Investidores vendem ações da Vale para recomprar mais barato na oferta pública

Estratégia é considerada arriscada, mas analistas vêem uma boa oportunidade nos papéis da companhia

Não é apenas a instabilidade no mercado financeiro que está derrubando as ações da Vale do Rio Doce na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Muitos investidores, ressaltam os analistas, estão se desfazendo dos papéis com a intenção de recomprá-los a um preço menor na oferta pública, que colocará mais 446 milhões de ações da companhia no mercado.

A estratégia, no entanto, embute um alto grau de risco. “Se todos os investidores agirem da mesma forma, a demanda pelos papéis deverá ser tão grande que acabará pressionando o preço”, alerta um analista que prefere não se identificar.

Nos últimos 30 dias, as ações preferenciais da Vale (VALE5) recuaram 14%, enquanto as ordinárias (VALE3) perderam 15% de seu valor. A queda, na opinião dos especialistas, tornou o papel tão atraente que nem mesmo as turbulências do mercado e as dúvidas em relação aos próximos passos da mineradora devem reduzir a procura na oferta pública.

Os pedidos de reserva serão feitos até o dia 15 de julho. Os investidores de varejo poderão aplicar entre 3.000 e 300.000 reais, sendo que os acionistas da empresa terão prioridade na reserva, na proporção de 0,086 nova ação para cada uma já detida, seja preferencial ou ordinária. Para definir quem será considerado acionista, a Vale utilizará a posição do dia 15 de julho.

Já os investidores que costumam comprar ações em ofertas públicas iniciais (IPOs, em inglês) para vender em seguida – os chamados flippers – serão penalizados. A companhia adotou o filtro que coloca esses investidores como “sem prioridade” na oferta. Ao todo, entre 10% e 20% das ações de cada espécie serão destinadas às pessoas físicas. Se houver excesso de demanda, será feito rateio. E somente no dia 16 de julho o investidor ficará sabendo qual será o preço de cada papel.

Considerando o fechamento desta quinta-feira (10/7), a operação renderia à Vale 21,3 bilhões de reais, caso o lote suplementar fosse negociado integralmente. O valor ficaria acima dos 15 bilhões pretendidos inicialmente pela companhia. Dois terços dos recursos obtidos, segundo a Vale, serão destinados a projetos e aquisições. Os outros 33% servirão para ampliar a flexibilidade financeira da empresa. A decisão de realizar a oferta pública num período tão conturbado nas bolsas tem seus prós e seus contras.

Se por um lado a companhia poderá captar menos do que seria possível caso o mercado estivesse favorável, por outro, terá caixa para aproveitar alguma oportunidade que se apresente. “Caso a BHP Billiton feche a compra da Rio Tinto, provavelmente os órgãos anti-truste exigirão que a companhia se desfaça de alguns ativos – que poderão ser interessantes para a Vale”, diz um analista.

Além disso, assim como a Vale, outras mineradoras viram seu valor de mercado cair nas últimas semanas em função das instabilidades nos mercados. A Xstrata, que já foi alvo da Vale, teve seu valor reduzido em 7,2% nos últimos 30 dias, enquanto o da Anglo American caiu 10,6% e o da Freeport-McMoran cedeu 10,4%.

A Vale já declarou que tem como objetivo diversificar seu portfólio de produtos. Do ponto de vista dessa estratégia, a Xstrata seria a melhor empresa para se adquirir, comentam os analistas. A Anglo American também seria boa opção, mas poderia gerar alguns contratempos junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Em ambos os casos a Vale fortaleceria sua atuação no comércio de carvão, que na avaliação dos analistas deve continuar com forte demanda e preços em alta. “Isso aumentaria o poder de negociação da companhia com as siderúrgicas”. Para os investidores, o resultado seria traduzido em melhor rentabilidade das ações.