13,25% 14,25%
Preço-alvo (R$) 50,40 46,70 43,10 41,80
Potencial de Valorização (%)* 55,60 44,18 33,07 29,05
Saraiva
 
 Selic
  11,25% 12,25% 13,25% 14,25%
Preço-alvo (R$) 38,40 34,90 31,40 27,90
Potencial de Valorização (%)* 37,29 24,78 12,26 -0,25
* Em relação ao fechamento de 15 de abril.    
Fonte: Itaú Corretora    
 
No caso da B2W, por exemplo, a rentabilidade do investimento seria reduzida a menos de um terço caso os juros chegassem a 13,25% ao ano. As ações da empresa fazem parte da carteira sugerida  para abril por seis corretoras (Ágora, Fator, SLW, Socopa, Souza Barros e Unibanco), além da gestora de recursos Paraty Investimentos.
 
Boa parte desse impacto, no entanto, já está precificado nas ações (veja mais informações sobre os papéis na Central do Investidor ). Num período de três meses encerrados no dia 15 de abril, o Ibovespa acumulou uma alta de 4,5%. Já setores bastante ligados ao mercado interno – os mais afetados pela alta dos juros – amargaram baixas consideráveis. O comércio varejista perdeu nada menos que 18%. Já as lojas de departamentos tiveram queda de 13%. Ações de administradoras de shopping centers caíram em média 12%.
 
Apesar de estar entre os mais afetados, o varejo não é único a sofrer com a Selic m ais alta. Analistas apontam o setor de construção como outro que padecerá a cada piora de expectativa em relação à inflação. Nos últimos três meses, as construtoras da Bovespa perderam 10% do valor de mercado.
 
A própria Bovespa Holding foi bastante afetada. Como juros maiores estimulam a migração de recurso do mercado acionário para a renda fixa, as ações da bolsa despencaram mais de 20%. O resultado é particularmente negativo se for considerado que a Bovespa anunciou no período a fusão com a BM&F. A união das bolsas deve levar a economia de despesas de até 25% em 2010. Portanto, as ações deveriam ter respondido ao negócio com valorização, mas não foi o que aconteceu.
 
Inflação no mundo
 
O Brasil não é um caso isolado de elevação da inflação. Da China aos Estados Unidos, a alta dos preços de energia e das commodities tem obrigado bancos centrais a tomar posturas cautelosas para manter a inflação sob controle. Na China, a alta dos preços já chega a 8,3% ao ano – quase o dobro do centro da meta brasileira.
 
Na semana passada, o estrategista de mercados emergentes do banco Merrill Lynch, Michael Hartnett, foi categórico ao afirmar que a inflação já é uma ameaça maior para os países emergentes do que a provável recessão nos Estados Unidos. Enquanto a economia americana – considerada até então a principal fonte de preocupação do mercado desde o início da crise do subprime – só afundará os emergentes se provocar o fim do boom das commodities, a inflação já está causando altas de juros e retração do consumo em vários países.
 
O economista da Merrill Lynch elevou sua previsão da inflação em emergentes de 5,3% para 6,7% neste ano. Se por um lado a onda de aumentos de juros deverá conter essa escalada dos preços, por outro haverá forte impacto no mercado de capitais. Bolsas como de Xangai e Hong Kong acumulam perdas de mais de 30% desde novembro devido, principalmente, à expectativa de avanço dos preços.
 
Outro efeito colateral da alta dos juros no Brasil seria uma desvalorização ainda maior do dólar. Com a crescente diferença entre as taxas brasileiras e as praticadas nos EUA e Europa, mais capital especulativo pode chegar ao país, forçando a moeda americana para baixo. A valorização ainda maior do real ajudaria o país a controlar a inflação, mas prejudicaria principalmente os exportadores de bens manufaturados. Com o dólar cotado no atual patamar de 1,70 real, esses empresários já têm se queixado da redução das margens de lucro nas vendas ao exterior. Juros maiores só tendem a piorar esse cenário para os exportadores.