Investir em IPOs ficou mais arriscado

Após crise financeira nos Estados Unidos, apenas empresas sólidas devem obter bons resultados em ofertas públicas

Pouco mais de um mês após o ápice da crise de crédito hipotecário nos Estados Unidos, os investidores brasileiros já recuperam suas perdas e voltam a lucrar com as operações na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Nesta quinta-feira (27/9), a bolsa paulista bateu a marca histórica dos 60.000 pontos, depois de acumular quatro pregões consecutivos de alta.

A renovação do otimismo criou novamente um cenário favorável para a entrada de empresas no mercado acionário, movimento suspenso desde o estouro da crise, em agosto. Já figuram na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) 28 solicitações para abertura de capital e 21 pedidos de oferta pública inicial de ações.

A próxima leva de IPOs (sigla em inglês para oferta pública inicial), no entanto, deve ter resultados bem diferentes dos verificados no primeiro semestre. Segundo os analistas, o susto provocado pelo subprime, setor de hipotecas de alto risco que desencadeou a última crise financeira, deve deixar os investidores muito mais seletivos. “A festa do IPO está no fim. Antes, havia muita demanda e o mercado pagava o que se pedia. Agora, os investidores deverão analisar e precificar melhor os ativos, e só entrar nas operações que realmente apresentem boas oportunidades”, afirma Ricardo Tadeu Martins, gerente da área de Pesquisa da Planner Corretora.

A preferência daqui para a frente, dizem os especialistas, será por empresas já conhecidas do público e por ofertas primárias de ações. “O investidor quer aplicar seu dinheiro na empresa para fazê-lo render, não pagar a saída do sócio”, afirma Ricardo Humberto Rocha, professor de Finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA). As margens de lucro, a maturidade do negócio, a gestão e a política de relacionamento com os investidores também deverão ser bastante valorizadas. “O Brasil ainda não tem fôlego para bancar sozinho a entrada de novas empresas na Bolsa. Os investidores estrangeiros devem continuar sendo os maiores financiadores e, depois do susto do último mês, não vão arriscar em negócios que não sejam sólidos”, diz o professor da FIA.

Com a crise, os estrangeiros retiraram do Brasil cerca de 5 bilhões de reais, mas já voltaram a investir no país. Neste mês, até o dia 24, 2,855 bilhões de reais foram aplicados na Bovespa. Mais de 74% dos 42,9 bilhões de reais movimentados de janeiro a agosto deste ano em ofertas públicas iniciais de ações tiveram como origem os investidores estrangeiros. Dos 48 papéis ofertados, 14 apresentam hoje cotações abaixo do preço de lançamento (clique aqui  e veja o desempenho das novatas do IPO até hoje).

Segunda rodada

Nesta nova etapa de IPOs, a primeira empresa a entrar na Bolsa foi a fabricante de painéis de madeira Satipel. A companhia realizou na última sexta-feira (21/9) uma emissão mista de 30,6 milhões de ações a 13 reais cada – o piso da faixa sugerida pelo banco UBS Pactual, coordenador do IPO. Na estréia, as ações se desvalorizaram 4,54%, caindo a 12,41 reais, mas no pregão de ontem já acumulavam alta de 3,85%.

A próxima estréia será a da Sul América, no dia 5 de outubro. A expectativa do mercado é de que a operação seja melhor sucedida que a da Satipel. “Será uma oferta primária grande, de uma empresa já consolidada e que faz parte de um setor que conta com apenas uma concorrente na Bolsa – a Porto Seguro”, destaca um analista que preferiu não se identificar. A concorrência no setor de seguros, no entanto, promete aumentar nos próximos meses. Está em análise na CVM o pedido de oferta de ações da Marítima Seguros.

Alguns setores, como o de construção, apresentam sinais de saturação. Somente este ano, dez empresas iniciaram a negociação de suas ações na Bolsa, e já há mais seis estréias engatilhadas (veja abaixo). “As empresas de setores com muita concorrência e as de pequeno porte vão ter de provar que são ótimos negócios para conseguir atrair o investidor”, diz um analista.

Além disso, as iniciantes concorrem com gigantes como Vale do Rio Doce e Petrobras pela atenção dos investidores. Em setembro, os papéis das duas empresas subiram 30% e 15,6%, respectivamente, mostrando que o investidor não está disposto a correr grandes riscos. “No momento, o pequeno investidor também deve pensar duas vezes antes de entrar num IPO”, diz Rocha.

Para o professor da FIA, a melhor estratégia para o pequeno investidor que deseja negociar na Bovespa é fixar metas de alta e travas de baixa. Assim, quando a ação atingir a meta, o investidor deverá vendê-la para realizar o lucro – mesmo que a expectativa seja de maior valorização para os papéis – e, quando o mercado cair, deverá suportar a perda até um máximo pré-estabelecido. “É saudável realizar os lucros aos poucos. O investidor precisa sentir o gostinho de ganhar dinheiro para obter o prazer do investimento”, diz.

Próximos IPOs

Empresas que já solicitaram à CVM autorização para realizar oferta pública inicial de ações

  • Sul America
  • Bic Banco
  • Banco Panamericano
  • Helbor Empreendimentos
  • Marisa
  • PPE Fios Esmaltados
  • Moura Dubeux Engenharia
  • Banco Fibra
  • Construtora Tenda
  • Banco Industrial do Brasil
  • Trisul
  • Vix Logística
  • Brasil Brokers Participações
  • Marítima Seguros
  • Droga Raia
  • MB Engenharia
  • Paranapanema
  • Amil
  • Laboratório Americano de Farmacoterapia
  • Gbarbosa Holding
  • Imcopa Importação e Exportação Indústria de Óleos